Cinema Críticas

Crítica: Herself (2020)

PODE CONTER SPOILERS DE HERSELF!!!

O cinema, desde os seus inícios, tem servido como fonte de entretenimento para as massas, uma forma de nos abstrair, durante minutos, dos problemas que nos atormentam cá fora, na vida real. Ao longo dos anos, o cinema tem vindo a cumprir com esses dever, mas também não se abstém de partilhar connosco algumas histórias da vida real que podiam acontecer não só a nós, mas também a amigos nossos, vizinhos, colegas de trabalho, etc. E muitos destes filmes ora triunfam com uma rasgada surpresa, ora deixam um tanto ou quanto a desejar. Felizmente para Herself, o primeiro caso é bem aplicável!

Após anos a sofrer abusos físicos e psicológicos, Sandra está pronta para deixar o seu marido e fazer a sua vida com as suas jovens filhas. No entanto, quando o sistema não consegue proteger as três mulheres, ao ponto de o ex-marido continuar a fazer das suas e não lhes ser providenciada os direitos inerentes, Sandra decide construir a sua própria casa.

Herself Crítica de Cinema

No que refere à temática sobre o abuso dentro de um ambiente conjugal, Herself pode não ser inteiramente inovador. No entanto, isso não implica necessariamente que o poder da sua mensagem não esteja presente; porque, neste caso particular, a mensagem está bem espelhada para toda a gente ver!

Não é necessariamente uma temática fácil de se ver, e não é a primeira vez que vemos um produto fictício em que o sistema judicial de qualquer país não consegue oferecer segurança e estabilidade para as vítimas. Seria uma maneira fácil ilustrar este combate judicial como uma espécie de drama legal, mas Herself, graças aos esforços da realizadora Phyllida Lloyd, dos guionistas Malcolm Campbell Clare Dunne (esta última também como protagonista), esta temática ganha uma receção calorosa, repleta de carinho e de força de vontade de lutar pelo bem maior, sem ignorar os constantes obstáculos que se possa enfrentar.

Herself Crítica de Cinema

Como já é norma, não é possível falarmos de um filme sem termos de referir os atores que compõem o elenco. E a liderar o elenco temos Clare Dunne que, apesar de ser a sua estreia no grande ecrã, acaba por ser a maior surpresa de Herself. Os seus dotes como guionista tornam-se bastante evidentes pelo tom do filme: inspirador, sem esquecer os obstáculos árduos que tem pela frente. Mas se esta, com ajuda no guião, é uma agradável surpresa, é no seu papel de Sandra que a atriz se revela por inteiro. Temos aqui uma mãe recém-divorciada que podia facilmente cair no desespero e no trauma depois de anos de sofrimento; no entanto, com o intuito de dar uma infância digna às suas filhas, não olha a meios para conseguir construir a casa dos seus sonhos. O seu espírito lutador é palpável no princípio ao fim, mas a atriz também não se esquece das suas fragilidades, do seu medo, sempre que o ex-marido entra em cena. É uma performance multi-facetada que se torna, e com razão, no centro do filme!

O restante elenco secundário pode não ter a mesma profundeza emocional, recaindo em papéis de fácil interpretação, mas conseguem cumprir com os deveres que lhes são incumbidos. Convém destacar todo o plantel de atores que interpretam as mais variadas figuras de ambos os géneros, escala social e de cor de pele, que se abdica das suas vidas pessoais para ajudar com a jornada de Sandra para o seu objetivo. É uma performance coletiva que não avança mais, mas também consegue transmitir uma outra mensagem importante: juntos, unidos sob um mesmo objetivos mais fortes. Pode ser mais relevante para a maior parte da população, considerando a atual pandemia, incitando-nos a ajudar-nos a nós próprios e ao próximo, mas torna-se ainda mais importante para as verdadeiras vítimas de violência doméstica, que raramente dispõem de meios ou sistemas de suporte para poderem refazer a sua vida de forma digna.

Herself Crítica de Cinema

Com tantos elogios rasgados, seria inevitável que Herself tivesse alguns problemas (qual é o filme que não os tem?). E embora o tom tenha sido, maioritariamente, constante, com Sandra na mó de baixo e ir sempre a subir com alguns altos e baixos, o twist final acaba por roubar aquela alegria que nos conseguiu contagiar. Parece ser uma forma um tanto ou quanto fácil de incutir mais uma dose de drama agora desnecessário, só para vermos a protagonista novamente no ponto de partida, se bem que mais segura dela mesma.

Apesar deste problema, Herself é um filme que merece ser visto. O seu tema não é o mais fácil de se ver, e muito menos totalmente original na sua conceção, mas não deixa de ser um retrato (infelizmente) realista das vítimas de violência doméstica. Por vezes duro, por vezes enternecedor. É um filme que merece ser visto e discutido com o próximo, além de, talvez, ajudar a mudar mentalidades.

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Título: Herself

Realização: Phyllida Lloyd

Elenco: Clare Dunne, Molly McCann, Ruby Rose O’Hara, Ian Lloyd Anderson, Cathy Belton, Conleth Hill, Rebecca O’Mara, Harriet Walter

Duração: 97 minutos

Trailer | Herself

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