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Crítica: A Herdade (2019)

A Herdade Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE A HERDADE!!!

O cinema português tem um estatuto diferente do habitual. Isto não significa que não seja capaz de apresentar algumas longas metragens que têm vindo a causar furor entre os fãs cinéfilos – alguns dos filmes mais bem sucedidos, pelo menos durante este século, incluem O Crime do Padre Amaro, A Gaiola Dourada ou Variações – mas a minoria simplesmente não consegue suplantar uma vasta quantidade de filmes que se tornam um exercício mental para aguentar do início ao fim. A Herdade, de Tiago Guedes e com produção de Paulo Branco, é uma das entradas mais recentes do cinema português.

O filme segue a vida de João Fernandes, dono de uma das maiores herdades a nível europeu no sul do Tejo. É um conto geracional, acompanhando João e a gestão da herdade, mais a sua relação com familiares e colaboradores, desde as vésperas do 25 de Abril até aos inícios da década de 90.

A maior parte dos filmes portugueses têm o problema de parecerem “baratos” em comparação com os seus concorrentes a nível europeu. Essa pobre execução torna-se mais aparente quando vemos filmes com um cariz mais de comédia ou ação do que nos dramas, mas as limitações técnicas não deixam de ser aparentes. Felizmente, o esforço de A Herdade é mais do que aparente!

A zona do Alentejo é tida como uma das mais belas a nível nacional, ainda que não seja tão explorado e admirado por mais gente dentro do próprio país. Pois bem, o cinematógrafo de serviço, João Lança Morais conseguiu capturar essa mesma beleza de uma forma exímia, quase ao nível dos melhores. As sequências paisagísticas, que mostram a zona sul do Tejo, é uma das melhores ilustrações do que o cinema português pode fazer quando decide esforçar-se ao máximo possível.

Mas não se restringe apenas às paisagens e espaços cénicos, já que o filme é dotado de sequências de longa duração que surtem o efeito desejado, já para não ilustrar o esforço dos atores presentes de dar continuidade às suas falas sem fraquejar. Um especial apreço para uma luxuosa sequência one shot, que torna a ilustrar que, nas mãos experientes, poderemos encontrar um filme português que valha a pena a ver.

Embora o aspeto técnico mereça todos os largos elogios possíveis, os restantes elementos variam entre o mediano ou o mau. E começando pela longevidade do filme em si. Com uma duração a ultrapassar as 2 horas e 30 minutos, é um dos filmes portugueses mais longos até à data. No entanto, a história que pretende contar não justifica uma duração tão longa como esta. Verdade seja dita, a primeira parte – que engloba o período de transição da era do fascismo para a nova democracia – proporciona um tema de interesse. Em contraste negativo, esse cuidado não se regista na segunda parte (que toma lugar durante os inícios dos anos 90), assumindo-se mais como uma peça melodramática fácil do que conteúdo que valha a pena contar.

A narrativa pode conquistar ou desiludir, e o elenco segue o mesmo rumo, que é medianamente competente, no sentido de não desiludir por completo, mas também não surpreender. Uma das exceções à regra é Albano Jerónimo, que interpreta João Fernandes em toda a película. Quer gostem das suas prestações no pequeno ecrã ou nos palcos, este é um ator que continua a dar cartas, e a sua performance como João Fernandes, o dono de uma herdade que mostra ser um homem de negócios apto e um “bom patrão” para a cara alheia, mas que se revela como um homem cruel para quem o conhece melhor, merece todo o apreço possível.

O terceiro ato pode ser visto como o elo mais fraco do filme num ponto de vista narrativo por causa da mudança repentina de tom, mas esses problemas também se extendem ao aspeto técnico, mais concretamente ao nível da maquilhagem. Digamos que eles não fizeram um trabalho estranho ao tentar envelhecer o elenco e não obter o sucesso desejado.

A Herdade é um filme que ilustra o potencial técnico que o cinema português pode proporcionar ao público. No entanto, há diversos aspetos a nível narrativo e interpretativo que o impede de ser visto como um must see para os fãs deste género de cinema.

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Título: The Domain

Título Original: A Herdade

Realização: Tiago Guedes

Elenco: Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, Miguel Borges, Ana Vilela da Costa, João Vicente

Duração: 166 minutos

Trailer | A Herdade

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