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Crítica: Hunger Ward (2020)

Hunger Ward Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE HUNGER WARD!!!

Ao longo da história da raça humana, o conflito tem sido sempre uma constante. O conceito de conflito tem-se mantido imutável ao longo dos séculos, desenvolvendo-se nas mais variadas formas imagináveis. Podemos associar esse termos aos conflitos armados que ainda ocorrem nos dias de hoje, mas também podem ser conflitos mais intelectuais ou emocionais. Independentemente disso, existem sempre “danos colaterais” que, pela nossa ignorância, passam-nos ao lado. Hunger Ward, a nova curta-metragem documental de Skye Fitzgerald, pretende mostrar esse lado que tanto é ignorado nos noticiários de um conflito que continua bem aceso.

Este documentário centra-se na Doutora Aida Alsadeeq e na enfermeira Mekkia Mahdi, duas mulheres que tentam fazer o melhor que podem para ajudar as crianças que se encontram subnutridas devido ao conflito armado no Iémen.

Hunger Ward pode muito bem vir a ser uma das curtas documentais mais difíceis de se ver, considerando o tema sensível que aborda. O conflito armado entre a Arábia Saudita e o Iémen não é exatamente um tema que nos é estranho, especialmente quando abrimos o noticiário. No entanto, aborda uma perspetiva raramente vista pelos noticiários: a fome que se sente no Iémen e o impacto nas crianças. Fitzgerald não é um estranho nestes documentários com uma mensagem humanitária – realizou as curtas 50 feet from Syria Lifeboat, ambas a serem reconhecidas pelas cerimónias de prémios – e a sua intenção aqui é bastante palpável.

São raras as intervenções do duo de Alsadeeq e Mahdi (ainda que se apresentem de vez em quando), dando maior destaque no que as duas mulheres têm de enfrentar dia após dia desde o início do conflito armado. Jeffrey T. Ball, a cargo da cinematografia da curta, captura estes momentos com close-ups que nos catapultam para o centro da ação, com um toque bastante artístico, digno de um filme de guerra habitual. E com essa intenção, vem a crueza do que nos espera nesta curta-metragem. Com Fitzgerald na realização e Ball na fotografia, temos direito a imagens que causarão bastante impacto a quem o ver. Desde o estado em que a maioria das crianças se encontra, fruto da subnutrição, até ao momentos mais sensíveis que estas mulheres e os seus colegas enfrentam – incluindo a morte – é de quebrar o coração até mesmo aos corações mais gelados.

Volta e meia, ainda vamos tendo alguns vislumbres de outros impactos que o conflito trouxe, seja pelos retratos pessoais dos sobreviventes dos vários bombardeios ou pelo estado em que locais públicos como escolas ou centros comerciais se encontram, mas Hunger Ward tem o foco necessário para não se distrair na sua missão. Embora esses dois casos mencionados tenham o seu impacto, custa mais ver um familiar a chorar pela morte de uma criança subnutrida e, sem saber como processar a perda, atirando as culpas para os médicos e enfermeiros que fazem tudo por tudo para dar uma nova oportunidade a estas vítimas da guerra. E não se compromete a “apenas” mencionar esses eventos: ganhamos um “lugar na primeira fila” a estes desenvolvimentos, e custa sempre, independentemente de quantas vezes vejamos a curta.

Hunger Ward pode ser curta demais para alguns gostos, mas não se pode negar o claro impacto que pretende transmitir. Concede-nos uma visão diferente de um conflito que ainda perdura nos dias de hoje (ainda que já tenham sido tomadas medidas do contrário) e capta a nossa atenção para uma das piores crises humanitárias em anos recentes.

Podem ler outras Críticas aqui.

Título: Hunger Ward

Realização: Skye Fitzgerald

Elenco: Aida Alsadeeq, Omeima Essa Salem Abdullah, Mekkia Mahdi, Abeer Otham Thaneb

Duração: 40 minutos

Trailer | Hunger Ward

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