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Crítica: Jiang Ziya (2020)

Jiang Ziya Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE JIANG ZIYA!

Pensava eu que Malcolm & Marie seria um filme de difícil análise, até que a China me presenteia com esta película animada que rompe com todos os cânones da fantasia e de mitologia densa que me deixa abismado com a qualidade de animação, ao mesmo tempo que perplexo com a quantidade de referências conhecidas do público generalista. Jiang Ziya é o segundo capítulo de uma trilogia animada chinesa que utiliza a mitologia mais famosa do país e a coloca numa história repleta de magia, personagens adoráveis e uma missão que implica sacrifícios. Não é o tipo de animação convencional que estamos habituados da Pixar ou de mensagens infantis absorvidas pelo anime japonês de cinema. É um conto muito particular, onde é necessária uma certa pesquisa para entendermos o sumo maior da sua complexidade. No entanto, de seguida iremos lançar a crítica do primeiro filme, Ne Zha, que deu origem a esta trilogia, sendo que o terceiro capítulo ainda estará por vir.

Jiang Ziya Critica de Cinema

Jiang Ziya acompanha a história de um herói mitológico do mesmo nome, que depois de derrotar as forças do mal, está na iminência de se tornar um deus. Mas, para finalizar esta transição, é-lhe dada uma última tarefa: derrotar o demónio Daji (de onde o Pokémon Ninetales é inspirado) que é a razão primária desta guerra. Ao tentar cumprir a sua missão, Jiang Ziya depara-se que este demónio está a usar uma jovem rapariga como refém, e os seus esforços fracassam em levar a cabo a matança. Daji acaba por escapar do reino dos deuses, e Jiang Ziya é renegado ao mundo dos mortais, esperando estação após estação por uma oportunidade de ascender novamente a esta versão do Olimpo. Ao despertar neste mundo novo, Jiang Ziya conhece a jovem Xiao Jiu, que tem traços da rapariga outrora refém do demónio que era suposto aniquilar, e embarca numa aventura com a mesma à procura de respostas para a ligação entre ela e Daji e de evitar que esta seja a próxima vítima de uma guerra divina.

Jiang Ziya é um filme animado que vai buscar traços mitológicos da Grécia antiga, recordando-nos das proezas heroicas de Hércules, para além de uma pitada nórdica do deus Thor renegado para o plano dos mortais. É um exercício animado com um tipo de animação diversificado, saltitando entre o 3D e o 2D para estabelecer um aspeto artístico distinto do habitual. Já há muito que procurava algo de fantasia que me deixasse investido desta forma, e este estilo animado é algo muito especial e refrescante, já que funciona como um híbrido que adota uma identidade própria e convicta. Ainda que as personagens sejam adoráveis e o seu desenvolvimento acompanhe gradualmente este mundo carregado de simbolismos mitológicos, Jiang Ziya acaba por perder o controlo da quantidade de referências que tem no seu corpo visual, tornando-se algo confuso para os expectadores que não estão familiarizados com a mitologia chinesa. Entre locais desconhecidos, deuses pouco explorados, e personagens inspiradas em figuras que foge ao conhecimento do povo ocidental, Jiang Ziya acaba por afogar-se nas suas ambições e tornar-se um incomodativo com a inexistência de uma linearidade essencial. É um caso raro de cinema onde gostamos do que estamos a ver, mas pouco nos é entregue sobre o que é que estamos a ver. A densidade da história acaba por fraquejar Jiang Ziya como um produto singular porque a história dispara para todo o lado e nunca nos explica devidamente os eventos que decorrem perante os nossos olhos.

Jiang Ziya Critica de Cinema

Há também uma questão da animação que nem sempre funciona, especialmente nalgumas sequências de ação onde a montagem impede que o público consiga perceber o que está a acontecer. No entanto, rapidamente nos esquecemos disso porque, não se deixem enganar, Jiang Ziya tem alguns trunfos na manga deliciosos, especialmente porque não poupa a momentos de dor e tristeza. Algo que, ultimamente, tem sido ofuscado dos filmes animados de Hollywood. Sentimos que, mesmo estando perante uma animação apelativa para crianças, há todo um nicho de sensatez em retratar a perda de forma emotiva, reforçando a ideia de que a morte está sempre associada com guerra. Isto acaba por elevar Jiang Ziya a algo ainda mais interessante, ainda que nos sintamos confusos com muitos dos aspetos da sua história.

Se estão à procura de uma animação diferente do habitual, carregada (diria mesmo a transbordar) de referências mitológicas que desconhecem e se são ávidos adeptos de fantasia, Jiang Ziya irá conquistar-vos, nem que seja pelos mesmos motivos que me conquistaram a mim. Mas, pelo menos, fiquem avisados de que é extremamente difícil acompanhar os acontecimentos e entender as ligações que regem as personagens e o porquê das suas jornadas pessoais. Ainda assim, há todo um mundo novo para explorar, com uma animação híbrida cativante, com uma direção de fotografia espantosa e personagens que nos conquistam pela sua doçura, mesmo que muitas vezes não entendamos aquilo que elas, realmente, são. Jiang Ziya é uma obra animada complexa e irá dividir os expectadores, mas penso que todos irão concordar que o amoroso Four Alike é qualquer coisa de magnífico!

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Título: Jiang Ziya

Título Original: Jiang Ziya

Realização: Teng Cheng & Li Wei

Elenco: Zheng Xi, Yang Ning, Tutehameng.

Duração: 110 min.

Trailer | Jiang Ziya

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