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Crítica: Snowtown (2011)

Snowtown Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE SNOWTOWN!

Numa pesquisa de filmes mais perturbadores da História do Cinema, há um que praticamente constava em todas as listas e que ia ao encontro de um dos géneros que mais me fascina no cinema: o true crime. Snowtown é uma recriação ficcional dos eventos que decorreram nos anos 90, onde ficou consagrado o maior serial killer de terras australianas, John Bunting. O filme, de facto, tem sequências muito fortes e que nos deixam a temer aquilo que irá acontecer, fazendo-nos ficar num estado de ansiedade atípico. Somos levados, então, para a pequena comunidade de Snowtown onde a família de Jamie Vlassakis, o protagonista, é atormentada por um longo histórico de pedofilia, seja por vizinhos, amigos, ou amantes da sua mãe solteira. Não é até que chega John, um carismático e dedicado homem, que ganha a confiança de três dos quatro filhos de Elizabeth, incluindo a de Jamie. Mas o que parece ser um justiceiro travesso logo começa a ganhar dimensões mais graves e John empurra Jamie para um mundo de tortura e morte que parece não ter fim.

Snowtown Critica de Cinema

Snowtown, pela minha pesquisa, é uma recriação bastante fiel àquilo que foi vivido pelos intervenientes reais da sua temática. É um filme que utiliza as mentalidades mais doentias e deturpa a relação entre pedofilia e homossexualidade (que de facto, nenhuma relação têm), e tenta mostrar os ideais psicopatas quase naturais de Bunting em condenar aquilo que, para ele, é considerado imoral. Snowtown não é um filme perfeito, já que devia ter-se focado também em entregar ao espectador o background deste notório serial killer em vez de apenas se focar na dor de Jamie. De alguma forma, este filme de estreia de Justin Kurzel, o responsável pelo penoso Assassin’s Creed e a mais recente adaptação de Macbeth, tenta levar o espectador a entender a mágoa e a dor do protagonista Jamie Vlassakis, que foi igualmente condenado pelos homicídios de Snowtown. É uma estratégia que podia ter sido melhor explorada se equilibrasse o tempo de antena entre ambas as personagens.

Mas Snowtown tem todo um look independente cativante e a ausência de rostos conhecidos torna a experiência ainda mais aterradora. Daniel Henshall, que interpreta Bunting, é absolutamente vertiginoso e o silencioso e observador Lucas Pittaway tem também um grande valor performativo. Mesmo que o elenco não seja propriamente famoso, Snowtown aposta no grafismo da sua violência, colocando o expectador a viver em primeira mão os horrores que o protagonista teve de enfrentar até ao seu desenlace. Por vezes, este look amador acaba por nos enganar e ficarmos a espera daqueles erros mais comuns ao longo do filme, mas logo nos apercebemos que é essencial para nos transportar para uma vivência mais próxima com as personagens, como se se tratassem de mártires sociais exonerados por um estatuto de pobreza ou de decadência social com que nos acabamos por relacionar de certa forma. Tal como a produção australiana Animal Kingdom, Snowtown bebe de muitas influências de um mundo criminal onde o protagonista é ingénuo, sossegado e com uma vida que nunca foi propriamente justa ou feliz. É quando uma figura carismática chega e revoluciona o seu mundo, que este jovem começa a ganhar tendências que libertam as suas frustrações, mas ao mesmo tempo tendo noção de todo o mal que está a impingir sobre os demais.

Snowtown Critica de Cinema

Todos nós condenamos a pedofilia, mas pouco de nós conseguimos fazer um julgamento sobre aquilo que vai na pele da pessoa em questão. Somos quase incapazes de tentar entender de que forma esta doença se comporta e preferimos condenar (e isto é completamente compreensível) e por vezes a linha que separa uma doença da natureza é deturpada. Embora tudo seja moralmente condenável em Snowtown, o filme ilustra a incapacidade de John de procurar a justiça legal, e de tomar medidas pelas suas próprias mãos. E, pior do que isso, é a sua influência e carisma sobre os mais frágeis e jovens. John é um predador, tal como a maioria da suas vítimas que subjugaram imensas crianças a horrores infindáveis. E este tipo de mentalidade torna-o quase ou mais perigoso do que aquilo que defende. Este extremismo é preocupante e, recordemo-nos, que estes homicídios são relativamente recentes, datados na década de 90.

Snowtown pode não ser perfeito nem explorar todo o potencial da sua história, mas é um filme que tem as doses de violência requeridas para nos chocar e nos deixar perplexos com tudo aquilo que o rodeia. É uma obra que consegue camuflar algumas das suas arestas mais preocupantes através de uma proximidade com o real assustadora. É um filme que não é para os mais suscetíveis, de facto, mas é um que ilustra uma realidade e, pelas minhas pesquisas, uma que é bastante fiel aos factos mencionados no julgamento destes criminosos. Portanto, deem uma oportunidade ao filme de estreia de Justin Kurzel que vos faz viajar pela maior dor humana possível, da forma mais cruel possível.

Snowtown Critica de Cinema

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Título: Os Crimes de Snowtown

Título Original: Snowtown

Realização: Justin Kurzel

Elenco: Lucas Pittaway, Bob Adriaens, Louise Harris, Richard Green, Daniel Henshall, David Walker.

Duração: 120 min.

Trailer | Snowtown

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