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Crítica: A Quiet Place Part II (2020)

A Quiet Place Part II Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE A QUIET PLACE PART II!

Não foi há muito tempo que John Krasinski surpreendeu toda uma comunidade cética das suas capacidades de realização com a primeira entrada de A Quiet Place. Um filme de terror tenso, inesperadamente impactante e com uma temática que é capaz de nos deixar desconfortáveis ao som do mínimo barulho. Rapidamente (e com o lucro óbvio do primeiro filme), a Paramount viu a oportunidade de continuar a ganhar uma quantia significativa ao criar um franchise em torno deste conceito e ideia particular. A Quiet Place Part II chega este ano, depois de ser adiado devido à pandemia de COVID-19, e dá continuidade aos eventos do primeiro filme, com Evelyn e os seus filhos (incluindo um bebé) a tentarem evitar as criaturas arrepiantes que invadiram a Terra, e ao abandonarem a sua primeira casa, decidem deslocar-se até um novo local, onde aparentemente algum sobrevivente os irá receber. Quem os recebe é um Cillian Murphy sisudo e com uma barba que o favorece bastante mais do que a sua postura pouco convincente em Peaky Blinders. Murphy interpreta Emmett, um amigo da família Abbott, que também perdeu a sua família e vive sozinho nos escombros de uma antiga fábrica. Mas com os recursos a escassear e a oportunidade de descobrirem um potencial refúgio além do seu nicho faz com que a família se separe… e o mal continua a vaguear literalmente ao sabor do mais pequeno ruído.

A Quiet Place Part II Critica de Cinema

É com tristeza que escrevo esta crítica, já que A Quiet Place foi uma das melhores revelações em termos do cinema de terror dos últimos anos. Esta sequela (que incute ainda em si uma sequência de acontecimentos prévios aos recentes) é uma tentativa demasiado óbvia de tornar este sucesso num franchise que começa por revelar fragilidades imediatas com o seguimento da história. Há aqui uma ambição de Krasinski enorme em ampliar o leque de sobrevivência, utilizando algumas decisões menos boas de um worldbuilding que não tem já muito por onde fugir. A verdade é que recordei-me várias vezes de The Walking Dead, naquele meio pós-apocalíptico em que tudo é esticado até à exaustão e compromete-se o valor do que teria sido A Quiet Place se fosse um filme isolado. Embora esteja absolutamente rendido à componente técnica do filme, desde o som pujante, aos jump scares fluídos e à banda-sonora magnífica de Marco Beltrami, A Quiet Place Part II afoga-se nas suas ambições em termos narrativos, tornando algumas sequências previsíveis e, pior do que isso, irrisórias e apenas para efeito de uma expansão desnecessária. Sem querer dar muitos spoilers, porque sou apologista que cada um deve tirar as suas próprias conclusões, esta sequela cai no erro de tentar incluir novos elementos para alimentar algo que sabemos de antemão que não tem muito por onde progredir.

Acaba por pairar aquela mentalidade de “fazer para lucro” e remove o espírito que o primeiro filme incutiu, focando-se nos valores familiares e nos sacrifícios dolorosos para salvar quem mais se ama. Aqui, vemos A Quiet Place entrar num modo que mistura ação para efeitos pipoca e preocupa-se menos com o quão credível esta mesma é. Entramos numa etapa onde começamos a questionar o comportamento das personagens que se tornam irrisórios nalgumas situações, para além de uma sequência em específico que serve para alimentar aquela “adrenalina” final que irá despontar o terceiro capítulo deste franchise. Tudo isto, aliado à fraca exposição de explorar coerentemente o fator de sobrevivência, faz com que A Quiet Place Part II acabe por enfraquecer o que tornou o primeiro filme da saga um ícone dentro do género. As prestações são competentes, sendo que este é outro dos aspetos que o filme consegue trabalhar bem, ainda que as decisões das personagens sejam o que conduz o filme ao seu decréscimo. No entanto, há que dar mérito à equipa técnica de A Quiet Place Part II, que é absolutamente infalível e que o tornam numa experiência incrivelmente tensa e palpitante.

A Quiet Place Part II Critica de Cinema
2F1G0J9 A Quiet Place: Part II (2020) directed by John Krasinski and starring Emily Blunt as Evelyn and Noah Jupe as Marcus in a sequel following the Abbott family’s journey and the discovery of new dangers.

É por saber conjugar o som com a imagem que Krasinski retira o maior proveito da sua sequela, aumentando a quantidade de momentos de roer as unhas das mãos e dos pés juntos e de proporcionar uma experiência que se torna desconfortável e intensa ao mais alto nível. Mas, tudo isto, é apenas técnico, porque, de resto, A Quiet Place II é uma sequela desnecessária em termos argumentativos e está alimentar ainda mais uma Hollywood que não consegue fazer nada isolado e de despoletar franchises desnecessários para lucro. Mesmo que seja negócio, nunca nos esqueçamos que, no final do dia, o cinema também é arte.

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Título: Um Lugar Silencioso Parte II

Título Original: A Quiet Place Part II

Realização: John Krasinski

Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cillian Murphy, Djimon Hounsou.

Duração: 97 min.

Trailer | A Quiet Place Part II

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