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Crítica: Até Que o Porno Nos Separe (2018)

Até Que o Porno nos Separe Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE ATÉ QUE O PORNO NOS SEPARE!

Já tinha guardado na RTP Play esta história única e que desperta a curiosidade alheia e que é um trabalho nacional de extrema delicadeza. Jorge Pelicano realiza Até que o Porno Nos Separe, que se foca em Eulália Almeida, uma mulher na casa dos 60 que tem valores conservadores, e na sua problemática relação com o seu filho adotivo, a estrela pornográfica gay Fostter Riviera. Esta é uma jornada para ambos, há procura de encontrarem um meio-termo para serem felizes, mas não é uma viagem fácil. “O sofrimento não deve servir para me transformar em pessoa cobarde, medrosa, que se esconde em volta de paredes.” Escreve Eulália ao seu filho nas suas muitas mensagens de Facebook para o mesmo. Há esforço de Eulália em tentar entender Fostter e a procurar aceitar quem é e o que faz de profissão, que na sociedade conservadora portuguesa permanece um tabu.

Até Que o Porno nos Separe Critica de Cinema

Até que o Porno Nos Separe é um documentário fabuloso, que tira proveito de uma temática delicada, humana e cheia de força emocional que aborda. É difícil para ambos os lados quando duas gerações de valores diferentes colidem, o choque entre conservadorismo e liberdade; de amor e de compreensão. Pelicano vagueia por estas características difíceis e consegue articulá-las de forma a que o espectador entenda ambos os lados, focando-se no primeiro ato no dia-a-dia melancólico e derrotista de Eulália e na ansiedade que causa este silêncio do seu filho, mas também não esconde o lado mais opressivo e mais sufocante da mesma em exigir respostas a Fostter e à pressão que exerce em querer obrigatoriamente respostas para algo com que ainda não se sente confortável consigo mesma para entender. Ao focarmo-nos na perspetiva do ator pornográfico gay galardoado, vemos o peso que isto tem no mesmo, e na procura desalmada em se evadir e de criar barreiras para se proteger desta mãe que ainda não está bem conformada com a sua realidade.

O dia-a-dia de Fostter, que é visto ainda com ceticismo, repudia e choque por uma sociedade ainda pouco tolerante e que se deixa levar pelo preconceito, é vivido com intensidade pelo mesmo. É notória a força com que o jovem fala sobre a sua profissão, do orgulho que tem em ser quem é e daquilo que faz. Mas há todo um pesar de não ter o apoio da pessoa que provavelmente é a que mais ama na vida. Até Que o Porno Nos Separe é tão genial em estabelecer um equilíbrio nas suas mensagens, que se torna incrivelmente cativante e nunca é tendencioso ao ponto de nos fazer tomar partidos. Entendemos os dois pontos de vista e sentimos a sua dor, procuramos respostas fáceis onde não existem porque Até Que o Porno Nos Separe é uma viagem que cria uma brecha em comportamentos geracionais. Ainda que pudesse apostar mais nos diálogos e nos contactos entre mãe e filho e pudesse aproximá-los mais, já que há uma vontade crescente de procurarem aceitar-se como cada um é, Até Que o Porno Nos Separe é um exercício de cinema corajoso e tocante, que nos absorve pela sua estrutura carismática e pela incidência em questões humanas e sociais extremamente importantes.

Até Que o Porno nos Separe Critica de Cinema

O seu último ato acaba por mostrar uma réstia de esperança nesta colisão de dois mundos diferentes e, tal como Eulália diz nas suas palavras: “Eu é que tenho de sair do armário”. É uma postura sorridente para que esta relação consiga progredir até atingir a felicidade de ambos os protagonistas; mas as palavras precisam de estar alinhadas com a consciência e devem ser proferidas com vontade e com amor. É ao visitar Fostter durante o seu show na Eros Porto 2017 que Eulália conhece algumas das pessoas que compõem a vida do seu filho e que nos deixam com esperança que esta barreira social de difícil separação comece, finalmente, a cair. Mesmo que Até Que o Porno nos Separe tivesse obrigação de refletir um pouco sobre as melhorias da relação que aborda entre mãe e filho, é um documentário incrível e que rompe com os clichés habituais, definindo a sua própria identidade e nunca nos deixando a torcer por um partido próprio, mas sim pelo bem comum dos seus intervenientes.

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Título: Até Que o Porno Nos Separe

Título Original: Até Que o Porno Nos Separe

Realização: Jorge Pelicano

Duração: 89 min.

Trailer | Até Que o Porno Nos Separe

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