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Crítica: The World to Come (2020)

The World to Come Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE THE WORLD TO COME!!!

Em anos recentes, histórias em redor da comunidade LGBTQ+ têm vindo a tornar-se numa constante, com cada uma delas a ter algo para contar, ainda que existam umas ou outras que, entretanto, possam cair no esquecimento. Este The World to Come, serve como mais uma valente lufada de ar fresco, com alguns indícios de melodrama para os fãs deste género.

Passado na segunda metade do século XIX, o filme centra-se em Abigail, uma mulher que, juntamente com o seu marido, Dyer, gere uma quinta. Devido à perda da sua filha, Abigail não é capaz de sentir nem um pouco de felicidade, resguardando-se na escrita de um memorando. Isto é, até ao dia em que o casal dá as boas vindas a um novo casal, Tallie e Finney, que arrendam uma quinta nas proximidades. E é neste contexto que Abigail e Tallie travam uma amizade sentida, despertando assim uma história de amor com traços de tragédia.

The World to Come Crítica de Cinema

The World to Come consegue ser uma verdadeira surpresa, nos níveis imagináveis. Embora o ritmo da narrativa não seja o mais acelerado que o desejado, a verdade é que o guião elaborado por Ron Hansen e Jim Shepard (a partir de uma história original do prórpio Shepard) consegue encontrar uma espécie de vertente lírica para este conto com traços de tragédia. Os momentos partilhados entre Abigail e Tallie acabam por ser os momentos em que a escrita acaba por se superar a si mesma, com as trocas de diálogos entre as duas mulheres a proporcionarem alguma levidade e, ao mesmo tempo, tristeza. Devido às suas experiências de vida diferentes, ambas não podiam ser diferentes uma da outra, mas ainda assim encontram uma na outra algumas semelhanças e o que os americanos gostam de denominar de kindred spirits. Acoplado com uma realização competente de Mona Fasvold, The World to Come é fascinante no retrato de um casal homossexual numa época em que a sociedade ainda se encontrava enraizada pelo papel do homem como figura dominante num casamento e de como a religião podia (e por vezes ainda é) desempenhar um papel importante nesse aspeto.

O filme consegue tirar partido do espaço cénico em que a ação toma lugar. Apesar de ter sido filmado na Roménia, seria bastante fácil podermos confundir este local com os Estados Unidos durante a época dos cowboys, tiroteios e afins, ainda que o espaço cénico permita uma forma de ação raramente vista deste género. A cinematografia consegue capturar a beleza que a pradaria romena consegue oferecer, já para não falar de alguns dos seus perigos (ainda que remonte apenas para o mau tempo invernal na primeira parte do filme). Daniel Blumberg, encarregue da banda sonora, também merece um pouco de reconhecimento no aspeto técnico, já que as suas melodias conseguem captar a sensação que o filme pretende transmitir, quer seja nos seus momentos mais doces, mais dramáticos, ou mesmo nos mais intensos, embora este último não seja tão prominente quanto se possa pensar.

The World to Come Crítica de Cinema

A jogada mais impressionante de The World to Come reside no quarteto de atores que tem à sua disposição, com cada um deles a provar o seu valor. Katherine Waterston e Vanessa Kirby dão vida a Abigail e Tallie respetivamente, e ambas as atrizes encontram-se nas suas melhores forma, mostrando algumas diferenças patentes entre elas, mas encontrando também aquele meio-termo que permite às duas de criarem uma ligação profunda que, graças à química aparente entre elas, acaba por ser bastante credível, vendendo a ideia de um amor proibido que tentam alimentar, mesmo com tudo e todos contra elas. Já Casey Affleck e Christopher Abbott, que desempenham os maridos de ambas, não demonstram a mesma construção e desenvolvimento proporcionado pelo filme, mas pelo menos conseguem mostrar alguns traços que lhes permitem algumas comparações. Ambos podem ser homens ligados ao trabalho rural, mas o código de conduta deles é o que serve de contraste entre eles. Mas, reafirmando o que fora colocado acima, simplesmente ficam aquém do desejado, especialmente à luz da dedicação demonstrada por WaterstonKirby do primeiro até ao último minuto.

The World to Come pode não reinventar a roda, por assim dizer, no que toca a histórias ligadas à comunidade LGBTQ+, mas que não fique por dizer que é um esforço digno da Sétima Arte. É um filme que é, pura e simplesmente, bonito de se ver, comovente de se testemunhar (e também um tanto ou quanto trágico, especialmente no seu clímax), e é ancorado por um quarteto de performances que não deixará ninguém indiferente.

Podem ler outras Críticas aqui.

Título: The World to Come

Realização: Mona Fastvold

Elenco: Katherine Waterston, Vanessa Kirby, Casey Affleck, Christopher Abbott

Duração: 105 minutos

Trailer | The World to Come

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