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Crítica: Out of Africa (1985)

Out of Africa Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE OUT OF AFRICA!

Ultimamente tenho tentado articular o meu tempo em entregar-vos críticas frescas dos filmes mais recentes, mas sempre que tenho uma brecha de tempo, vejo um clássico para me relembrar de que os filmes de agora foram sempre inspirados nos de antigamente. Out of Africa, que pertence ao catálogo da Netflix, foi um daqueles que sempre me suscitou curiosidade. Para além de um fã incondicional de Meryl Streep, Out of Africa venceu sete Óscares da Academia em 1986 e é uma obra obrigatória para perceber a evolução da carreira da própria atriz. Portanto, Out of Africa, realizada pelo multifacetado Sydney Pollack, adapta a obra de Karen Blixen, que é a protagonista deste drama passado num continente selvagem e que tem uma cultura muito divergente da europeia do século XX. Uma baronesa viaja até ao Quénia para se casar com Bror, um duque dinamarquês, que está dependente da fortuna da sua futura esposa para apostar numa plantação de café nas planícies africanas. Mas depois de descobrir que o seu atual marido tem uma conduta adúltera, Karen começa a desenvolver uma amizade íntima com um caçador de espírito live.

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Out of Africa é um filme que tinha bastantes expectativas e, infelizmente, a maior parte caiu por terra. A química entre Meryl Streep e Robert Redford é carismática, mas Out of Africa é um filme extenuante, de uma duração exageradamente longa, e não muito criativo para a temática que aborda. A verdade é que é caso para dizer que Out of Africa é provavelmente um dos clássicos mais sobrevalorizados do cinema, porque o cenário muda, mas as convenções do seu género estão lá em todos os prismas e sem grandes mudanças. A sorte é precisamente o trabalho de atores que acaba por ser a sua maior arma. Todo o resto… bem… para além de ser um filme que acaba por expor a supremacia caucasiana sob as comunidades indígenas e sobre a vida selvagem (claro que tenho sempre noção da cronologia em que o filme se insere), Out of Africa é praticamente o one-woman-show de Streep, já que o argumento é tão cliché e tão desinteressante, que se torna redundante muitas vezes na forma como se expõe em imagem. Isto é, apesar de reconhecer o mérito de todo o trabalho técnico e performativo do filme, não consigo encontrar nele algo que o faça ser verdadeiramente memorável.

Há imensas versões desta temática em cinema e televisão, não fossem as 10347372947 vezes em que obras de Jane Austen, e outros autores romancistas, foram adaptadas. Out of Africa aproveita-se deste tipo de romance e de temática (uma forma de colocar Streep como a líder de um elenco maioritariamente masculino) e de lhe mudar o pano de fundo para um continente marcado por perigo, exotismo e em constante cobiça pela magnífica vida selvagem que tem. Isto não é suficiente para marcar ela diferença e, não tenho receio que os fãs mais acérrimos de Out of Africa refutem os meus argumentos, mas a verdade é que não há nada de original nele. É competente, sim, em muitas áreas. Tem morais questionáveis, mas como se insere numa época infeliz da humanidade, acabo por fechar os olhos a determinados aspetos, mas acima de tudo, não é mais do que um romance banal, em que muda do cenário comum das cidades britânicas ou americanas, e que se insere numa África ainda dominada pelos europeus.

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A banda-sonora de John Barry é absolutamente magistral e a direção de fotografia é cativante, para além de um elenco fabuloso. Mas, e de resto? O que retemos de Out of Africa? O que torna este filme tão icónico e tão memorável para arrecadar tantos Óscares quando, por essa altura, o género do romance estava mais que estabelecido? É neste tipo de perguntas que temos obrigatoriamente que ser insistentes porque em quase três horas de filme, vemos Meryl Streep a liderar uma película cansativa que, no fundo, não nos traz nada de novo nem de substancial. É um drama que mesmo estando bem filmado, não passa de uma história de amor que carece de elementos que a tornem mais apetecível e afoga-se em convenções inadmissíveis para as proporções que tem. Ao contrário de filmes clássicos do género, que deixam a sua marca profunda por diálogos acutilantes e sentidos, ou por sequências que enaltecem os protagonistas e nos fazem criar uma empatia maior com eles, Out of Africa age como se fosse uma desculpa para que, de alguma forma, nos sintamos impelidos a nutrir algum tipo de compreensão em relação às pessoas que conduziram à escravatura de tantas outras, que invadiram um país que não era o seu em prol de submeterem outras comunidades à sua ganância e, pior do que tudo, de quererem vangloriar-se pela chacina de uma vida selvagem magnífica e única e de não colocarem essa ética em causa enquanto sorriem com altivez perante estes factos.

Out of Africa é, portanto, um filme que guardo com muitas reservas, que aprecio pelo talento da sua musa e do restantes elenco, mas que é demasiado aborrecido e linear e não questiona sequer as suas atitudes perante aquilo que aborda. É um filme vincado nas convenções típicas de Hollywood e não foi corajoso o suficiente no seu tempo de marcar pela diferença e, portanto, não é mais do que um daqueles clássicos que está marcado por ter saído numa altura em que não haviam progressos em nada em termos sociais e de ativismo que, de alguma forma, eram necessários para tornarem Out of Africa numa obra bem mais significativa do que, na verdade, é.

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Título: África Minha

Título Original: Out of Africa

Realização: Sydney Pollack

Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens, Michael Gough, Leslie Phillips.

Duração: 161 min.

Trailer | Out of Africa

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