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Tiger – Series Finale – 1ª Temporada

Tiger Series Finale

CONTÉM SPOILERS DE TIGER!

Todos conhecemos a lenda do golfe, Tiger Woods. É uma figura que definiu gerações de amantes do desporto, controverso na sua vida privada e um filho e pai devoto. A nova minissérie de apenas dois episódios da HBO faz uma análise à vida, carreira e escândalos que rodeiam este ícone memorável do desporto mundial. É uma minissérie que tem um lado tendencioso, ainda que seja um trabalho de arquivo fenomenal e completo, capaz de utilizar as suas imagens para nos manipular um sentimento empático perante a vida deste vulto. Terá resultado a longo prazo? Ou é apenas mais um documentário como muitos outros?

Tiger Series Finale
Mandatory Credit: Photo by David J Phillip/AP/Shutterstock (10563327a)
Tiger Woods reacts as he wins the Masters golf tournament in Augusta, Ga. The photo was part of a series of images by photographer David J. Phillip which won the Thomas V. diLustro best portfolio award for 2019 given out by the Associated Press Sports Editors during their annual winter meeting in St. Petersburg, Fla
AP Contest Winners, Augusta, USA – 14 Apr 2019

O MELHOR:

Tiger, em termos estruturais é um triunfo arquivístico.

Nunca podemos ver Tiger sem sabermos nem que seja um pouco da sua vida, da sua conturbada carreira, ou até mesmo dos escândalos que o rodearam durante tantos anos. Há que reforçar a ideia de que esta minissérie ataca de muitas frentes e procura sempre encontrar um escape para tentar fazer com que sintamos um pouco do sofrimento por que esta celebridade passou ao longo dos anos. Se resulta? Resulta sim senhor. A longo prazo, Tiger é um produto que coloca-nos no epicentro de tudo o que se sabe em relação a Tiger Woods e à sua vida. Recolhe testemunho de alguns intervenientes que acompanharam o seu crescimento, partilharam com o mesmo alegrias e frustrações e estão agora a presenciar o seu regresso aos courts. Todo o trabalho informativo é extremamente acutilante, e a montagem está bem delineada, respeitando as estruturas como The Last Dance ou O.J.: Made in America. É um drama de novela que nos força a criar automaticamente uma empatia com Woods. Será ela genuína? Isso já é outro ramo que vamos abordar mais daqui a pouco.

Tiger Series Finale

Em termos cinematográficos, Tiger é um exercício muito competente, que se aproveita deste mote trágico e dramático como uma propaganda de “redenção” e “ressurreição” desta celebridade que, durante um tempo, foi ostracizada pelos média e pela sociedade em geral. O maior triunfo de Tiger é precisamente recordar todos estes meios de comunicação e restante população mundial, que o estrelato e a fama são inimigos da sanidade, da concentração e da espontaneidade do próprio humano. Estar-se na ribalta, como já sabemos, nem sempre é tão “colorido” quanto se pensa e a crítica que Tiger faz aos que diminuíram, menosprezaram e satirizaram Tiger Woods por todos os seus maiores defeitos é absolutamente maravilhosa. Isto porquê? Porque Tiger Woods é um ser humano como todos nós; tem direito a errar, a ter a sua vida privada e a não se sentir obrigado a partilhar a sua parte mais íntima. É um desportista que cedeu a toda a pressão social e que se viu forçado a ser o role model que ele nunca quis ou planeou ser. Tiger foi sempre o objeto de estima do seu pai, Earl Woods, que acabou por ser negligente nalgumas circunstâncias da vida do seu filho, porque começou a preocupar-se mais com a fama que poderia vir a ter, mais do que com o bem estar mental do seu filho. Isto fará mais sentido assim que virem os dois episódios. O amor entre pai e filho é notório, mas as influências de conduta de vida acabaram por, inevitavelmente, definir os passos menos bons da carreira do golfista.

Esta mensagem de que Tiger foi vítima de uma sociedade que é sequiosa por “modelos corretos”, ou de “celebridades que dão o exemplo” acaba por ser polémica de certa forma, mas num aspeto a série ganha: Tiger Woods recebeu uma exposição demasiado vincada na sua vida privada, mais do que nos seus triunfos como bom profissional do desporto que sempre foi. O que devemos conhecer dele é precisamente este último, e nunca devemos ser totalmente influenciados pelos meios que procuram as reportagens mais fáceis para desgraçar a vida dos nossos ídolos. Mas nem tudo em Tiger é transparente e há certos aspetos que, por muito que não queira reforçar, terei de o fazer.

Tiger Series Finale

O PIOR:

Em cima fiz a pergunta se Tiger era uma minissérie genuína com base na vida da lenda do golfe.

A resposta é não, não é. E porquê? Porque os realizadores Matthew Hamachek e Matthew Heineman têm apenas um objetivo em mente: limpar o nome de Woods. Tiger não é esse objeto de redenção porque o próprio Tiger Woods não é um interveniente que fala diretamente para a câmara e reflete sobre a sua vida. É um registo que nos deixa nas bancadas e cria algumas ideias pré-concebidas daquilo que foram os ups and downs de Tiger enquanto profissional. Mesmo que tenha aspetos muito interessantes e mensagens bastante boas, Tiger é um produto altamente tendencioso e o tratamento que faz do seu objeto é quase como uma glorificação de quem pretende (e precisa) de meios para voltar à ribalta depois de tantos momentos de incerteza.

Não ter o próprio Tiger Woods a falar sobre a sua realidade faz com que Tiger seja um exercício pobre de espírito e que, embora utilize as imagens de arquivo para se justificar, nada é tão justificável como a pessoa em si falar sobre aquilo que viveu. Tiger precisava de um pouco de The Last Dance para ser ainda mais credível e para que as suas intenções fossem mais transparentes. A humanização de Tiger Woods não pode ser feita por quem está atrás das câmaras, mas deve ser feita diretamente com a personalidade. Apesar de tudo, estamos a falar sobre alguém que não está presente para se defender ou para se explicar sobre os eventos. Isto acaba por comprometer Tiger no seu todo. Acaba por parecer mais uma reportagem do que propriamente um objeto televisivo.

Tiger Series Finale

Ainda assim é difícil não nos sentirmos envolvidos e esse trabalho acaba por merecer o seu mérito porque, por norma, exercícios de arquivo nunca conseguem ser tão cativantes como é o caso. Tiger é um produto que irá gerar a sua controvérsia especialmente entre nós, críticos, que temos de nos centrar em todos os aspetos, mais do que quem vê a minissérie por mero lazer ou pela busca por informações. Como alguém que nunca ouviu falar muito de Tiger Woods, vou gostar de Tiger para o ficar a conhecer melhor, sem dúvida, mas como crítico de cinema há já algum tempo, sou forçado a questionar-se sobre a ética e a construção de ambos os episódios e na forma como irão trazer algo de novo ou inovador para o panorama televisivo.

Espero ter-me justificado o mais claro possível sobre esta abordagem de Tiger que irei recomendar à mesma, mesmo tendo algumas reservas quanto à sua apresentação. Pelo menos é um exercício bem melhor do que Finding Neverland que, dentro da sua missão, acabou por ser ainda menos trabalhado em termos de informação e deixou-se levar pela preocupação de arruinar uma imagem de um vulto mais do que se preocupar com os resultados mais práticos do seu escândalo.

Tiger Series Finale

Estado da Série: TERMINADA

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Average Rating

Tiger é uma minissérie que releva um trabalho de arquivo louvável e infalível, mas acaba por ser demasiado tendenciosa por não colocar o seu objeto de estudo em primeira mão e à frente dos seus fãs. Acaba por não saber fazer as perguntas certas e o seu formato assenta mais como um especial de um noticiário mais do que algo inovador para o género documental televisivo.

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