Open Sesame Rubricas

Neon Genesis Evangelion: A (controversa) obra-prima de Hideaki Anno

Neon Genesis Evangelion

“If you know pain and hardship, it’s easier to be kind to others.” – Ryoji Kaji

Um dos pontos fortes que a Netflix tem a seu favor reside na sua biblioteca permanentemente expansiva. Claro que, pelo serviço cobrado, a atenção imediata paira imediatamente para os conteúdos originais do serviço de streaming, sejam eles filmes, séries, reality shows, documentários, comedy specials ou, claro está, séries de animé. Alguns dos seus conteúdos originais podem até deixar bastante a desejar, mas também traz consigo algumas surpresas. No entanto!, também apresenta uma oportunidade de (re)ver algumas séries clássicas que ou não tivemos oportunidade de experienciar ou simplesmente deixámos na famosa lista de “ver mais tarde”. E é um desses clássicos que será abordado no Open Sesame desta semana. Falamo-vos, claro, de Neon Genesis Evangelion, a obra-prima inovadora e, por vezes, controversa de Hideaki Anno!

Neon Genesis Evangelion

NOTA: A PARTIR DAQUI, ESTE ARTIGO PODERÁ INCORRER EM SPOILERS, NÃO SÓ DA SÉRIE, MAS TAMBÉM DO SEU FILME “CONCLUSIVO”, THE END OF EVANGELION, TAL COMO TRÊS QUARTOS DA TETRALOGIA REBUILD OF EVANGELION!!!

“So fu*** what if I’m not you?! That doesn’t mean it’s okay for you to give up! If you do, I’ll never forgive you as long as I live. God knows I’m not perfect either. I’ve made tons of stupid mistakes and later I regretted them. And I’ve done it over and over again, thousands of times. A cycle of hollow joy and vicious self-hatred. But even so, every time I learned something about myself.” – Misato Katsuragi

Transmitida em 1995 e produzida pela GainaxNeon Genesis Evangelion centra-se em Shinji Ikari, um rapaz de 14 anos que, no meio de uma Tokyo-3 no rescaldo do evento pós-apocalíptico, recebe a missão de defender a Humanidade de criaturas bizarras denominadas de Anjos. Para esse efeito, Shinji recebe a posição de piloto de um mech humanoide com traços orgânicos. A sua designação: Evangelion Unit 01, ou EVA-01.

“Your truth can be changed simply by the way you accept it. That’s how fragile the truth for a human is.” – Kozo Fuyutsuki

Neon Genesis Evangelion pode parecer como uma série mecha tradicional. Temos adolescentes que acabam por se tornar pilotos por circunstâncias da vida, criaturas fantásticas que ameaçam a Humanidade em geral, robôs gigantes… No entanto, estes elementos acabam por ser superficiais para os grandes feitos que a série conseguiu trazer em 1995: o ser humano e as suas falhas inerentes.

É essa componente mais psicológica que se torna icónica para a série, um fator que muitas outras tentaram replicar sem grande sucesso. Na sua génese, a série “pega” em elementos já familiares deste género e acaba por distorcer as nossas próprias expectativas, conseguindo, desta forma, criar algumas surpresas. E o que torna esse ponto de vista mais aparente reside nos personagens que habitam este mundo inóspito.

Neon Genesis Evangelion

E existem algumas personagens na série que conseguem englobar essas falhas, tornando-as personagens igualmente cativantes. Temos o caso de Shinji, que acaba por se emaranhar neste novelo, uma vez que se convence que é como piloto de um EVA que ele será aceite pelo próximo; Asuka, uma rapariga barulhenta e confiante (o completo oposto de Shinji), cujo exterior repleto de bravado esconde um passado dominado pela saúde mental; Misato Katsuragi, a superiora de Shinki que, embora varie entre uma personalidade mais alegre e outra mais convicta, também esconde um passado sombrio; Rei Ayanami, uma das pilotos que se mantém afastada de tudo e de todos, retendo um nível de mistério do início ao fim…

Estas são algumas das personagens que habitam Neon Genesis Evangelion, e quase todas elas conseguem servir de case studies numa aula de Psicologia. Depressão, auto-estima, luto, mommy e daddy issues… Acoplados com alguma simbologia claramente ligada ao Cristianismo, e temos aqui uma série que não só subverte as nossas expectativas, mas também nos convida para uma conversa profunda sobre o ser humano no seu todo.

Neon Genesis Evangelion

Apesar desse foco mais cerebral, Neon Genesis Evangelion não deixa de ser uma série mecha, e é aqui que entram os Anjos, que servem como os antagonistas “principais” da série. Apesar de terem uma motivação único e que não os torna tão diferentes, acabam por ser os protagonistas das melhores sequências de ação que a série consegue proporcionar. Além disso, todos os Anjos são únicos, não só em design, mas também nos seus respetivos métodos de combate, obrigando os humanos a “pensar fora da caixa” para encontrarem uma maneira de salvar o dia.

Em termos gráficos, a série continua impressionante, mesmo nos dias de hoje. Seja no design das personagens ou dos mechs (que não são mechs, se bem que isso continua a ser alvo de reinterpretações, na nossa atualidade), existe aqui toda uma originalidade que continua sem rival, mesmo com os animes mais modernos.

Neon Genesis Evangelion

“Humans cannot create anything out of nothingness. Humans cannot accomplish anything without holding onto something. After all, humans are not gods.” – Kaworu Nagisa

No entanto, a série também não ficou imune a uma série de controvérsias. Hoje em dia, Neon Genesis Evangelion é tida como uma série que inovou em vários campos imagináveis; mas na altura, a série foi vítima de imensos problemas. Um dos problemas residiu no orçamento, que este prestes a terminar aquando dos episódios finais. Isso deu origem aos ínfames dois últimos episódios da série, que trocou a abordagem habitual para um case study literal, em que Shinji foi de encontro com os seus problemas psicológicos. Atualmente, vemos estes episódios como geniais e relevantes, especialmente com a mensagem de autoaceitação do “eu próprio”. Na altura, estes episódios despertaram a ira dos fãs, ao ponto de a GainaxAnno e outros responsáveis terem recebido ameaças de morte.

Felizmente, Anno e companhia não tardaram com a resposta: The End of Evangelion. Basicamente, serve de remake dos episódios finais, desta feita com um sentido mais orientado para a ação, sem esquecer de alguns momentos mais psicologicamente perturbadores já habituais da série. A mensagem acaba por ser diferente, mas igualmente relevante: é normal abrimo-nos ao próximo. Sim, acabamos por sofrer mais quando interagimos com o próximo, mas também temos direito a momentos de alegria e de proximidade. Qual dos finais é o melhor? Ficará para sempre ao critério de cada um e da sua experiência ao ver a série.

Neon Genesis Evangelion

Durante anos, tanto Neon Genesis Evangelion como The End of Evangelion têm sido a norma para os fãs da saga. Durante esse tempo, estes foram vistos como a visão essencial de Hideaki Anno para a história de Shinji e companhia. No entanto, e para surpresa de muitos, Anno regressou a este universo com o Rebuild of Evangelion, uma tetralogia de filmes que servem, basicamente, de uma nova interpretação dos eventos da série. A diferença não se restringe apenas ao aspeto visual, agora a cargo do Studio Khara, que tira partido de uma palete de cores mais viva e dos avanços tecnológicos do século XXI. Também a história em geral recebe um upgrade, com o primeiro filme – You Are (Not) Alone – a servir de recap dos primeiros episódios, com You Can (Not) Advance a tomar algumas liberdades em relação aos eventos retratados, e You Can (Not) Redo basicamente atirar toda a premissa para território inexplorado.

Com a última parte de Rebuild of EvangelionThrice Upon a Time, a ser um enorme sucesso de bilheteira no Japão (portanto, uma importação para o Oeste poderá levar algum tempo), esta pode bem ser a melhor altura para revisitar Neon Genesis Evangelion. Uma série que, certamente, dará motivo de conversa para todos os envolvidos. Pode ter alguns elementos do género mecha que muitos poderão não achar imensa graça, sai a ganhar pela sua abordagem a comportamentos psicológicos relevantes nos dias de hoje, além de símbolos com ligações diretas à religião. É uma série que, quer se veja pela primeira vez ou se revisite de vez em quando, continua a ser uma experiência única.

“I still don’t know where to find happiness. But I’ll continue to think about whether it’s good to be here… whether it was good to have been born. But in the end, it’s just realizing the obvious over and over again. Because I am myself.” – Shinji Ikari

 

Podem encontrar Neon Genesis EvangelionThe End of Evangelion disponíveis na Netflix atualmente.

Podem ler outras das nossas entradas do Open Sesame aqui.

Comments