Especiais TV

Especial: Euphoria – Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob

Euphoria Jules

CONTÉM SPOILERS DE EUPHORIA!

Cada história tem dois lados da verdade. O ser humano é um ser psicologicamente complexo, capaz de sentir emoções adversas e de rejeitar determinadas realidades depois de algo na sua vida que faz com que exista uma necessidade de reprimir determinado sentimentos em relação a elas. Depois dos eventos do season finale de Euphoria, ficámos a saber o ponto de vista de Rue, com um especial perfeito Trouble Don’t Last Always, agora é a vez de Jules de exprimir e contar o seu lado, num episódio tão perfeito quanto o seu anterior, que revela uma capacidade de Sam Levinson de despir as suas personagens e de lhes atribuir camadas dramáticas absolutamente infalíveis e que as tornam tão humanas quanto os espectadores que as acompanham. Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob é uma viagem sobre identidade, trauma e realidade.

Euphoria Jules

Jules conta para a sua psicóloga aquilo que mais tem sentido sobre esta relação com Rue e de como a sobriedade da mesma lhe recorda os problemas com a sua mãe, também ela uma viciada e com propensão para recaídas constantes. O que, para Rue, era um momento de felicidade, para Jules era um inferno. Mas não nos ficamos só por aqui, já que Euphoria desmistifica todo um panorama maior daquilo que a personagem significa a todos os níveis. Jules, transsexual, reflete sobre os valores que contribuíram para a sua transição. Aquilo que a sua feminilidade representa e de como as relações online se tornaram um refúgio para se sentir mais amada e feliz. Como sabem, Jules falava com um indivíduo numa rede social que começou gradualmente a conquistá-la. Era um romance platónico que, como todos os fãs sabem, não era mais do que um esquema para a expor. De que forma lidamos nós com estas situações numa época em que os sentimentos são artificializados e são computadorizados? As redes sociais podem ter vantagens, mas trazem consigo tantas desvantagens. Da mesma forma que existem pessoas genuínas, pode também ser o meio para predadores se infiltrarem e manipularem quem se mostra particularmente vulnerável em conversa.

Estas características que definem Jules como uma personagem complexa, são tratadas com uma sensibilidade fora do vulgar em Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob. Há todo um estudo em torno de como Jules se aceita a si mesma, de como as relações da sua vida influenciam as suas atitudes, sejam elas boas ou más, assertivas ou questionáveis. E, não nos podemos esquecer, que lidamos com adolescentes hormonais e cujo fator de crescimento está ainda a desenvolver-se. Euphoria é tão soberba em fazer-nos entrar neste mundo tão adverso de emoções sem ser melodramática e sem cair nos clichés mais óbvios que são a base da maioria das produções de cinema e televisão de agora. Podemos negligenciar esta complexidade? Podemos julgar um em detrimento do quanto o outro é-nos tão querido? A resposta é não, não podemos. Não podemos ignorar, por muito que Rue seja uma personagem igualmente fabulosa e que nos conquiste em todos os momentos da sua história, este lado de Jules. A série quebra com estes facilitismos de julgamento que fazemos instantaneamente quando ouvimos um lado de uma história.

Euphoria Jules

É preciso entrarmos e termos mentalidade aberta para sabermos ouvir quem está do outro lado. Percebermos que nós, enquanto seres humanos, experienciamos a vida de diferentes formas. Somos assim cativantes e, ao mesmo tempo, quebrados por aquilo que a nossa vida nos traz e, consequentemente, nos define. Jules não é diferente de Rue. É uma personagem que tem tanto para nos ensinar e tanto para aprender consigo mesma, que Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob é uma ode à descoberta de identidade, aos receios de relacionamentos após episódios traumáticos que se assemelham a algo que estamos neste momento a viver, é um especial que nos leva a compreender aquilo que nos define e a capacidade de tentarmos fugir às ideias pré-concebidas que nos são impostas por uma sociedade que prefere julgar-nos primeiro e entender-nos depois ou até nunca.

Euphoria continua a ser uma obra-prima da televisão e estes dois especiais são aquilo que precisamos para termos um confinamento ainda mais rico e introspetivo. Isto é ser-se humano, é expor as nossas vulnerabilidades, é um exercício absolutamente infalível do que é viver em medo e de confrontá-lo para procurarmos a felicidade que tanto ambicionamos para a nossa vida. 2021 começa com esta pérola magnífica e este estudo humano que é imprescindível e altamente obrigatório para quem está do outro lado do ecrã e está à procura de respostas para si mesmo. Sam Levinson é indiscutivelmente uma das personalidades mais importantes da televisão dos dias de hoje e Hunter Schafer é aquele porta-voz perfeito para sensibilizar e ensinar uma sociedade ainda tão dividida, tão condenatória e tão ignorante de si mesma. Rue e Jules, Zendaya e Hunter Schafer, Sam Levinson e toda a equipa extraordinária de Euphoria, um muito obrigado, e a ansiedade pela segunda temporada está, neste momento, ao rubro. Não peço que ela chegue depressa, mas sim com o mesmo poder destes dois especiais. E sabem porque é que são especiais? Porque são essenciais.

Euphoria Jules

Ao som de Lorde e de Billie Eilish & Rosalía, me despeço com aquele que ficou já como um dos episódios de eleição deste presente ano. Se ainda não começaram com Euphoria, aproveitem esta altura de confinamento para o fazerem.

Leiam a nossa Mini-Review da temporada anterior de Euphoria aqui.

0 100 100 1

100%
Average Rating

O novo especial de Euphoria é tão grandioso como o seu anterior, provando que estamos perante uma série demasiado importante no século XXI e que não tem receio de impressionar ou de educar a sociedade de hoje.

  • 100%

Comments