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Crítica: Moffie (2019)

Moffie Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE MOFFIE!

Nicholas van der Zwart é um jovem que, em 1981, é forçado a entrar no exército na África do Sul para combater as forças que se opõem ao apartheid, submetendo-se a um treino militar horrendo, racista e doloroso durante dois anos. Nisto, Nicholas está também a tentar ocultar a sua homossexualidade de modo a não ser morto ou a sofrer um tratamento ainda mais duro pelos seus superiores e colegas. Realizado por Oliver Hermanus, Moffie (que é a palavra africana para “maricas”) é um drama poderoso, surpreendente e que atua de uma forma crua perante o espectador.

Moffie Critica de Cinema

São muitas as dificuldades morais que Moffie contém em si, onde a realização soberba de Hermanus nos projeta para o centro da ação como se dela fizéssemos parte. É um filme que acaba por não precisar de muitas personagens complexas ou com um relevo significativo, pois aqui nota-se um tom autobiográfico nas suas entrelinhas, procurando agir como um mecanismo pessoal para todos os que foram forçados a irem contra os seus princípios e identidades em prol de uma sociedade opressiva e que se rege por privilégios. O jovem Kai Luke Brummer não precisa de ter muitas linhas de diálogo, já que a sua postura e olhar conseguem absorver-nos no clima de tensão que é injetado em quase todas as cenas principais. Para além disso, os close-ups abundantes tornam tudo numa realidade muito palpável e presente aos olhos do espectador, provocando momentos de ansiedade constantes e um clima desconfortável e imprevisibilidade.

E, para além de um argumento que está direcionado para inúmeras vertentes sociais, Moffie ainda tem uma componente técnica soberba, começando com o trabalho de fotografia que é estrondoso, até à banda-sonora que não nos dá descanso nos momentos-chave. Filmes como Moffie são essenciais, porque as batalhas que são travadas aqui não são apenas físicas mas também psicológicas, camufladas com os horrores da guerra e da supressão da orientação sexual.

Moffie Critica de Cinema

O facto de estarmos perante um exercício de cariz pessoal faz com que todos os eventos que se vão desenrolando se tornem mais vívidos e mais tocantes, mesmo que o final desta jornada árdua tenha ficado um pouco aquém do que era esperado. Mas, numa sociedade tão conservadora e cruel, como não optar por algo assim? Aliás… haveria outra opção? O problema do “final feliz” é que instintivamente o procuramos porque queremos um pouco de paz e de sentir que as personagens chegaram ao fim da sua viagem e que obtiveram algo que lhes recompense todas as dificuldades que passaram nela… mas, em Moffie, a realidade não é essa e Hermanus sabe perfeitamente que não pode seguir os clichés mais óbvios.

Este é um realizador que sabe como atingir o público de uma forma agressiva e as crueldades que vamos vendo em Moffie transcendem a fisicalidade e exploram todo um confinamento moral e social que impede as personagens de florescerem e que as enclausuram num conflito raramente conseguido numa LGBTQ+ coming-of-age story. Moffie pode não ter o final que merece e pode ter alguns momentos que poderiam ter ido um pouco mais além para provocar o choque, mas o filme, no seu geral, é um passo corajoso respeitável e um que certamente merece o mérito devido, tornando-se num desabafo visual poderoso e dramaticamente intenso.

Moffie Critica de Cinema
MOFFIE Still 9

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Título: Moffie

Título Original: Moffie

Realização: Oliver Hermanus

Elenco: Kai Luke Brummer, Barbara-Marié Immelman, Michael Kirch, Remano De Beer, Emil van Niekerk, Connor Dowds, Wynand Ferreira, Rikus Terblanche, Matthew Vey, Ryan de Villiers.

Duração: 104 min.

Trailer | Moffie

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