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Gorō Miyazaki: Ronja, the Robber’s Daughter

Gorō Miyazaki Ronja

The essence of spring is the essence of life

Se os Studio Ghibli são considerados por alguns a “Disney dos animes”, então neste contexto Hayao Miyazaki é o equivalente a Walt Disney. Mas basta de comparações, pois existe espaço mais do que suficiente para apreciar as grandes obras de arte produzidas pelos dois estúdios.

My Neighbor Totoro, Spirited Away ou Howl’s Moving Castle são nomes bem conhecidos para os fãs de Hayao Miyazaki, embora este também possua obras menos comentadas, apesar de igualmente merecedoras de louvor, como Porco Rosso, Laputa: Castle in the Sky ou The Wind Rises. No entanto, menos notório ainda que estas obras é o outro Miyazaki, filho de Hayao… estamos a falar claro de Gorō Miyazaki.

Gorō Miyazaki Ronja

É certo que Gorō ainda não tem o talento do pai, mas parece ter a paixão, a garra e a mente para a inovação e para a experimentação de novos rumos do anime japonês.

Uma das apostas de Gorō é a animação em computação gráfica. A animação de anime em computação gráfica, principalmente em modelagem 3D, ainda é vista por muitos como a destruição da essência do anime em si. Porém, é importante não esquecer que a Pixar e o filme Toy Story também foram olhados de lado e considerados como aberrações quando apareceram. Dito isto, no geral, o anime em 3D ainda está longe da qualidade das suas contrapartes ocidentais, mas para haver progresso alguém tem de trilhar esse caminho, e neste caso esse alguém poderá ser Gorō Miyazaki.

Gorō teve um percurso de carreira peculiar, pois apesar do gosto pela animação, devido à relação conturbada com o pai, Hayao, e por se sentir intimidado, que nunca alcançaria o mesmo nível de excelência profissional que este, optou então primeiramente por uma carreira no paisagismo. Só anos mais tarde, por convite do produtor Toshio Suzuki é que Gorō entrou para a família Ghibli e acabou a realizar e a trabalhar no guião do seu primeiro filme, Tales from Earthsea (Gedo senki). O filme teve uma receção mista, havendo elogios na animação visual, mas críticas de um enredo demasiado confuso e sendo considerado uma fraca adaptação do material de origem.

Na sua segunda tentativa, Gorō entrega-nos From Up on Poppy Hill (Kokuriko-zaka kara) que, pessoalmente, considero que é o seu filme mais completo, mas a muito se deve ao papel Hayao Miyazaki no argumento.

E é assim que chegamos finalmente a Ronja, the Robber’s Daughter (Sanzoku no musume Rônya). Ronja é a primeira série televisiva dos Studio Ghibli, lançada em 2014, e surge de uma colaboração deste estúdio com a Polygon Pictures, a NHK Enterprises e a Dwang. Este anime é também marcado por ser o primeiro trabalho da Ghibli a recorrer a animação em computação gráfica, sendo que as personagens são um híbrido entre o CGI e o estilo clássico em 2D da Ghibli. O anime possui 26 episódios de cerca de 25 minutos cada.

Gorō Miyazaki Ronja

A história é baseada num romance de fantasia – Ronja Rövardotter – escrito em 1981 pela autora sueca Astrid Lindgren. Gorō Miyazaki realizou e criou os storyboards para a série, Hiroyuki Kawasaki tratou do argumento e Katsuya Kondō ficou responsável pelo design das personagens. Desde 2017, que a versão dobrada para inglês está disponível no serviço da Amazon Prime – como curiosidade, nesta versão a narração é feita pela Gillian Anderson.

Ronja é um anime que celebra a infância, o crescimento, a independência mas também a cooperação e a amizade e, acima de tudo fala-nos sobre laços e família. É uma série, que tal como Gorō expressou a sua vontade na produção, agrada a toda a família, facilmente apelando e emocionando também adultos. Em 2016 ganhou o International Emmy Award-Kids: Animation.

Quanto à história em si, Ronja cresce entre um bando de ladrões que vivem num castelo, nas florestas da Escandinávia, no início da Era medieval. Mattis é o pai de Ronja e o valente líder deste proeminente bando de ladrões, muito ao estilo do bando de Robin Hood; quanto a Lovis, mãe de Ronja, e a única mulher no meio do bando, cuida deles como se fosse mãe de todos. Quando Ronja atinge uma cerca idade é-lhe permitido sair do castelo e explorar a floresta, onde tem de aprender a sobreviver na Natureza e descobrir os animais e as criaturas míticas que nela habitam. No entanto, quando o clã rival dos bandidos de Borka se muda para a vizinhança, tudo irá complicar. tanto para Mattis, como para Ronja, que chocará com Birk, um rapaz da sua idade e filho do chefe do bando rival.

A animação cumpre o objetivo de nos trazer algo diferente do habitual e, para além disso, ao manter traços tradicionais, conjugando cores vivas e desenhos detalhados, proporciona-nos personagens extremamente ricas e paisagens encantadoras. A paixão de Gorō pela natureza ajudou que a recriação dos sons, movimentos e vida na floresta parecessem extremamente reais. É sem dúvida um dos pontos mais fortes do anime onde se nota a atenção dos detalhes da época histórica e dos cenários que se enquadram, e nos dão a sensação de que as personagens partilham o seu espaço connosco. Seja a partilhar uma refeição com o bando do Mattis no Grande Salão do castelo, seja a correr com Ronja pela floresta somos facilmente arrebatados visualmente.

A maioria das personagens, principalmente no que diz respeito ao bando de Mattis, possui características próprias e detalhadas; há personalidade e caracterização em cada um deles. No entanto o destaque do desenvolvimento de personagem vai, sem surpresa, para Ronja e em segundo para Birk. O anime inicia-se com o foco na relação entre Ronja e Mattis, na qual podemos talvez ver um pouco da história pessoal de Gorō e das suas dificuldades nos laços com o pai, este foco passa para Ronja e Birk e realça como os laços de amizade são tão importantes como os familiares.

Gorō Miyazaki Ronja

Tanto a música de abertura como a de fecho são excelentes, mas realço a de abertura – “The Call of Spring” (“Haru no Sakebi”) por Aoi Teshima, que realmente captura o espirito do anime (e com lógica), já que a letra foi também escrita por Gorō. O destaque musical vai, no entanto, para música de embalar que Lovis, a mãe de Ronja lhe canta todas as noites e que aquece o coração e aconchega o espírito – The Wolf Song, composta por Satoshi Takebe.

Ronja transporta-nos para animes mais antigos como Heidi e Marco onde as parecenças são muitas, mas também nos lembra das aventuras e emoções de Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Sonhamos que voltámos à infância e que brincamos com mil amigos com os quais partilhamos eternas aventuras.

Ronja é também um passo importante na carreira de Gorō Miyazaki, pois marca o ponto onde este atinge uma verdadeira independência e estatuto. É visível o seu crescimento como realizador e este reflete-se no seu trabalho futuro como no seu mais recente filme, Earwig and the Witch (Âya to majo). Para quem assistiu Ronja é extremamente engraçado encontrar personagens deste anime como figurantes em Earwig and the Witch.

Ronja não é, no entanto, um anime perfeito e, na verdade, é um exemplo de um dos constantes pontos mais fracos de Gorō que é a narrativa, neste caso em particular, o ritmo e o fluxo da mesma. Apesar de em Ronja isso ser corrigido mais tarde no anime, o início da história é demasiado lento. e parece arrastar-se em pontos pouco interessantes. Outro problema é a falta de seguimento quando o potencial para mais existe. Quem assistiu a Earwig and the Witch pode ter ficado com a sensação que a história dava para ser estendida e parece que a narrativa terminou a meio, e com Ronja acontece o mesmo. É pena não terem apostado numa 2ª temporada do anime.

Gorō Miyazaki Ronja

Oh spring, hear my shout far and wide

Ronja, the Robber’s Daughter de Gorō Miyazaki é o anime ideal para recordar a infância e para celebrar os laços de família e amizade. Com elementos da época medieval, de fantasia e com relação com a natureza tem tudo para agradar à maioria do público.

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Trailer | Ronja, the Robber’s Daughter

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