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Crítica: The United States vs. Billie Holiday (2021)

The United States vs. Billie Holiday Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE THE UNITED STATES VS. BILLIE HOLIDAY!

Billie Holiday é um ícone da música, que durante a sua curta carreira, presenteou-nos com um dos temas mais poderosos da música: Strange Fruit. Esta é uma canção que causou controvérsia na sua época, focando-se no trauma e na dor gerada pelos linchamentos da comunidade afro-americana. Algo tão poderoso não poderia passar ao lado do FBI e da supremacia caucasiana que incessantemente procurou uma forma de derrubar Holiday da sua fama, estrelato e influência. Sabendo que a cantora é consumidora de heroína, a brigada de narcóticos, liderada por Harry Ainslinger, decide infiltrar Jimmy Fletcher no dia-a-dia de Holiday, e apreendê-la pela posse e consumo de droga. Realizado por Lee Daniels, The United States vs. Billie Holiday é um dos últimos filmes desta campanha de prémios que estreia e, embora tenha alguns aspetos extremamente positivos, carece de um impacto significativo que tinha a obrigação de entregar ao público.

The United States vs. Billie Holiday Critica de Cinema

Daniels é um veterano do cinema e da televisão que construiu a sua carreira em torno de prestações carismáticas e que se consagrou com o clássico Precious, que venceu dois Óscares da Academia. O seu legado depressa continuaria a impressionar críticos e público por todo o mundo, apostando em Forest Whitaker como o mordomo da Casa Branca durante várias gerações presidenciais em The Butler; para além de ter obtido um estatuto de sucesso na televisão com a série Empire, entregando o Golden Globe a Taraji P. Henson. Em The United States vs. Billie Holiday, Daniels entrega o papel da sua protagonista a Andra Day, uma cantora em ascensão e responsável pelo hit “Rise Up“. Day é absolutamente vertiginosa como Holiday, começando a criar uma carreira extremamente promissora nas artes performativas, e capaz de carregar a película até certo ao ponto onde as fragilidades da narrativa e sua construção começam a evidenciar-se. The United States vs. Billie Holiday acaba por tornar-se um exercício maçudo e superficial de um vulto musical icónico, utilizando uma fórmula algo semelhante ao formato televisivo que simplesmente não assenta. É sentida uma falta de valor pessoal e de impacto emocional naqueles que poderiam ser encorajados pela sua mensagem. O retrato de Holiday, por muito fiel que possa ser, não é suficiente para camuflar as lacunas que regem as personagens secundárias (que são reduzidas a meros estereótipos já familiares).

The United States vs. Billie Holiday Critica de Cinema
Andra Day stars in THE UNITED STATES VS. BILLIE HOLIDAY from Paramount Pictures. Photo Credit: Takashi Seida.

Este é um daqueles casos que tira proveito das prestações que compõem o seu núcleo, mas que não lhes faz justiça, floreando e dando atenção a determinadas arestas que não são propriamente relevantes para criar uma narrativa apelativa. Enquanto que o foco de Strange Fruit abre como premissa de uma disputa entre a cantora ativista e um opressivo e controlador FBI, nenhum do seu processo criativo é ilustrado e, por muito magnânima seja Andra Day na sua redenção da canção, falta uma contextualização mais emocional para que o público entenda o impacto da mesma na sociedade que é retratada em The United States vs. Billie Holiday. Os flashbacks de uma jovem Billie a ser tentada pela mãe aos 10 anos a dedicar-se a uma vida de prostituição e de todos os homens que tentaram manipular a sua vida, apenas reforça a quantidade desmesurada de informação que Daniels quer incutir num biográfico que perde o rumo por não assentar num objetivo claro. As ambições do realizador levaram a melhor deste seu mais recente trabalho que, de alguma forma consegue trazer visuais apelativos e momentos musicais interessantes, mas que se limita a despejar informação sem lhe garantir o elemento necessário para conquistar: a evolução de um génio que sucumbe ao vício.

Entre muitas arestas que podiam ter sido limadas de outra forma, The United States vs. Billie Holiday salva-se de ser desastroso pelas prestações cativantes que incorpora no elenco, mesmo que as personagens não tenham o desenvolvimento que mereciam, tornando a experiência ligeiramente mais prazenteira e que, de facto, garante o appeal necessário para ser nomeado aos prémios mais cobiçados de Hollywood. Andra Day é absolutamente maravilhosa e é, de facto, a performance da mesma, que consegue elevar a parte de Billie num título onde os The United States soam como um artifício meramente ornamental num conto que merecia uma abordagem bem mais profunda da sua temática.

The United States vs. Billie Holiday Critica de Cinema

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Título: Estados Unidos vs. Billie Holiday

Título Original: The United States vs. Billie Holiday

Realização: Lee Daniels

Elenco: Andra Day, Leslie Jordan, Miss Lawrence, Natasha Lyonne, Trevante Rhodes, Dusan Dukic, Erik LaRay Harvey, Da’Vine Joy Randolph, Adriane Lenox, Tyler James Williams, Garrett Hedlund.

Duração: 130 min.

Trailer | The United States vs. Billie Holiday

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