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Crítica: The Mauritanian (2021)

The Mauritanian Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE THE MAURITANIAN!!!

Um dos géneros cinematográficos mais usados é o drama jurídico. Com imensos títulos que chegam ao grande ecrã – e inclusive ao pequeno ecrã por vias de imensas séries – torna-se um tanto ou quanto difícil encontrar aquele “diamante bruto” que nos faça prender ao ecrã. The Mauritanian, o mais recente filme de Kevin Macdonald como realizador e que marcou presença na mais recente cerimónia dos Globos de Ouro, valendo um prémio a Jodie Foster (aliás, podem conferir a lista dos vencedores aqui), prometia uma lufada de ar fresco a este género. Mas será que conseguiu atingir esse bjetivo?

Baseado no livro não-ficção Guantánamo Diary, o filme centra-se em Mohamedou Ould Slahi, um jovem mauritano que é preso na Baía de Guantánamo sob a suspeita de ser o recrutador por detrás dos atentados do 11 de Setembro de 2001. Aqui, o filme divide-se em duas linhas temporais distintas: uma retrata as experiências de Mohamedou como prisioneiro de Guantánamo; a outra acompanha o processo jurídico para a sua libertação, desde 2005 até 2010.

The Mauritanian Crítica de Cinema

Histórias baseadas em factos verídicos existem por aí, por vezes em números a roçar no exagero. No entanto, e dependendo da posição de cada um dos membros da audiência, alguns deles têm sempre algo de novo para contar. The Mauritanian tem algumas boas intenções bem espelhadas, mas a divisão entre linhas temporais acaba por lhe causar mais sofrimento do que bonança.

Infelizmente, os elementos jurídicos, que compõem a maior parte da ação do filme, acabam por deixar bastante a desejar. Tal como tinha sido mencionado acima, os dramas jurídicos compõem um dos géneros mais sobre-utilizados neste ramo. Com imensos filmes e séries dentro desta temática, existe um risco na sua execução que não é capaz de introduzir algo verdadeiramente inédito ao género. E este filme, quando se foca nesta área, acaba por sofrer porque, mesmo sendo baseado em factos verídicos, acaba por repetir uma fórmula que já começa a soar bastante familiar para muitos fãs do cinema. Casos impossíveis, dificuldades no processo, desfechos familiares com um twist, está lá tudo.

Dito isto, é no elemento em que acompanhamos a vida de Mohamedou em Guantánamo que The Mauritanian encontra a sua, e muito provavelmente sairia como o melhor elemento do filme se não estivesse resignado a um subplot em volta de flashbacks. Isto porque a sua jornada pessoal consegue ser um dos grandes pontos de referência do filme. É neste conjunto de flashbacks que vemos o tratamento que Mohamedou recebe por parte de outros condenados, guardas, interrogadores e afins. Vemos este homem a fazer o melhor que pode para encontrar um resquício de esperança num ambiente tido como inóspito, desde travando amizades com um dos condenados e alguns dos guardas, até aprender a falar inglês uma palavra de cada vez.

The Mauritanian Crítica de Cinema

Apesar deste tom mais esperançoso, The Mauritanian não deixa de demonstrar o seu lado mais negro: os maus tratos em Guantánamo. Esta base americana em Cuba tem sido, desde o início, a fonte de inúmeras controvérsias, sendo os maus tratos ou o processamento indevido como algumas das luzes que o filme pretende transmitir. Claro que a base está para ser fechada em breve, mas isso não esconde anos e anos de tortura e abusos que os vários presos e condenados sofreram ao longo deste tempo todo. O filme não esconde isso, e vai mais além e mostra algumas das suas “atividades” hediondas. É um momento chocante do filme, que certamente deixará muita gente com uma opinião formada sobre o assunto. E se o filme pretendia fomentar este tipo de conversa, então, missão cumprida!

A nível técnico, o filme é, na melhor palavra possível, mundano, uma vez que cumpre com o dever desejado, mas não vai mais além para lhe dar um toque mais artístico. Dito isto, há que mencionar um elemento na edição de imagem que acaba por funcionar: o aspect ratio. Isso torna-se mais notável quando atravessamos as várias cronologias, com as sequências de Mohamedou a apresentar uma imagem “quadrada”, ao passo que os eventos recentes apresentam o formato mais habitual de filme. Pode acabar por ser um pouco distrativo para quem prefere uma imagem constante, mas pelo menos é uma maneira inteligente do cineasta dizer que “vamos agora viajar no tempo”.

Claro que, à luz dos Globos de Ouro, alguns olhares certamente pairarão sobre o elenco que o filme tem ao seu dispor, nomeadamente Jodie Foster pelo seu papel de advogada de defesa de Mohamedou. Dito isto, e embora aceite que a atriz tem aqui uma performance subtil mas com o seu claro impacto, a verdade é que esta não tem aqui uma performance de renome. E considerando que o elenco conta com alguns nomes conhecidos da indústria, tais como Benedict Cumberbatch, Zachary Levi ou Shailene Woodley, o elenco consegue ser bastante superficial, na melhor das hipóteses (Woodley, em particular, é severamente mal aproveitada). Felizmente, existe uma redenção sob a forma de Tahar Rahim, que interpreta Mohamedou com uma humanidade impossível de descrever, carismático e impossível de lhe tirar a vista de cima. Se nunca ouviram falar do ator fora do circuito do cinema francês, então esta é uma oportunidade de pesa para se dar a conhecer.

The Mauritanian Crítica de Cinema

The Mauritanian acaba por sair vencedor graças à performance sentida de Rahim e de toda a exposição da crueldade palpável na Baía de Guantánamo, uma visão que é, na melhor das hipóteses, bastante rara no mundo do cinema. É uma pena que o resto do filme se prenda com um court procedural que, embora tenha os seus devidos méritos, é bastante familiar ao ponto de não captar o nosso interesse.

Podem ler outras Críticas aqui.

Título: O Mauritano

Título Original: The Mauritanian

Realização: Kevin Macdonald

Elenco: Tahar Rahim, Jodie Foster, Shailene Woodley, Benedict Cumberbatch, Zachary Levi

Duração: 129 minutos

Trailer | The Mauritanian

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