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Crítica: Diapason (2019)

Diapason Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE DIAPASON!

A convite do Cine Clube de Avanca, tivemos o privilégio de assistir à primeira exibição nacional do seu grande vencedor Diapason, um filme iraniano de Hamed Tehrani. É um filme dramático intenso, que evoca as emoções mais fortes do espectador, numa história repleta de twists inesperados e uma crítica forte a um sistema judicial fraturado e de regras complexas, para além de ser um conto sobre dor, perda, sofrimento e luta por justiça. Esta é a história de Rana Salehi, uma mãe solteira extremamente intransigente, que vê o amor da sua vida, a sua filha Hoda, perecer aos seus olhos depois de um “acidente” físico que ficou fora de controlo, no dia de aniversário da mesma. A partir daqui, uma destroçada Rana procura encontrar conforto no sistema judicial que lhe deixa com uma decisão difícil em mãos: ou perdoa o dito assassino da sua filha, ou precisa de pagar uma indemnização à família do mesmo por pedir a pena de morte.

Diapason Critica de Cinema

Diapason não é um filme fácil de análise, tanto que as circunstâncias da sua temática têm tanto de bom como de questionável. A verdade é que é um filme que se entranha precisamente por lidar com uma temática delicada e que nos deixa a refletir sobre o que é correto a fazer. A jornada de Rana é tão complexa como a do público em conseguir entender qual será, de facto, o melhor caminho a tomar, para que seja definitivamente feita justiça. O facto de Diapason jogar com todos os peões que tem no tabuleiro ao mesmo tempo, faz com que a nossa perceção esteja constantemente a mudar e isso é uma das suas melhores armas, já que nos deixa perplexos e pensativos com o desenrolar da sua história. Por um lado, temos uma mãe que acabou de perder a sua filha e está com o coração estilhaçado e a agir naturalmente de cabeça quente; por outro, temos a família do dito culpado, que está inteiramente dependente dele para sobreviver, visto que o pai é inválido e a irmã mais nova é ainda uma menor. Merecia ele o perdão pelo dito crime ou merece ser condenado?

O filme acaba por jogar muito bem com esta questão, porque não é propriamente algo que consigamos dar uma resposta impulsiva ou direta. Na verdade, o grande vilão de Diapason é a lei, porque este é um caso que não pode cair em extremos. A morte de Hoda derivou de circunstâncias especiais que não assentam num homicídio premeditado, sendo, claro, algo involuntário, e que não devia estar nos parâmetros sequer a possibilidade da aplicação da pena de morte; mais ridículo ainda é a mãe da vítima ter de pagar à família do assassino (premeditado ou não, não deixa de ser um) uma quantia por não o perdoar e pela sentença estipulada ser a condenação à forca. A forma como o filme trabalha esta questão é magistral e a realização de Tehrani é cativante, apostando nos seus atores, e adiciona algumas características que tornam o tema ainda mais apetecível e envolvente.

Diapason Critica de Cinema

Claro que não é um filme perfeito, já que abusa imenso dos elementos dramáticos para forçar as lágrimas do espectador a todo o custo. E, com isto, refiro-me à extenuante inclusão de consequências e situações novas que vão gradualmente agravando a decisão difícil da protagonista. Há também alguns erros técnicos que refletem alguma carência de orçamento que removem impacto no momento-chave do filme, mas inevitavelmente vamo-nos esquecendo desse aspeto à medida que continuamos a visualizá-lo. Mas, acima de tudo, Diapason cumpre a sua função e é uma viagem pesada sobre o sofrimento duma mãe que quase não pode fazer o seu devido luto e tenta a todo o custo encontrar um rumo definitivo para terminar com a sua dor. Com uma protagonista infalível e determinada, digna de uma nomeação aos Óscares, de nome Zhaleh Sameti, Diapason é um produto que foge dos clichés dos filmes dramáticos convencionais e é corajoso em quebrar tabus no seu país de origem.

Acima de qualquer outro aspeto, Diapason é uma reflexão sobre a vida e do quão cruel ela consegue ser. A história de Rana é uma que desgastaria qualquer pessoa física e emocionalmente, e uma que merece ser vista, ouvida e apreciada pelo seu conceito global de combate a uma lei que não encontra meios-termos na sua aplicação e que é injusta para todos. Se tiverem oportunidade, é um daqueles que recomendo vivamente que vão ver a uma sala de cinema e que se deixem tocar com uma história que é capaz de vos arrepiar e de quebrar o coração em mil e um pedaços. Deixamos aqui um agradecimento ao Cine Clube de Avanca pelo convite e pela oportunidade!

Diapason Critica de Cinema

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Título: Diapasão

Título Original: Diapason

Realização: Hamed Tehrani

Elenco: Zhaleh Sameti, Behnoosh Bakhtiari, Alireza Ostadi, Mehdi Hosseinina, Hossein Tehrani, Iliya Keyvan.

Duração: 90 min.

Trailer | Diapason

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