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Anime oriental vs Anime ocidental

Anime

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a·ni·mé (japonês anime) nome masculino; Género de desenhos animados de origem japonesa.

O que devemos ou não considerar como animé? A dúvida não é nova, mas o crescimento do sucesso internacional do anime – seja no aumento de venda de DVDs, mais pedidos de dobragens e maior impacto nos box office do cinema internacional, assim como a maior aposta em originais de anime que se tem verificado nas grandes plataformas de streaming, nomeadamente na Netflix, tudo isto veio reacender a discussão.

Os problemas começam na etimologia da própria palavra anime, que gera controvérsias se o termo deriva do inglês ”animation” ou se vem do termo francês para animação, “dessin anime”. Enquanto os dicionários de inglês ou de língua portuguesa remetem para a definição dada no início deste texto, no Japão, de uma forma geral, o termo refere-se a todas as formas de animação do mundo inteiro. Sabe-se porém que nos anos de 1970/80 a expressão mais utilizada era japanimation e só mais tarde, meados dos anos 1980, é que este começou a ser substituído pelo termo anime. Hayao Miyazaki é um defensor do termo japanimation ao invés de anime, considerando que este último despreza o espirito da indústria de animação japonesa.

Anime oriental vs Anime ocidental

O certo é que antes de 1917 a discussão não existia de todo, já que este foi o ano em que o primeiro formato de anime foi para os cinemas do Japão. E teria de chegar o ano de 1958 para se assistir pela primeira vez a um anime colorido e a ser transmitido na televisão – Mole’s Adventure na Nippon Television. Atualmente podemos distinguir quatro tipos principais de formato em que os animes são lançados: filme, série de televisão, OVA (Original Video Animation) – produzido para ser vendido diretamente no mercado de vídeo, ou ONA (Original Net Animation) – distribuição dos trabalhos on-line em formato digital.

O processo mais comum é um anime ser uma adaptação da sua versão em mangá, ou seja a sua história em quadrinhos, e que após o sucesso começa a ser transportado para outros meios como a produção de videojogos e brinquedos. No entanto, também existem casos em que ocorre o processo inverso, onde temos jogos a partir dos quais foram produzidos anime e mangá (Dragon Quest, Pokémon) ou em que os anime tornam-se uma edição impressa da história em mangá. Neste contexto, outra guerra surge entre o que é mangá e como se distingue de outras bandas desenhadas como os comics ou as tiras de banda desenhada, mas o paralelismo é o mesmo para o feito no caso do anime.

Muitos consideram o anime apenas um género derivado do cartoon, sendo este mais antigo – o termo de origem britânica pensa-se ter sido utilizado pela primeira vez na década de 1840 – e já que a ascensão da animação japonesa, mais visível a partir da década de 1950, se deveu muito a influências ocidentais. Nomeadamente, a ocupação do Japão pelos EUA no fim da Segunda Guerra Mundial levou a um primeiro contato com a cultura ocidental para muitos artistas japoneses, que influenciados pela cultura pop começaram a reimaginar a sua forma de desenhar e, diversos artistas e estúdios, começaram a desenvolver projetos de animação experimental. Nesta altura, Osamu Tezuka, Shotaro Ishinomori e Leiji Matsumoto tornaram-se os principais artistas e maiores propulsores da indústria de anime do mundo, tendo vindo a ser imortalizados no mundo da mangá e do anime.

Anime oriental vs Anime ocidental

A razão pelo qual o anime não pode ser considerado um género é a de que ele próprio produz conteúdos variados, dentro de todos os géneros possíveis e imagináveis. Temos inúmeras divisões em categorias ou classificações que distinguem os anime por temas ou por público-alvo. Nos principais géneros temos: Ação, Aventura, Drama, Romance, Comédia, Paródia, Jogos/Desporto, Horror, Sci-Fi e Artes Marciais. Em termos demográficos contamos com: Shounen – anime direcionado ao público masculino jovem (Naruto, Hunter x Hunter); Shōjo – anime focado ao público feminino jovem (Ouran High School Host Club, Kaichou wa Maid-sama!); Seinen – geralmente para adultos, abordam assuntos mais sérios e pesados (Berserk, Hellsing); Josei – trata o romance de uma forma mais realista do que o anime shoujo, focando a narrativa em mulheres japonesas (Usagi Drop, Chihayafuru); Kodomo – o termo significa criança, e este género é então voltado para crianças menores (Doraemon, Medabots); e por fim o infame Hentai – para maiores de 18 anos, com caracter sexual e bastante descritivo (Bible Black, Angel Blade). Outros termos também muito ouvidos e que englobam subgéneros são: Mecha – de “mechanical”, utilizam robôs como elementos principais da narrativa (Mobile Suit Gundam, Code Geass); Ecchi – frequentemente classificados para maiores de 13 anos, têm uma conotação sexual, mas mais virada para o erótico e sem descrições de relações sexuais (Kill la Kill, Highschool of the Dead); Yaoi/Yuri – exploram romances homossexuais (Yarichin Bitch-bu, Aoi Hana); Isekai – neste género o protagonista é transportado, preso ou reencarnado em um universo paralelo (That Time I Got Reincarnated as a Slime, Sword Art Online); Slice-of-life – são centrados em pessoas comuns e em como estas lidam com o seu dia-a-dia (Violet Evergarden, Clannad).

Anime pode assim ser definido por um meio. Anime é na verdade uma forma de arte.

Anime oriental vs Anime ocidental

Gerações anteriores, dos nossos pais e avós, não ligavam muito a qualquer tipo de distinção, dizendo que tudo o que viam eram “desenhos animados”. Heidi, Flintstones, Astro Boy, Fantastic Four, Speed Racer, Tom and Jerry, e muitos outros, eram todos metidos no mesmo saco e não se falava mais nisso. Porém, o surgir de uma fandom acesa e supostamente defensora da indústria de animação japonesa veio exigir distinções entre anime e cartoon e até de outros estilos que viriam a surgir mais tarde.

De fato, o crescente interesse e sucesso do anime levou ao surgimento de comunidades de fãs defensores da animação e da cultura japonesa. Temos exemplos de comunidades cosplay (fãs que se vestem como seus personagens favoritos) direcionadas para o anime e, cada vez se vê um aumento mais significativo nos espectadores de animação japonesa que se reúnem na comunidade otaku. O termo é um pouco controverso e leva muitos fãs a não se identificarem com ele, uma vez que no Japão, “otaku”, significa “pessoa sem vida” ou “pessoa que não faz nada”. Otaku ou não, se antes a luta dos fãs era a de tornar o anime um estilo de arte por si, distinto do cartoon, o futuro traria guerras entre produções do estilo anime japonesas e produções não japonesas.

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O aumento da popularidade internacional do anime e a relevância de nomes como Studio Ghibli, Gainax e Toei Animation resultou num aumento de produções não-japonesas, onde estúdios de animação ocidentais começaram a implementar algumas estilizações visuais típicos do anime. Surge assim a necessidade de distinção entre simplesmente anime – termo referente explicitamente à animação japonesa, e o termo animação influenciada por anime, pseudoanime ou murikanime – que se refere a obras não-japonesas de animação, mas que emulam certos aspetos do estilo visual do anime.

De uma forma muito geral podemos apontar algumas características visuais que distinguem o anime do cartoon, como as expressões faciais mais distintas no caso do anime, com uma grande variedade nas características físicas que frequentemente se encontram mais próximas da realidade do que no caso dos cartoon. Olhos maiores, redondos ou rasgados, muito bem definidos, cheios de brilho e com cores chamativas, assim como bocas menores conferem ao estilo uma maior versatilidade nas emoções das personagens. De toda a forma estas generalidades são facilmente postas à prova quando comparamos produções de animação de alta qualidade com estilos próximos.

Comecemos por casos simples, é fácil distinguir A Viagem de Chihiro como um filme anime e a produção da Pocahontas como ocidental. Da mesma maneira não há dúvidas entre os Simpsons ou South Park e Bleach ou Dragon Ball. Todavia, as comparações complicam-se quando introduzimos os murikanime.

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O extremo sucesso atingido pelo Japão em filmes e séries de animação, e o reconhecimento desta indústria japonesa a nível internacional, não passou ao lado das grandes companhias de cartoon ocidentais como a Cartoon Network, Warner Bros, Nickelodeon, DreamWorks e até a Disney que optaram assim por começar a fazer produtos semelhantes em termos visuais e até inspirando-se nalguns temas de História ou fantasia.

Quem aqui não tem algumas dúvidas se deve considerar Avatar: The Last Airbender e The Legend of Korra como anime ou não? E quanto a Winx Club e She-Ra And The Princesses Of Power? Percebe-se que nestes últimos dois casos existe uma mistura de elementos europeus e japoneses – olhos grandes, bocas definidas e cabelos brilhantes, mas a inspiração em anime é tão presente que praticamente podemos designar estas séries de shōjo. Até mesmo séries icónicas e claramente americanas como The Batman e Teen Titans devem o seu sucesso à incorporação de elementos de anime, nomeadamente no design das personagens (investimento nas expressões faciais, atenção ás características físicas de forma a proporcionar um equilíbrio corporal e a escolha de diferentes cores para os cabelos dos Titans) e nas cenas de ação (misturando traços típicos dos comics com os da mangá). A aposta da Cartoon Netwok em Samurai Jack e The Powerpuff Girls destacou-se por projetos ambiciosos com múltiplas inspirações: enquanto em Samurai Jack, Genndy Tartakovsky revelou ter utilizado elementos que vão desde uma narrativa típica de filmes mudos, filmes noir e em comics, até a lutas inspiradas por filmes clássicos de Kung-Fu e de anime, explorando ainda mundos futuristas com grandes semelhanças com Akira; já nas The Powerpuff Girls sobressai o estilo japonês chibi, que é descrito por usar um traço de desenho de personagem bastante estilizado, com olhos bastante grandes e cabeças maiores que o tamanho dos corpos, geralmente para obter um efeito cómico ou mais sentimental.

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Aumentemos agora um pouco a dificuldade, o que dizer de Afro Samurai, Voltron: Legendary Defender, ou Castlevania?

A mangá de Afro Samurai, escrita por Takashi Okazaki, foi adaptada num anime e com seguimento num filme, com realização de Fuminori Kizaki e produzido por Gonzo, um estúdio tradicional de animação japonesa. O senão? A dobragem é em inglês, com a participação de Samuel L. Jackson na voz do protagonista. Em relação às outras duas séries, Voltron: Legendary Defender é um reboot da franquia Voltron, que por si surgiu como uma adaptação americana do anime Beast King GoLion. A animação é tipicamente de anime com uma mistura de CGI e foi realizada pelo estúdio Sul Coreano, Mir. Já Castlevania, é uma série de animação baseada no jogo japonês de mais sucesso da Konami. A animação utiliza animações 2D desenhados à mão, com inspiração dos anime Ninja Scroll e Vampire Hunter D, o estilo de desenho recorre a bases do trabalho que Ayami Kojima fez para o jogo Castlevania: Symphony of the Night e o design e as expressões das personagens tiraram ideias dos trabalhos do realizador japonês, Satoshi Kon. Ou seja, ambas são produções americanas distribuídas pela Netflix, baseadas em produções japonesas, com estilo de desenho e animação praticamente de anime, mas a dobragem é americana e não japonesa. Análise final: Anime ou murikanime?

Anime oriental vs Anime ocidental

3º nível de complexidade: então e quando temos o inverso? Que termo utilizamos para projetos de produção japonesa, com dobragem em japonês, estilo de anime, mas… são baseados em produções ocidentais? Entre 2010 e 2011 o estúdio japonês Madhouse em colaborações com a Japanese Warner Bros e com a Marvel Entertainment produziu um anime baseado na série de televisão, Supernatural: The Animation, e quatro séries do universo Marvel focados em Iron Man, Wolverine, X-Men e Blade.

Com certeza que muitos mais exemplos podiam ser referidos, mas ficam aqui só mais dois últimos, de animações recentes: RWBY e Yasuke. Criada pelo americano Monty Oum, com produção da americana Rooster Teeth Productions e com um elenco principal de atores americanos, RWBY é no papel em tudo um cartoon, no entanto a animação e a temática seguem tão fielmente o estilo de anime que esta produção foi considerada por muitos o primeiro anime americano. Quanto a Yasuke, que estreou o mês passado na Netflix: o criador da série é LeSean Thomas, o argumentista principal Nick Jones Jr. e a banda sonora ficou ao encargo de Flying Lotus. Estes três artistas têm em comum a sua nacionalidade americana. Porém, o desenvolvimento de designs, personagens, a arte, fotografia, CGI e todo o nível técnico do departamento da animação foi ao encargo de veteranos japoneses de anime com produção pelo conhecido estúdio japonês da Mappa. A nível de elenco e dobragem temos tanto uma versão em inglês como em japonês.

Estaremos nestes últimos casos ainda perante murikanime ou as linhas de distinção entre cartoon e anime estão já tão esbatidas que na verdade estamos perante dois tipos de anime, um de produção oriental e outro de produção ocidental?

Anime oriental vs Anime ocidental

No fim, a pergunta continua a pairar no ar e a resposta é a de que temos animação claramente com traços japoneses, e depois temos animação americana, animação europeia, animação… (preencher com o que se quiser), e por vezes surge uma “cozinha de fusão”, juntando estilos diferentes e que se for bem preparada é um “prato” excelente. Itadakimasu!

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