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Crítica: Saint Maud (2019)

Saint Maud Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE SAINT MAUD!

Existem filmes que são simples na sua execução mas guardam em si mensagens importantes e que rompem com os cânones do tempo. Saint Maud é uma produção independente, escrita e realizada pela estreante Rose Glass. É uma história que absorve alguns elementos de clássicos como Carrie e os veicula para uma película de terror bizarra e, no entanto, extremamente versátil, graças a prestações magníficas e a conotações fortes. Maud é uma zeladora ou cuidadora de uma dançarina e coreógrafa veterana que sofre de uma doença degenerativa, que é altamente religiosa e que começa a desenvolver uma obsessão em querer livrar a sua paciente dos males mundanos a que está sujeita. Nisto, Maud entra ela mesma numa jornada de insanidade, perdendo noção daquilo que é moralmente correto, algo que no passado já havia acontecido.

Saint Maud Critica de Cinema

Saint Maud é uma obra excelente que, dentro da sua curtinha duração, acaba por surtir um efeito prolongado graças às prestações soberbas de Morfydd Clark e Jennifer Ehle. É um filme que suavemente constrói o seu mote com imagens poderosas de uma inocência perdida e de uma doença mental que se desenvolve com base nos princípios de ajuda e que de alguma forma é possível salvar aqueles que sentimos estarem a seguir os caminhos imorais para dominarem as suas vidas. A ascendência de Maud a um estado de obsessão extremo, espelha de uma forma subtil o fanatismo religioso e contrasta com os valores de alguém que perde totalmente o controlo em discernir aquilo que é real e o que não é. Nada disto seria possível sem as musas que Glass coloca em frente ao ecrã, onde os contrastes de personagens acabam por se tornar o epicentro da história e, daí, desenvolver-se uma extraordinária viagem sobre a perda de inocência e a decadência de um génio. Estes paralelismos deliciosos tornam Saint Maud numa viagem alucinante e maravilhosa, polvilhada com imagens petrificantes, sensações de sufoco constantes e um tipo de terror muito próprio que até agora foi raro no grande ecrã.

Para além disto, há também um aspeto técnico fantástico que Glass trabalha minuciosamente e não deixa que domine o seu objetivo primário com esta obra. Desde a banda-sonora, ao design de produção atmosférico, Saint Maud aprisiona-nos quase que instantaneamente a estas personagens tão díspares e tão contrastantes e deixa-nos ainda mais intrigados quando começa a explorar o passado perturbado da protagonista. Ainda que pudesse desenvolvê-lo um pouco mais para enriquecer a personagem principal, Saint Maud sabe perfeitamente qual é o seu objetivo primário e não utiliza desvios narrativos para o entregar ao público. Talvez seja por isso que Saint Maud seja um filme tão interessante a muitos níveis e o dito “terror” que compõe um dos géneros mais importantes do filme acaba por ser esta dificuldade de uma jovem em sentir-se amada, em busca incessante por atenção e por se sentir importante para alguém. Seremos nós tão diferentes de Maud? Não, não somos, e todos nós procuramos formas de tentar superar as dificuldades que a vida nos impõe de diferentes formas. A religião pode ser um desses meios, mas nunca podemos deixar que ela domine totalmente as nossas ações e é preciso ter força mental para, antes de acreditarmos em qualquer tipo de crença, devemos primeiro acreditar em nós próprios e nas nossas capacidades.

Saint Maud Critica de Cinema

Saint Maud é um híbrido dramático com terror que age como uma surpresa inesperada e que é rico em metáforas e é uma jornada extremamente suave e cativante sobre fé e a linha que a separa da sanidade humana. Com dois colossos performativos na liderança e uma realizadora pragmática e que tem plena consciência dos seus objetivos, esta é certamente a rampa de lançamento para o estrelato que todas precisavam neste ponto das suas tenras (ou até mesmo veteranas) carreiras. Talvez se explorasse um pouco mais alguns aspetos e equilibrasse melhor a dosagem de intervenções das personagens secundárias se tornaria um clássico instantâneo. Mas não se deixem enganar, porque Saint Maud vale a pena o vosso tempo e vai deixar-vos desconfortáveis pela mestria com que direciona as suas atrizes e que não tem receio em arriscar numa temática sensível para muitos.

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Título: Santa Maud

Título Original: Saint Maud

Realização: Rose Glass

Elenco: Morfydd Clark, Jennifer Ehle, Lily Knight, Lily Frazer, Turlough Convery, Rosie Sansom.

Duração: 84 min.

Trailer | Saint Maud

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