Cinema Críticas

Crítica: Dveselu Putenis (2019)

Dveselu putenis Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE DVESELU PUTENIS!

Proveniente da Letónia, a submissão ao Óscar deste ano do país, Dveselu Putenis, é uma obra surpreendente a muitos níveis. Um registo que rivaliza com produções de Hollywood com base na guerra e que tem imenso sumo suculento para digerir. Arthurs Vanags é um jovem de dezasseis anos que, após perder a mãe pela mão das forças alemãs que invadiram o país, alista-se no exército para lutar contra estas mesmas forças ao lado da União Soviética. Com o seu pai e irmão ao seu lado nesta jornada, Arthus depressa percebe que não está propriamente no lado certo da batalha, e porquê? Porque a 1ª Guerra Mundial é um conto de terror, perda e sofrimento, onde a luta por supremacia de diversas frações levou à morte de milhões de letões que foram apanhados neste fogo cruzado entre nações megalomaníacas.

Dveselu putenis Critica de Cinema

Dveselu Putenis é uma obra genial a muitos níveis, ainda que, infelizmente, perca com um protagonista que não consegue captar estas nuances introspetivas da forma mais profissional. É o rosto que acompanhamos nesta obra sangrenta e em constante mutação e há uma discrepância tão grande na tela que o espectador acaba por não conseguir absorver estas mensagens de forma transparente pelo ator ser demasiado inexperiente. Realizado por Dzintars Dreibergs, Dveselu Putenis é um filme absolutamente imperdível apesar de tudo. Tem todos os elementos de guerra das grandes produções americanas, onde o som e a imagem estão em simbiose com uma equipa técnica talentosa e que certamente terá aqui a oportunidade de ascender numa carreira internacional. É um filme baseado na obra do combatente e veterano Aleksandrs Grins, de nome Blizzard of Souls, que perdeu a vida posteriormente na 2ª Guerra Mundial, e que reflete nas experiências e visões do mesmo sobre as frações inimigas que invadiram o seu país e o que entraram em conflito para obterem a supremacia do mesmo.

Ao início, pensamos que Dveselu Putenis é um filme linear de guerra, onde um jovem tenta lutar pela justiça do seu país e escorraçar os forasteiros que o invadiram e que tiraram a vida à sua mãe, pensando na sua inocência que estaria a servir um bem maior. Inclusive, a sua idade tenra não lhe permitia, na altura, alistar-se no exército soviético, mas com a ajuda do seu pai e irmão, Vanags consegue infiltrar-se nos batalhões que visam eliminar as forças alemãs invasoras, motivado por um ódio crescente e por um sentimento patriota genuíno. Mas à medida que vai observando de perto a quantidade de perdas e a futilidade de uma guerra onde as mortes são descartadas a um ritmo diário, Vanags percebe que não está a lutar pelo seu país, mas sim a ajudar outra nação a afirmar a sua supremacia sobre o seu próprio país. Aqui não existe Letónia, mas sim uma futura colónia alemã ou russa. É ao ver um dos seus companheiros de batalhão a ser assassinado pelos seus próprios superiores, que Vanags finalmente cai em si e percebe que, realmente, a guerra está longe de ser aquilo que pensava.

Dveselu putenis Critica de Cinema

Dveselu Putenis é, por toda esta análise da futilidade e luta de egos de países que se autointitulam de nações superiores, uma obra extremamente profunda e apetrechada de significados que, à primeira partida, não são percetíveis ao espectador. É ao avançar na sua narrativa, e na dedicação dos seus companheiros letões, que o protagonista começa a perceber que não está a lutar pelo seu país, mas sim a facilitar o caminho a outro para ocupar o seu. Esta sensibilidade e esta coragem sobressaem nas imagens de Dveselu Putenis, e torna a obra de onde foi adaptado ainda mais apelativa e atrativa para uma futura leitura. O defeito maior é precisamente a prestação de Oto Brantevics que ainda não tem experiência suficiente para conduzir uma história tão complexa e densa com o profissionalismo que ela requer. Acabamos por perder um pouco a imersão que nos conduz pela exposição de eventos e pela deslumbrante componente técnica, devido à fraca condução narrativa pelo seu protagonista.

Em todos os restantes aspetos, Dveselu Putenis é um filme magnífico, onde é notório o investimento da Letónia em trazer um realismo forte e acutilante, rivalizando com as grandes produções de guerra feitas até aos dias que correm, com uma direção de fotografia, guarda-roupa, design de produção e banda-sonora soberbos, para além de uma realização absolutamente infalível do maestro Dreibergs. Estes elementos acabam por ofuscar ligeiramente esta carência de um protagonista competente e muitas vezes são eles que nos elucidam para esta batalha interna no meio de outra física que rodeia a personagem principal. É um dos candidatos que merecia destaque, não apenas como Melhor Filme de Língua Estrangeira, mas também em muitas categorias técnicas que ninguém do público que teve a oportunidade de o ver irá afirmar o contrário. Portanto, Dveselu Putenis é um dos filmes de guerra mais cativantes destes anos e que tem uma história que nos deixa a refletir sobre as questões menos lineares de lutarmos pela nossa pátria e vermos as mortes dos nossos conterrâneos serem desperdiçadas pelos egos de nações problemáticas em afirmar uma supremacia autoritária que apenas prejudica o crescimento do ser humano como espécie.

Dveselu putenis Critica de Cinema

Leiam outras Críticas aqui.

Título: Tempestade de Almas

Título Original: Dveselu Putenis

Realização: Dzintars Dreibergs

Elenco: Oto Brantevics, Greta Trusina, Martins Vilsons, Rezija Kalnina, Raimonds Celms, Jekabs Reinis, Gatis Gaga, Renars Zeltins.

Duração: 105 min.

Trailer | Dveselu Putenis

Comments