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Crítica: Saint Frances (2019)

Saint Frances Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE SAINT FRANCES!!!

Se há algo que a experiência de vida pode ensinar, é que as melhores coisas costumam aparecer em pequena porções. O mesmo se aplica aos filmes, quer mainstream ou independentes: podem ser considerados simples na execução, mas a mensagem encontra-se presente e bem relevante. E é isso mesmo que se aplica a este Saint Frances.

Bridget é uma mulher de 34 anos que, apesar de ter potencial na escrita, resigna-se a atender mesas num restaurante. Numa one night stand, esta acaba por ficar grávida, optando imediatamente por um aborto. Mas, ao mesmo tempo, Bridget recebe uma proposta de trabalho de Verão como babysitter da jovem Frances.

Saint Frances Crítica de Cinema

Tal como tinha mencionado acima, Saint Frances é um filme independente que apresenta um formato simples, mas não tem mãos a medir nos temas que pretende abordar. Sendo a estreia de Kelly O’Sullivan como guionista (e que aparentemente se baseou livremente nas suas próprias experiências de vida), o filme aborda temas modernos como a controvérsia sobre o aborto, as relações conjugais da comunidade queer, stress pós-parto, entre outros. E embora estes sejam temas que outros filmes possam já ter explorado no passado, é na abordagem das mesmas que coloca o filme numa posição diferente. É normal haver quem apoie ou condene o aborto ou outras questões relevantes (o filme chega ao ponto de colocar isso com um toque meta-humorístico numa instância ou duas), mas aborda os mesmos temas com um certo realismo, no sentido de o aborto, por exemplo, não ser uma boa ou má decisão; é uma decisão que recai inteiramente em quem tem de a tomar, e não há nada de mal.

Sendo uma narrativa orientada nas personagens, Saint Frances tinha o dever de entregar performances que correspondessem a possíveis expectativas. E felizmente, essas são correspondidas (ou então superadas). Existe o caso de O’Sullivan que apresenta a sua Bridget como um ser humano realista. Claro que, sendo uma comédia dramática, seria de esperar uma língua afiada ou então uma resposta witty. No entanto, também apresenta as suas falhas, especialmente no que refere às suas expectativas do futuro. Temos aqui uma personagem que, aos 34 anos, ainda não sabe que rumo dar à sua vida, quando ainda recebe pressão para criar novas gerações de crianças ou ter uma carreira de sucesso. E embora isso seja perceptível em vários filmes do género, este toma uma abordagem que mais depressa se aproxima da nossa realidade do que dos nossos próprios sonhos febris. É uma performance tocante e com uma evolução patente, que ilustra as capacidades da atriz com o material certo nas suas mãos.

Saint Frances Crítica de Cinema

Mas é claro que isto não seria possível se O’Sullivan não tivesse uma boa ajudante a seu lado. Eis a estreante Ramona Edith Williams no papel de Frances, uma menina de seis anos que, apesar de ter os comportamentos associados às crianças naquela idade, demonstra por vezes uma sabedoria inata. E é durante as interações entre as duas mulheres que Saint Frances encontra as suas forças ocultas, com ambas a aprenderem uma com a outra e a criarem um laço poderoso e não menos convincente. A presença de Bridget nesta família moderna acaba por surtir efeitos para o casal Maya (Charin Alvarez) e Annie (Lily Mojekwu), com ambas a terem de lidar com os seus próprios problemas e tentarem encontrar soluções.

Num aspeto técnico, o filme mantém uma estética simples e realista. O trabalho de câmara é o normal, e a banda sonora é enternecedora. Ainda que possam ser vistos até como banais, são elementos que não ofuscam a história que o filme pretende contar. Por isso, só continua a somar pontos. O único problema que se pode apontar ao filme envolve outras personagens que, embora não essenciais, mereciam um pouco mais de desenvolvimento sem recaírem em alguns arquétipos já gastos.

Saint Frances Crítica de Cinema

Saint Frances pode ser um filme de aspeto simples, mas é um filme que tem algo de importante para contar. E, acima de tudo, conta com uma abordagem diferente e performances convincentes para dar uma oportunidade a esta pérola do cinema independente.

Podem ler outras Críticas aqui.

Título: Saint Frances

Realização: Alex Thompson

Elenco: Kelly O’Sullivan, Ramona Edith Williams, Charin Alvarez, Lily Mojekwu, Max Lipchitz

Duração: 101 minutos

Trailer | Saint Frances

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