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Crítica: The Disciple (2020)

The Disciple

CONTÉM SPOILERS DE THE DISCIPLE!

“Through this music, we are shown the path to the Divine.”

O que acontece quando dedicamos toda a nossa vida a algo sem nunca sucedermos? Sharad Nerulkar tem o sonho de infância de seguir os passos do seu pai, do seu guru e dos antigos mestres e tornar-se um vocalista de música clássica indiana. Nerulkar treina e dedica-se diligentemente, mas como o passar dos anos o esforço não corresponde à excelência que ele espera alcançar.

The Disciple, o filme nomeado em 2020 para o Venice International Film Festival, o Toronto International Film Festival e o Independent Spirit Awards chega finalmente à Netflix. O filme conseguiu vencer em Veneza o Golden Osella para Melhor Argumento e o prémio FIPRESCI International Critics, e em Toronto venceu o Amplify Voices Award. Até mesmo em Portugal, The Disciple conseguiu impressionar, arrecadando o prémio de Melhor Filme no Lisbon & Estoril Film Festival.

O drama musical foi realizado por Chaitanya Tamhane (Court, Six Strands), com produção pela Zoo Entertainment e distribuição pela Netflix. Alfonso Cuarón (Roma, Gravity) atuou como produtor executivo e mentor de Tamhane, guiando tanto o processo de escrita como a utilização dos efeitos especiais para o filme. Na música, The Disciple contou com Aneesh Pradhan e na cinematografia com Michał Sobociński. O filme foi filmado na sua totalidade em Mumbai, na India.

O elenco conta com estrelas como Aditya Modak no papel do protagonista Sharad Nerulkar; Arun Dravid a interpretar Guruji, o professor de Nerulkar; e Sumitra Bhave (Doghi, Astu, Kaasav) na voz da mestre antiga, Maai.

“… Indian classical music is considered an Eternal Quest.”

The Disciple

Os filmes indianos ainda continuam marcados por um estigma de fraca qualidade, sendo associados apenas a uma Bollywood com explosões e cenas de ação impossível. No entanto, basta um olhar retrospetivo a filmes como o nomeado deste ano a Óscar de Melhor Argumento Adaptado, The White Tiger, ou a filmes mais antigos e vencedores de Óscares como Life of Pi ou Slumdog Millionaire para percebermos que existe alta competição nos filmes indianos. É certo que os filmes anteriormente referidos contam com uma abordagem ocidental para transmitir uma história sobre a cultura indiana, e é neste ponto que The Disciple se distingue, pois mergulha-nos em completo numa nova cultura e em costumes e gostos musicais completamente diferentes dos que estamos mais habituados no Ocidente.

E desta forma The Disciple é um filme fascinante, que vai despertar o interesse a todos aqueles que procuram narrativas com que facilmente nos identificamos, mas onde nos iremos sentir num mundo novo, devido a todas as novidades que entramos em contacto. Se me falarem de música clássica, os meus primeiros pensamentos óbvios vão para Mozart, Beethoven, Bach, Chopin, Tchaikovski ou outros, e nunca antes de ver este filme associaria música clássica ao seu género indiano, cujas raízes se estendem a centenas de anos A.C.

The Disciple

Aditya Modak interpreta um sólido papel, que se realça na sua relação com o guru, sendo o verdadeiro ponto forte do filme. A narrativa em queda de Nerulkar também traz um aspeto distinto, tornando The Disciple um filme peculiar. Outro ponto a realçar em termos de enredo são as gravações de Maai, que Nerulkar ouve ao longo do filme, e que aparecem como uma sabedoria pura e que aparentam que se “bebermos” dela encontraremos a solução para todos os problemas. Nerulkar treina, ouve e esforça-se muito, canta com a voz e com a mente, mas não cantando com o coração nunca alcança o objetivo.

A cinematografia e a música estão ambas de louvar. Estando no presente, no passado, na televisão com o pai de Nerulkar ou no concurso do India’s Got Talent, a qualidade da imagem adapta-se a todas as circunstâncias e enriquece a experiência cinematográfica. Quanto à música, é sem dúvida uma descoberta de um novo género musical que se pode estranhar ao princípio, mas que vai ficando no ouvido ao longo do filme.

Como referi, The Disciple é um filme fascinante, diferente e de certa forma inovador, mas para além de tudo isto deveria ser mais cativante. O problema é que ao longo do tempo o filme vai-nos perdendo gradualmente. Talvez falte vigor a Nerulkar, talvez falte um acontecimento de grande impacto para abanar as coisas, talvez as músicas clássicas indianas se tornem monótonas ou talvez seja um pouco de tudo isso. Dentro de um género musical as músicas não são todas iguais, Bach não é igual a Schubert, mas no filme parece que somos apresentados sempre a variações do mesmo tipo (basta uma visita ao YouTube para percebermos que existem também diferentes tipos de musica clássica indiana). O foco aumentar na relação entre discípulo e guru e diminuir na atenção ao aspeto musical trouxe assim um desequilíbrio ao filme.

“Don’t thread this path. If you want to walk this path, learn to be lonely and hungry.”

The Disciple

The Disciple, e a visão de Chaitanya Tamhane sobre a música, é um fascinante drama cultural sobre a perseguição de sonhos, a relação entre guru e discípulo e o aprender a persistir/falhar/reinventar. Pelo meio perde-se um pouco da essência musical do filme, passando para segundo plano e é-nos apresentado um reportório pouco variado.

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Título: The Disciple

Título Original: The Disciple

Realização: Chaitanya Tamhane

Elenco:  Aditya ModakArun DravidSumitra Bhave

Duração: 129 min.

Trailer | The Disciple

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