Cinema Críticas

Crítica: Cruella (2021)

Cruella Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE CRUELLA!

Depois de Glenn Close vestir a pele de uma das vilãs mais acarinhadas da Disney, Cruella DeVille, é a vez de Emma Stone agir como a sua versão mais jovem. Cruella acompanha, portanto, Estella, uma jovem que ficou órfã após um acidente onde a sua mãe perdeu a vida e que é forçada a viver uma vida de “ladra de rua”, junto com os seus companheiros Jasper e Horace e dois amigos de quatro patas. Mas o sonho de Estella foi sempre ser designer de moda, e quando a oportunidade surge, Estella vai trabalhar para a pessoa que esteve presente na morte da sua mãe, a temível e autoritária Baronesa.

Cruella Critica de Cinema

Cruella é um filme que se revela uma surpresa ligeiramente agradável, melhorando o conceito desta vilã da Disney e transforma-o num filme suntuoso e com um estilo muito campy, de humor audaz e personagens (no seu geral) carismáticas, recuperando a essência de um não-muito-longínquo The Devil Wears Prada. Enquanto que Cruella tem aspetos fantásticos na sua composição, não deixa de ser um filme algo desnivelado por outros. A química entre Stone e Emma Thompson é fabulosa, alimentado por um showdown performativo acutilante e onde o filme consegue florescer e ser direto com aquilo que pretende. Para além disso, em termos técnicos, o filme é formidável, desde os cenários à maquilhagem, ao guarda-roupa e design de produção fantásticos (e claramente expectáveis). Realizado por Craig Gillespie, Cruella acaba por conseguir dar um twist carismático a uma vilã que nunca conseguiu encontrar o seu espaço de conforto no cinema atual (apesar de Close ser incrível no papel, o mesmo não pode ser dito dos filmes). Mas… o resto de Cruella acaba por deitar por terra um certo grau de realismo e de envolvência por vários motivos.

Para além de ser um filme desnecessariamente longo, alguns momentos visuais também acabam por não estar propriamente bem enquadrados no tipo de história. E a sequência inicial, onde vemos a jovem Estella a presenciar a morte da sua mãe não tem qualquer impacto no espectador e, inclusive, os efeitos visuais são penosos, revelando uma inspiração básica em Oliver Twist e que não é explorada com convicção. Aliás, Cruella é um filme que tem algumas dificuldades em assentar num tom preciso, porque ora é demasiado cómico e irrisório, ora é intenso e provocador. Nunca há propriamente uma estabilidade durante as quase duas horas e meia de filme (sim, isto é um facto) e, ao contrário do que muitos pensam, a banda-sonora nem sempre é bem aplicada em enaltecer os momentos, para além de ser muito pouco criativa e original na seleção de temas; um deslize para o compositor Nicholas Britell que ainda há pouco tempo nos agraciou com um dos seus melhores trabalhos em The Underground Railroad.

Cruella Critica de Cinema
CRUELLA
Emma Stone as Cruella

Ainda que o foco principal seja esta descoberta de Estella do seu alter ego megalomaníaco, através de uma vingança palpável, e de um amor pelos animais (este foi definitivamente o aspeto mais engraçado da narrativa) inesperado, Cruella vive das interações entre as duas Emmas que encanta e maravilham sempre que surgem em ecrã, criando um mote que dá origem a um twist imprevisível quase perto do desenlace. No entanto, todas as personagens secundárias são rapidamente esquecíveis, já que servem meramente como adorno à vivência de Estella e dos seus objetivos e sendo tratados sempre como meras muletas para alimentar o ego já grande da protagonista. Mesmo que possamos tapar os olhos a alguns dos defeitos mais óbvios de Cruella, o filme acaba por nunca encontrar um lugar confortável em muitos aspetos, caindo numa ambição e pretensiosismo que não o favorece em nada. Gillespie luta entre tornar o filme apropriado para um público mais jovem, ao mesmo tempo que quer elevar um pouco a fasquia e tratar de alguns temas mais delicados, mas esta instabilidade acaba por não resultar, num filme que tem a mesma crise identitária que a sua protagonista.

Ainda que seja necessário atribuir mérito a muitos aspetos de Cruella, este é um filme que, ora irá agradar às massas por dar um twist interessante à personagem que conhecem desde o lançamento do clássico 101 Dalmatians, ora irá ser um desgosto por ser exagerado em muitos dos retratos que faz e por desperdiçar a sua longa duração com o apaparicar de egos de duas personagens apenas e descartando todas as restantes que estão ali porque é necessário meter mais para não parecer um filme básico. Os efeitos visuais também não são propriamente cativantes e são mal utilizados em grande parte das sequências, tornando especialmente os animais que surgem no filme em algo muito plástico e irrealista. Mas, de facto, Stone e Thompson não desiludem e o filme resiste através desta dicotomia entre as duas personagens principais, mas isso não é suficiente para salvar o filme de ser uma novela demasiado longa, superficial e que carece de estabilidade criativa.

Cruella Critica de Cinema

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Título: Cruela

Título Original: Cruella

Realização: Craig Gillespie

Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, John McCrea, Emily Beecham, Mark Strong, Kayvan Novak, Kirby Howell-Baptiste.

Duração: 138 min.

Trailer | Cruella

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