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Crítica: Ma Rainey’s Black Bottom (2020)

Ma Rainey's Black Bottom Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE MA RAINEY’S BLACK BOTTOM!

A época dos Óscares está aqui e a Netflix lança todas as suas cartas com Ma Rainey’s Black Bottom, o último filme de Chadwick Boseman, o eterno Black Panther que pereceu no final de agosto devido a cancro no cólon. É um filme que não é para todos, mas que tem uma mensagem extraordinária e complexa; uma que alia o melhor do teatro e do cinema e permite que sejam as personagens a conduzir o fluxo e o rumo do filme. Ma Rainey é conhecida como “a mãe do blues”, um estilo musical eternamente ligado às origens e cultura da comunidade afro-americana. Um tipo de música que evoca a alma e a liberdade de expressão, rompendo com tudo aquilo que, na altura da sua expansão, definiu uma arte própria e enraizada na expressão vocal do espírito. Estamos em 1927, numa tarde de calor numa Chicago ainda muito polarizada financeiramente, e onde Ma Rainey e a sua banda se deslocam para gravar alguns dos seus singles. Mas, nesta tarde, as tensões descontrolam-se entre a mãe do blues, o seu trompetista ambicioso Levee, o seu agente e a sua banda, originando uma catástrofe sem precedentes.

Ma Rainey's Black Bottom Critica de Cinema

Ma Rainey’s Black Bottom é provavelmente o melhor filme de ficção do ano. Não será para o gosto de todos, obviamente e tem uma exposição muito própria. É um produto que absorve as metodologias teatrais e as encaixa num capítulo fechado, permitindo que sejam os diálogos os grandes impulsionadores de todo o drama que compõe a narrativa. Baseado na peça de August Wilson, que já teve um dos seus trabalhos anteriores adaptados por Denzel Washington e que garantiu a Viola Davis o seu primeiro Óscar, Fences, Ma Rainey’s Black Bottom consegue superar ainda mais onde Fences falhou. A contextualização das personagens neste filme em particular é absolutamente magistral e única; nenhuma é propriamente deixada ao acaso, já que somos levados por diálogos ou monólogos maravilhosos que nos apresentam e expõem as maiores qualidades os mais profundos defeitos dos intervenientes da ação. É um estudo tão genial que sentimos estar próximos delas, mesmo estando do outro lado de um ecrã. Para além disso, Ma Rainey’s Black Bottom tenta articular o tempo de antena com quase todas as que são relevantes e retira o melhor dos seus atores, deixando-os a desfilar e a fazerem aquilo que sabem fazer melhor.

Inquestionavelmente, esta é a melhor prestação da curta carreira de Chadwick Boseman onde ele equilibra um jovem ambicioso, cujas motivações e alegrias giram em torno de fazer a sua própria música, e da destruição do seu ego e da sua personalidade quando este seu objetivo lhe é negado e rejeitado. A catarse de Ma Rainey’s Black Bottom não é propriamente focada no temperamento incontrolável da protagonista, mas sim em como Levee (a personagem de Boseman) não consegue lidar com a indústria não reconhecer o seu talento pessoal. Para além disto, Ma Rainey’s Black Bottom é um filme que utiliza metáforas e pequenos momentos práticos para ilustrar uma sociedade racista e discriminatória, que continua até aos dias de hoje infelizmente. Não é apenas uma celebração étnica, mas é um filme que defende veemente a arte e as dificuldades de ascender e querer sair da sombra. A rivalidade entre Ma Rainey e Levee é tão credível quanto é assustadora, já que vemos dois titãs a ripostarem um com o outro porque se sentem ameaçados pelas suas ambições particulares. Levee é jovem e está na flor da sua idade, é talentoso e tem os seus objetivos bem definidos e basta uns piscares de olhos à namorada de Ma Rainey, Dussie Mae, para despoletar todo um receio da protagonista que vê este jovem como uma ameaça ao estrelato e ao seu coração.

Ma Rainey's Black Bottom Critica de Cinema
Ma Rainey’s Black Bottom (2020): Viola Davis as Ma Rainey. Cr. David Lee / Netflix

O trabalho de câmara de George C. Wolfe é tão interessante que anda sempre a saltitar de personagem em personagem a um ritmo brilhante, auxiliado por uma montagem soberba. É também um conto que não deixa que seja a música a dominar, mas sim a paixão que as personagens sentem pela mesma e a forma como lhes toca. É um exercício vertiginoso de cinema que encontra na sua curta duração, todo um material de estudo que podíamos ficar semanas a discutir. Tem toda uma composição artística fenomenal e duas grandiosas prestações dignas de todos os Óscares e mais alguns de Viola Davis e Chadwick Boseman. É um tributo bonito para um ator que estava a conseguir tornar-se ainda mais influente e profissional e que infelizmente pereceu muito antes do seu tempo. Boseman é um artista inigualável e Ma Rainey’s Black Bottom é a prova disso mesmo. Mesmo que este não seja um filme para os que procuram entretenimento fácil, Ma Rainey’s Black Bottom é, para mim, um clássico instantâneo e um que não segue as normas do cinema convencional; que deixa que sejam as suas personagens a ditar o que se segue e trabalha o quanto a música é importante na vida das mesmas.

Portanto, bem-vinda melhor obra-prima de ficção do ano! E esperemos que as estatuetas lhe chovam porque bem merece!

Ma Rainey's Black Bottom Critica de Cinema

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Título: Ma Rainey: A Mãe do Blues

Título Original: Ma Rainey’s Black Bottom

Realização: George C. Wolfe

Elenco: Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo, Glynn Turman, Michael Potts, Jeremy Shamos, Jonny Coyne, Taylour Paige, Dusan Brown.

Duração: 96 min.

Trailer | Ma Rainey’s Black Bottom

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