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Crítica: Vitalina Varela (2019)

Vitalina Varela Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE VITALINA VARELA!

Depois de Listen ter sido desclassificado como submissão aos Óscares de Portugal, é a vez de Vitalina Varela assumir a liderança. Não sou um conhecedor do trabalho de Pedro Costa, sendo que Vitalina Varela é o primeiro filme do realizador que tive a oportunidade de ver. Este é um filme muito próprio e pessoal, que age como uma crónica inspirada na vida real da própria Vitalina, uma atriz Cabo Verdiana, que deixa aqui o seu tributo sentido ao sentimento de abandono, de mágoa e de perda. Vitalina Varela acompanha, portanto, a personagem que lhe dá nome, que regressa a Portugal após 25 anos para fazer o luto do seu marido que, infelizmente, já tinha perecido há uma semana atrás. No entanto, Vitalina descobre que este marido, que a abandonou em Cabo Verde, levava uma vida ilícita e pecaminosa. É ao sentar-se com um padre desgraçado que deambula pela zona das Fontaínhas, com tremeliques nervosos constantes e uma postura muito alienada, que Vitalina procura um pouco de conforto deste sofrimento tão doloroso que a acompanhou durante toda esta parte da sua vida.

Vitalina Varela Critica de Cinema

Vitalina Varela é um filme que não é para todos. Aliás, muitos irão revirar os olhos perante a monotonia de um filme pouco iluminado e de diálogos escassos, onde devaneios verbalizados constituem a maioria do argumento. É também um exercício que não está preocupado se as pessoas o compreendem ou sentem na pele a emoção que ele pretende emanar. É, digamos, um filme que não está focado nas gerações atuais nem procura agradar a massas. É uma ode agridoce à emigração, à dor proveniente do sentimento de abandono e algo muito especial que evoca um raciocínio introspetivo e contemplativo. Pedro Costa e o diretor de fotografia Leonardo Simões criam uma sinestesia de sentimentos dolorosos através de uma filmagem estática que está embebida constantemente em escuridão. É quase como que Vitalina Varela fosse um poema trágico e reflexivo do impacto que o abandono tem no ser humano. Os monólogos pensativos da protagonista transparecem a sua mágoa e a sua dor, num ato corajoso de cinema introspetivo. O facto de não assentar propriamente na ficção nem no documentário torna Vitalina Varela uma obra preciosa e um híbrido que foge aos clichés que abundam pelo cinema internacional.

O próprio ambiente escuro e sombrio (que custa a entranhar) e o ritmo melancólico desta viagem humana faz com que este seja um produto ambicioso mas que nunca perde o seu foco. A realização de Costa está atenta aos mais importantes detalhes, onde os cenários se tornam sufocantes, numa metáfora visual que nos leva a pensar que a zona onde a protagonista reside (ou melhor, onde se situa a casa do seu falecido marido) partilha da sua dor e do seu pesar. A posição da câmara e a ausência de luz tornam Vitalina Varela um filme impróprio para ver nesta altura de confinamento devido à sua grande génese dramática sediada nos pensamentos depressivos. Mas nem por isso deve ser menosprezado, já que é uma obra singular e diferente de tudo o que vi até aos dias que correm. Pedro Costa dá um toque muito pessoal e próprio à realização, e penso que esta afirmação em deixar a sua marca icónica nas artes audiovisuais, o levarão para um sucesso internacional evidente; no entanto, incluiria mais alguns diálogos e trataria a temática com um pouco mais de lucidez em torno das novas relações que Vitalina vai tendo ao longo deste seu capítulo. Apesar de ter objetivos vincados, Vitalina Varela precisava um pouco mais de polimento que fugisse deste sentimento tão decadente e, no entanto, tão egocêntrico.

Vitalina Varela Critica de Cinema

São poucas as personagens que se atravessam no caminho da protagonista e todas subexploradas no contexto do filme, levando-o a ser um one woman show que precisava de um pouco de ornamento externo à sua mágoa. Ainda que sejam percetíveis as intenções do seu realizador (e da atriz que também assina o argumento), Vitalina Varela ganharia mais se também impulsionasse um novo rumo para a protagonista, como que se houvesse uma luz ao fundo do túnel e a sua adaptação a Portugal tivesse um pouco de esperança. O filme rouba totalmente esta hipótese, já que tanto nas trevas como nos poucos momentos de luz, a perda acompanha Vitalina Varela. O sentimento de abandono que é percetível pelos monólogos da protagonista, pelo seu olhar doloroso e pelos momentos de contemplação de um vazio constante, fazem com que este seja um filme muito especial. A pouca iluminação, colocada de forma brilhante nos pontos certos, age como um pequeno impulso para que Vitalina consiga seguir o seu caminho por esta viagem tão intensa pelo seu próprio sofrimento. E o padre, interpretado por Ventura, não lhe fica atrás, sendo que é uma personagem que traz algum potencial para alimentar ainda mais a sensação de perda de rumo.

Este deambular pela condição mais decadente do ser humano pelos olhos de quem sabe como criar uma estranha sensação de desalento emocional é o maior trunfo de Vitalina Varela. É um filme muito especial, ainda que seja um registo que não irá agradar a muitos cinéfilos. É difícil colocar em palavras algo que age como uma poesia visual, saída de uma galeria de pintura sobre todos estes sentimentos negativos que nos acompanham nas alturas mais difíceis. Ainda que mantenha a minha posição de que daria um final mais sorridente para Vitalina e o seu fiel companheiro e desse mais tempo de antena às personagens secundárias, reconheço que Vitalina Varela é um trabalho minucioso e único, que merece ser apreciado como uma peça fulcral de arte audiovisual e por assumir a sua identidade através de um realizador que se preocupa mais com a arte do cinema do que com a componente industrial do mesmo. Vitalina Varela traz para o cinema de autor nacional e internacional um pouco de luz numa época de sombras.

Vitalina Varela Critica de Cinema

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Título: Vitalina Varela

Título Original: Vitalina Varela

Realização: Pedro Costa

Elenco: Vitalina Varela, Ventura, Manuel Tavares Almeida, Francisco Brito, Marina Alves Domingues.

Duração: 124 min.

Trailer | Vitalina Varela

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