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Crítica: Godzilla vs. Kong (2021)

Godzilla vs. Kong Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE GODZILLA VS. KONG!

Como qualquer amante de monster movies, ver Godzilla vs. Kong era imprescindível, muito porque ainda consegui encontrar alguns aspetos que tornavam Godzilla: King of the Monsters um espetáculo cinematográfico decente e com algumas características visuais cativantes. Embora Kong: Skull Island tenha ficado aquém das espectativas, o confronto entre os dois titãs era um dos que mais ansiava por ver este ano. No entanto, é um exercício extremamente sobrevalorizado de cinema, onde se dá início à tentativa de convencer as pessoas a dirigirem-se à sala do cinema numa altura ainda preocupante. Godzilla vs. Kong é um produto que tem alguns aspetos engraçados, mas é uma obra frustrante e oca, sem o charme típico dos monster movies que tanto aprecio e que tanto me inspiraram desde criança.

Godzilla vs. Kong Critica de Cinema

Com Kong retido numa cúpula que reproduz o seu habitat, uma organização decide levá-lo até a um local onde potencialmente o gorila gigante conseguirá encontrar um novo lar. Enquanto isto, Godzilla destrói uma central da Apex Industries por algum motivo desconhecido, fazendo com que o respeito da humanidade comece a ficar comprometido e a imagem do titã protetor comece a denegrir. Mas um podcaster influente, juntamente com Emma Russell e o seu amigo Josh, decidem descobrir a verdade por trás da Apex, revelando as suas verdadeiras intenções. Nisto, Kong descobre a sua nova casa, mas depressa se apercebe que a sua missão é maior do que aquilo que inicialmente se pensava.

Godzilla vs. Kong é um filme que, à partida, nunca poderíamos levar a sério. É um display de efeitos visuais onde aquilo que verdadeiramente interessa ao público são as batalhas constantes entre os monstros mais icónicos do cinema e que, de alguma forma, precisam de fazer frente um ao outro para estabelecer dominância sobre o planeta. De facto, as batalhas entre os monstros são aquilo que Adam Wingard trabalha com alguns planos diversificados, criando sequências de ação vertiginosas e que fluem sem paragens, tirando proveito de uma banda-sonora palpitante de Junkie LX. Enquanto que em todos os restantes aspetos Godzilla vs. Kong fracassa, pelo menos em termos visuais, o filme consegue captar o olho e conquistar alguns dos fãs mais acérrimos deste MonsterVerse.

Godzilla vs. Kong Critica de Cinema

Mas é preciso ser-se consciente de que a narrativa de Godzilla vs. Kong, que deveria ficar por algo simples e não muito trabalhado, é absolutamente precária, com uma montagem que está constantemente a saltitar de um lado para o outro, fazendo com que se perca a noção espácio-temporal em que decorre a ação, levando a outras fragilidades ambiciosas que, de alguma forma, não assentam nesta génese de filme. É caso para dizer que, sem as personagens humanas, o filme conseguiria ser mais interessante do que realmente é. A verdade é que o argumento é tão absurdo na exposição da temática que se torna incomodativo e quebra as doses de excitação, enveredando por uma ciência pouco credível e uma mitologia sem substância. Para além disso, esta humanização dos monstros e da sua relação com a população humana começa a parecer forçada e a tornar-se irritante, insistindo sistematicamente nos mesmos clichés que começam a não deixar o franchise crescer por si mesmo.

A pressa com que as sequências e as cenas acontecem levam-nos a questionar o ritmo de produção do filme, que parece ter sido feito “às quatro pancadas” para chegar depressa aos cinemas e iniciar um ritual de apelo para que as pessoas se dirijam às salas e desfrutem da experiência depois de tanto tempo de confinamento. Se o globo estivesse desprovido da presença deste vírus terrível, talvez isto se justificasse, mas desta forma, é marketing enganoso e que ainda pode provocar novo aumento de casos desnecessariamente. É triste de igual forma que a crítica, no seu geral, esteja constantemente a incentivar que o filme deva ser visto numa tela de cinema para reforçar a ideia de que os box offices precisam de continuar a lucrar.

Godzilla vs. Kong Critica de Cinema

Godzilla vs. Kong tem algumas sequências de ação interessantes e dignas de uma tela gigante ou até duma experiência IMAX, mas não é, de todo, um bom filme. É um produto de marketing que procura ludibriar o espectador a ir à sala de cinema e, por muito que isto seja algo muito desejado, continua a não ser recomendável. O filme tem diversos problemas de argumento, carece de personagens refrescantes e com camadas, tem uma ciência básica e uma mitologia que não chega propriamente a lado nenhum. Uma sequência ou outra engraçadas não são suficientes para tornar o Godzilla vs. Kong em algo que mereça o hype que está a ter. A silliness dos monster movies é levada demasiado a sério e os problemas de ritmo fazem com que este exercício pareça plástico e sem alma. Outra questão problemática é precisamente o “insistir na mesma tecla” com a temática e colocar os humanos como intervenientes fulcrais e óbvios na narrativa, contribuindo para um conflito entre a ciência, tecnologia e a mitologia natural e histórica em que ambos os protagonistas Zilla e Kong se inserem.

O facto de querer incutir demasiados aspetos num filme tão curto leva Godzilla vs. Kong a afundar-se nas suas ambições e, em vez de trazer aquilo que era esperado, é apenas uma tentativa de “transformizar” (sim, a intenção desta palavra é mesmo essa) algo que não tem, sequer, uma justificação plausível para tal. É um filme desequilibrado e com problemas técnicos evidentes, apesar de Wingard conseguir brincar de forma hábil com a câmara nos confrontos entre os titãs que dão título ao filme, mas isto não é suficiente para deixar uma marca significativa ou que traga um contributo para que queiramos rever o filme.

É pena que um filme tão pobre e tão desnecessariamente apressado seja o que é usado pela crítica mundial para apelar à população para se dirigir às salas de cinema. Pior ainda é incentivar o público a deslocar-se a uma sala de cinema quando o risco de propagação do vírus continua a ser uma problemática e este marketing enganoso é preocupante. Mesmo que queiram ver Godzilla vs. Kong na tela de cinema, façam-no numa altura em que os riscos não sejam iminentes; e para aqueles que procuram uma experiência cinematográfica de qualidade, vejam os filmes candidatos aos Óscares que são, sem dúvida, muito mais substanciais que este monster movie arruinado.

Godzilla vs. Kong Critica de Cinema

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Título: Godzilla vs. Kong

Título Original: Godzilla vs. Kong

Realização: Adam Wingard

Elenco: Alexander Skarsgård, Millie Bobby Brown, Rebecca Hall, Brian Tyree Henry, Shun Oguri, Eiza González, Julian Dennison, Lance Reddick, Kyle Chandler, Demián Bichir, Kaylee Hottle.

Duração: 113 min.

Trailer | Godzilla vs. Kong

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