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Akira: um clássico para os amantes do cinema e de animé

Akira

PODE CONTER SPOILERS DE AKIRA!!!

Akira. Este é um dos títulos que tanto os fãs de cinema como de animé podem concordar num ponto: é um dos trabalhos mais influentes de sempre! Em minha justiça, sempre fui um fã de cinema desde que me lembro (a memória mais velha: a ida ao cinema para ver o Toy Story), com o apreço pelo animé a tornar-se mais vincado em anos recentes, sem contar aquelas memórias passadas com Dragon Ball, Rurouni Kenshin, Pokémon, Digimon ou (*suspiro*) Saylor Moon. Heavy hitters como Fullmetal Alchemist ou Death Note só me chamariam a atenção anos e anos depois. E foi no início deste ano que me aventurei por um filme (cujo mangá já tinha lido previamente) que tenho andado a adiar durante imenso tempo. Falo, claro, de Akira. 

Mas antes de me alongar, permitam-me a dar-vos a conhecer um pouco sobre este mundo (especialmente para quem nunca ouviu falar dele). 30 anos antes dos eventos principais, a cidade de Tóquio fica em ruínas, fruto de um evento misterioso para muitos. Entretanto, a cidade de Neo-Tóquio é fundada, mas não está ilesa de problemas, uma vez que é palco de cenas de crimes por parte de vários gangues criminosos ou de protestos devido a impostos de valores exorbitantes. Kaneda é um líder de um gangue de bikers, um delinquente adolescente que passa o seu tempo a frequentar um bar manhoso e a colocar os outros gangues no lugar. Tudo muda quando, numa determinada noite, Tetsuo, um dos seus melhores amigos de infância, sofre um acidente, acordando com poderes psíquicos em clara expansão. É aqui a história começa a assumir vários pontos de vista diferentes, desde a ascensão de Tetsuo como um perigo para a nação até à presença de Kaneda em vários palcos perigosos, inclusive uma resistência liderada pela misteriosa Kei.

Akira

Akira é, merecidamente, um filme de animação japonesa que pode ser considerada como um “filme de culto”. E um dos aspetos mais marcantes reside na sua animação. Nada contra o estilo de animação moderno, uma vez que pode tornar algumas séries banais em verdadeiras obras-primas em termos visuais (Jujutsu Kaisen é um exemplo disso). No entanto, existe aquela sensação indescritível quando revisitamos aqueles filmes e séries clássicas e continuam a exibir uma qualidade imortal. É essa a sensação que se tem quando se vê a primeira cena do filme até ao fim; tudo exibe qualidade que, mesmo hoje, poucos animés conseguem rivalizar. Desde a criação do ambiente de Neo-Tóquio nas luzes neon até às situações mais nightmare fuel imagináveis, existe todo um cuidado ao detalhe, e isso torna-se bastante evidente.

Ainda assim, a história do filme é claramente o vencedor. Existe uma citação bastante popular, decerto que já a tenhamos lido ou ouvido numa ou outra instância nas nossas vidas, e é a seguinte:

Absolute power corrupts absolutely.

Pensem desta forma: se, de um momento para o outro, obtivessem poder absoluto na palma das vossas mãos, o que fariam? O arco de Tetsuo resume-se praticamente a essa citação: num momento, um delinquente com ambições de ser reconhecido por todos à sua volta; no outro, um ser quasi-omnipotente, capaz de espalhar a destruição por onde quer que passe. Por vezes, a transição de uma personagem do protagonismo para o antagonismo consegue ser um desafio que muitos filmes não conseguem superar. Akira é brilhante nesse ponto, uma vez que vemos, em primeira mão, como Tetsuo reage quando recebe essa “prenda”. E embora possamos condenar as suas ações demonstradas, a verdade é que, de certa forma, entendemos a lógica por detrás das suas ações.

Em contraste, o arco de Kaneda tem alguns dissabores, uma vez que se resume a um rapaz que se une a um movimento revolucionário com motivações egoístas (leia-se: Kei), mas acaba por ganhar uma maior agência assim que as ações de Tetsuo tornam-se mais evidentes. É um rumo um tanto ou quanto familiar, mas proporciona alguns dos momentos mais marcantes do filme.

Akira

No entanto, não posso dizer que a minha experiência com o filme tenha sido dos melhores. Não tem a haver com o filme em si, que é magistral no seu todo, mas sim com uma das minhas decisões que muitos fãs de mangá podem até perceber: li o mangá primeiro antes de ver o filme. Anos podem ter passado e posso ter perdido algumas informações aqui e acolá, mas tenho a clara noção de que o mangá tinha mais informações para dar sobre o mundo que o filme, por ter uma duração de mais de duas horas, simplesmente não podia colocar. A meu ver, isso resultou em informações que me pareceu terem ficado a meio, ou mesmo outras mudanças repentinas. Vim a descobrir, através de pesquisas e leituras de artigos, que o filme tinha sido lançado antes do mangá ter chegado ao fim (o que é irónico, visto que o realizador do filme, Katsuhiro Ôtomo, é também o criador do mangá), daí os seus finais terem sido divergentes. Ainda assim, o resultado deixou-me aquém do desejado.

Isso não desvaloriza o impacto que Akira teve no mundo do cinema e da indústria de animé. Apesar das minhas reservas em relação ao filme, estas partem da minha experiência como leitor. Porque fora, reconheço que ambos os meios têm os seus pontos a favor. Porque, se formos bem a ver, o filme tem tudo para merecer o seu estatuto de culto: a arte resistente ao teste do tempo, uma história repleta de mistério e personagens surpreendentemente bem escritas (na sua maioria; creio que Kei foi uma das injustiçadas neste meio cinematográfico). Visitei o filme pela primeira vez depois de: 1) já ter sabido, há algum tempo, que Taika Waititi encarregue de uma versão live-action (se bem que, pessoalmente, vou manter o pé bastante atrás; e 2) vem aí uma adaptação animada em formato de série (!!!) que, com alguma sorte, conseguirá adaptar o mangá no seu todo. Resta esperar por outras novidades entretanto. Mas até lá, fica o conselho: quer vejam o filme ou leiam o mangá, dêem uma hipótese a Akira e deixem-se inundar por esse mundo estranho e violento.

Akira

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