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Allen v. Farrow – Series Finale – 1ª Temporada

Allen v. Farrow Series Finale

CONTÉM SPOILERS DE ALLEN V. FARROW!

Uma das mais controversas apostas da HBO está a deixar o mundo dividido (e, no entanto, mais elucidado) sobre as alegações do cineasta Woody Allen de ter abusado da sua filha menor, Dylan Farrow, nos anos 90 e que se manteve na sombra durante imensos anos devido à não acusação do mesmo, para não submeter a jovem Dylan (na altura com 7 anos de idade) a mais interrogatórios sobre o trauma que a acompanhou durante uma fase tão prematura. Kirby Dick e Amy Zieling são os showrunners desta densa abordagem de como Mia Farrow, outrora companheira de Allen, lidou com esta situação com o passar dos anos e da coragem de Dylan em reviver estes momentos de aparente tortura emocional para se expor novamente e contar, na primeira pessoa, a sua história. Numa altura em que a sociedade está finalmente a abrir caminho para a exposição do histórico de abusos da comunidade das artes audiovisuais, a história de Dylan continua a revelar uma necessidade de Hollywood se tentar proteger (e negar) a conduta putrefacta de muitos dos seus mais poderosos e lucrativos ícones, camuflando-se através do seu contributo para essas mesmas artes como algo não-condenável.

Allen v. Farrow Series Finale

O MELHOR:

É difícil conseguir-se digerir Allen v. Farrow como algo não tendencioso.

Sendo apenas um produto de investigação one sided, Allen v. Farrow deveria ser antes Farrow v. Allen, já que não há testemunho do outro lado que é fortemente acusado. Apesar de todo o trabalho desta dupla de cineastas ser admirável e extremamente convincente, Allen v. Farrow acaba por estar vulnerável a ataques de céticos e de fãs acérrimos de Allen que refutam estas alegações com unhas e dentes. Allen v. Farrow, como produto televisivo, deveria ter sido mais ponderado e mais imparcial, abordando a sua delicada temática com os testemunhos do “outro lado da barricada”, deixando o público com uma visão mais ampla de qual é a atitude de Allen perante estas acusações que denegriram e continuam a prejudicar a sua carreira. Mesmo que as intenções sejam claras, como cineastas, Dick e Zieling não podem fazer julgamentos do que é a verdade e aquilo que não é, fazendo com que esta minissérie acabe por ter o mesmo impacto que as alegações anteriores e enfurecendo a comunidade artística apenas com material que já havia sido investigado e que foi declarado como inconclusivo.

Mas, mesmo com o seu cariz tendencioso, Allen v. Farrow consegue habilmente convencer o público desta persona manipulatória de um dos maiores vultos do cinema do século XXI. As imagens e o tratamento de arquivo não deixam margem para dúvidas de que, num contributo admirável para a história do cinema, Woody Allen manifesta determinadas fantasias dúbias nos seus filmes que, de alguma forma, vieram a comprovar a sua atual situação. Em Manhattan, por exemplo, Allen tem relações com uma jovem de 17 anos, interpretada por Mariel Hemingway, reforçando a ideia de que este fascínio por raparigas mais jovens é resultado de uma procura incessante de algo que está enraizado no prazer mais óbvio do realizador. Em quase todos os seus filmes que se seguiram, Allen desenvolve uma certa obsessão em colocar miúdas adolescentes com homens muito mais velhos, seja em contextos amorosos ou até mesmo através de improváveis ligações de amizade. Quer não seja patente aos olhos dos fãs e espectadores do seu tipo de cinema, é inegável que Allen tem um padrão próprio de incutir este tipo de elementos na sua arte e isso acaba por transparecer um pouco daquilo que, ele mesmo, fantasia relativamente à sua vida.

Allen v. Farrow Series Finale
Mandatory Credit: Photo by Globe Photos/mediapunch/Shutterstock (10313110a)
Woody Allen_family
Woody Allen and Mia Farrow
Photograph by Courtesy of HBO
Ronan Farrow, Lark Previn, Woody Allen, Dylan Farrow, Fletcher Previn, Daisy Previn, Soon-Yi Previn, Moses Farrow, Mia Farrow
HBO
Allen v. Farrow

Para os mais alheios, Allen nega ter abusado de Dylan, mas enquanto estava num relacionamento com Mia, namoriscava frequentemente com a sua filha adotiva Soon-Yi, confessando que estaria apaixonado pela mesma mais tarde. O retrato de Manhattan parece que imediatamente nos vem à memória e, mesmo que Soon-Yi não fosse alegadamente menor na altura deste novo “romance”, é infalível que a fantasia do cineasta se torna real de alguma forma. Posto isto, torna-se difícil desprendermo-nos desta sensação desconfortável de que há algo que, de facto, habita em Woody que o impele a ser uma figura de credibilidade reduzida. A verdade é que Hollywood está agora a desvendar e finalmente a condenar as figuras que têm um longo histórico de abusos sexuais, sendo que Roman Polanski está ainda foragido na Europa, Harvey Weinstein está a pagar pelas alegadas violações que cometeu, tal como Bill Cosby. A lista continua a aumentar todos os anos, com vítimas finalmente a dar o “pontapé de saída” para que estes culpados sejam finalmente tratados como tal. Kevin Spacey, Marilyn Manson, entre outros, estão a pagar recentemente por terem cometido crimes contra menores e contra abusos que infligiram em outrem e Woody Allen não pode ser uma exceção à regra.

O contributo para as artes cinematográficas de Allen é imprescindível, mas até que ponto ao continuar-se a apoiar a sua arte não se está a prolongar mais o sucesso do mesmo em evitar estas condenações? É difícil para os apreciadores de arte rejeitarem a longo prazo o impacto significativo que Woody Allen teve no cinema mundial e na sua construção; definiu alicerces e criou uma marca inconfundível, para além de ser extremamente pró-ativo e ter assegurado um estatuto invejável no chamado “cinema de autor”. A sua linguagem fílmica é admirável e única, produtos de um génio que tira proveito de cenários físicos para contar histórias diversificadas. Mas, enquanto que o seu contributo irá, para sempre ficar marcado no cinema, não há como negar que, ao apoiar-se continuamente o seu trabalho, está-se a alimentar ainda mais uma estratégia de proteção que Woody utiliza a seu proveito para se esconder daquilo de que é acusado. Ao estar exposto num documentário tão forte em termos de mensagem, é imperativo que quaisquer suspeitas relacionadas com o seu crime sejam averiguadas pelas autoridades e que o público mundial rompa com o fascínio por um cineasta que está a tirar proveito da sua fama e poder até indicação de que o mesmo seja declarado inocente das acusações.

Allen v. Farrow Series Finale

Allen v. Farrow pode ser uma versão extremamente unilateral, mas não deixa de ser provocador e de mexer com a nossa visão dos factos, sendo uma obra detalhada em, não só expor o lado da vítima, como também de elucidar para o comportamento de Allen como artista, que reflete incontestavelmente a sua propensão para se envolver com jovens facilmente manipuláveis e ainda em fase embrionária de se tornarem adultas. O seu último filme A Rainy Day in New York será o último que o CineAddiction irá avaliar até que haja clareza no veredicto final, caso haja uma reabertura do processo criminal. Woody Allen tem o nosso respeito em termos fílmicos, mas não será mais apoiado por nós para evitar influenciar o público que se dirige às salas de cinema e que contribui para os bolsos de Allen permitirem que continue a fugir daquilo de que, há já tantos anos, se prolonga.

Allen v. Farrow é um produto convincente de cinema de investigação, um documentário que absorve uma quantidade de informação assustadora e que agita a opinião pública com o que expõe. Mesmo sendo tendencioso na sua abordagem, não deixa de ter pontos que fogem já deste tendenciosismo e refletem verdadeiramente um ego alimentado pelo estatuto e que se refugia no mesmo para expiar os seus pecados. É aqui que a minissérie brilha e que consegue abrir as mentes para aquilo que está a ser negligenciado por uma comunidade auto-protetora e que espelha as fragilidades morais de uma instituição que prefere ocultar os históricos criminais das suas mais influentes mentes criativas.

Allen v. Farrow Series Finale

O PIOR:

Como mencionado anteriormente, Allen v. Farrow tem a desvantagem de ser totalmente dedicada a um lado da suposta verdade, fazendo com que o público se divida ainda mais, do que dar a oportunidade ao mesmo de fazer os seus próprios julgamentos.

Apesar de ser um trabalho que revela uma capacidade de argumentação persuasiva e de jornalismo interventivo, é necessário avaliar todos os processos e conduzir o público a conclusões, utilizando a imparcialidade como meio para o fazer. Mesmo que esta produção da HBO seja, de facto, condenável nalguns aspetos, não deixa de ser televisão importante e relevante e que não tem problemas em cometer riscos para exprimir o seu ponto mais importante: os abusos sexuais continuam a ser abafados dentro da comunidade de Hollywood e que, mesmo havendo ceticismo em torno do seu foco principal, não deixa de elucidar para os aspetos mais dúbios da conduta destes cineastas visionários que, incontestavelmente, se escondem atrás da sua arte para manterem a sua inocência.

Ainda assim, Allen v. Farrow é altamente recomendável e vai abrir as mentes dos fãs mais acérrimos que continuam a defender Woody Allen das condenações, levantando ondas de protesto que, esperemos nós, sejam suficientes para se reabrir o caso e de alcançar-se um veredicto, para que ambos os polos opostos deste documentário consigam avançar com as suas vidas.

Allen v. Farrow Series Finale

Estado da Série: TERMINADA

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Allen v. Farrow é uma minissérie provocadora que toca em assuntos delicados e que são obrigatórios de visualização, ainda que seja bastante tendenciosa e não tem o ponto de vista que está do outro lado da barricada a ser julgado. No entanto, é crucial para abrir mentes e o tratamento da sua informação é credível e minuciosa.

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