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Crítica: The Painter and the Thief (2020)

The Painter and the Thief Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE THE PAINTER AND THE THIEF!

Neste circuito das cerimónias de prémios, existem muitos filmes que passam despercebidos e que merecem atenção. The Painter and the Thief é um documentário mirabolante que, se não fosse pelo seu estilo de filmagem, diríamos que estávamos perante um caso de ficção. Barbora Kysilkova é uma pintora com algum nome e mudou-se da República Checa para a Noruega em busca do seu sonho e para escapar a uma relação abusiva. Num dia, duas das suas mais conceituadas obras são furtadas por uma dupla de ladrões e Barbora é chamada a tribunal para tentar recuperar as suas obras e enfrentar Karl Bertil-Nordland, um dos ladrões. Nordland, cuja vida está envolta em dramas psicológicos profundos e num consumo de drogas constante, não se recorda do paradeiro das pinturas que roubaram de Barbora. Em vez de o rejeitar, Barbora pede a Nordland se o pode pintar, e aqui começa a desenvolver-se uma amizade improvável entre ambos e, quem sabe, fiquemos a saber da localização das obras perdidas.

The Painter and the Thief Critica de Cinema

Custa-me imenso criticar um filme como The Painter and the Thief. E acho que essa era uma das intenções do realizador Benjamin Ree… é uma obra que tem intenções muito bonitas, mas uma execução sensacionalista e totalmente questionável. Entendo que a mensagem principal é enaltecer a forma como os seus dois protagonistas conseguem ultrapassar as suas diferenças e tornarem-se amigos e confidentes, para além de se apoiarem em tempos difíceis para ambos. É quase inacreditável que esta história tenha “caído de paraquedas” no colo de Benjamin e faz-nos questionar constantemente até que ponto o que estamos a ver não foi ensaiado ou se, por saberem que estão a ser filmados, tentam apelar a uma atitude dramática como se ambicionassem tornarem-se atores. The Painter and the Thief é algo muito ambíguo de filmar e a sua estrutura é extremamente estranha precisamente porque o ceticismo desde o início que está presente. Há toda uma dramatização intensa por parte de Ree em querer obrigatoriamente que o espectador nutre empatia com as personagens e que procure, também ele, ignorar os backgrounds das suas vidas. Até a escrever sobre ele me sinto, eu próprio, ambíguo, e a relatar o que vai nos meus pensamentos…

The Painter and the Thief é uma obra que, de alguma forma, nos obriga a gostar dela, nem que seja pela sua mensagem bonita. Mas à medida que vamos conhecendo Barbora e Karl, ficamos divididos não na sua relação, mas na veracidade do que estamos realmente a ver. É estranho que Ree tenha conseguido algumas imagens, especialmente uma em que a pintora está, literalmente, a pintar uma das obras que lhe foi furtada… ainda assim é possível, não vá a própria pintora ter-se gravado a si mesma a fazê-lo. Mas ainda assim, há todo um trabalho bizarro, onde Ree se foca em problemas de menor importância para o seu mote, como a vida na prisão de Karl ou até mesmo as dificuldades financeiras de Barbora. Afinal estamos a ver o quê propriamente? O espectador enfrenta alguns problemas difíceis, porque Ree quer fazer “render o peixe” e empanturra o filme com algumas características que só reforçam mais a ideia de que estamos perante algo teatral e não documental. O melodramatismo começa a assumir as rédeas de The Painter and the Thief e, em vez de nos fazer agarrar (pelo menos a mim), começa a fazer-me questionar tudo e mais alguma coisa sobre o que estou a ver.

The Painter and the Thief Critica de Cinema

A estrutura de The Painter and the Thief é também habilmente ingrata, já que somos forçados a ter que esperar até ao final para saber o que aconteceu às obras perdidas (ou pelo menos uma delas), e mistura momentos de introspeção dos intervenientes em separado e, nalguns momentos, força-os a chocar como se se conhecessem assim tão bem subitamente. É mesmo difícil de analisar esta produção porque, ela própria, é instável nos seus motivos e, pior do que isso, na realidade altamente questionável que compõe a parte documental… Ainda assim, The Painter and the Thief é, sem dúvida, uma obra interessante e provocadora, e talvez essa provocação seja a sua maior aliada em angariar público; mas é pouco convincente no tratamento da sua informação e deixa o público cético sobre até que ponto é credível ou não e isso compromete a experiência visual do mesmo.

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Título: A Pintora e o Ladrão

Título Original: The Painter and the Thief

Realização: Benjamin Ree

Duração: 106 min.

Trailer | The Painter and the Thief

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