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Crítica: Memoirs of a Geisha (2005)

Memoirs of a Geisha Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE MEMOIRS OF A GEISHA!

Um dos meus livros favoritos e um dos que me conquistou mais a nível pessoal é este Memoirs of a Geisha. Memórias de uma tradição antiga do Japão, onde jovens são vendidas pela sua família para iniciarem um treino intensivo de se tornarem gueixas, acompanhantes de luxo com um conjunto rígido de regras para entreterem e seduzirem os homens mais ricos e trazerem fundo de maneio para a sua okiya. Estas okiyas são casas de treino de gueixas, como uma versão oriental de um bordel. Obviamente que as diferenças são grandes em termos culturais e chamar uma okiya de bordel é quase um insulto, mas, a longo prazo, é provavelmente o termo que mais se aproxima. Conhecemos Chiyo, uma menina com os olhos da cor da água e com um temperamento como o rio que nunca descansa. Tal como todas as gueixas, foi vendida pelo seu pai para se tornar uma maiko, aprendiz de gueixa, e a sua viagem começa aqui, num conjunto de memórias agridoces, onde a tradição impede Chiyo de seguir o amor e tomar as suas próprias decisões de vida.

Memoirs of a Geisha Critica de Cinema

Memoirs of a Geisha é um filme maravilhoso, que capta a essência do livro de Arthur Golden. Apesar de ocultar algumas passagens importantes, é um produto que traz à vida todas as imagens, personagens e ambientes como a minha própria imaginação assim as idealizou. É um conto rico e que contém em si imensos ensinamentos profundos, reforçando a ideia de que somos forçados a ser quem não somos para fazermos parte de uma sociedade que padroniza, rotula e define o nosso futuro. Uma máscara pintada sobre um corpo e um rosto e que esconde sonhos, ambições, sentimentos. A história de uma gueixa é a história de muitos de nós. Um conjunto de tradições, costumes e normas que regem o nosso destino e nos removem a possibilidade de sermos quem somos. Memoirs of a Geisha é um filme belíssimo, com uma capacidade incrível de nos revermos em muitos dos seus aspetos. Somos fascinados pela cultura estrangeira e nunca pensamos devidamente naquilo que a define e na opressão que está nas suas entrelinhas, escondida e refugiada numa boneca graciosa.

É realizado por Rob Marshall, que já vos tinha mencionado em Chicago que é um dos meus realizadores guilty pleasure. E Marshall é mesmo a pessoa talhada para o acontecimento, já que é um cineasta extremamente visual e as suas exigências nesse ramo, tornam Memoirs of a Geisha um dos filmes mais ricos visualmente até aos dias que correm. É um épico cultural extraordinário, que faz com que a imagem nos grave memórias na mente, com uma direção de fotografia infalível, um design de produção e guarda-roupa de uma qualidade perfeita; para além de uma banda-sonora que se tornou numa das minhas favoritas, onde o grande John Williams agracia-nos com temas orientais que puxam todos os sentimentos das personagens, tornando-as realistas e mais ricas aos olhos dos espectadores. O elenco é também extremamente talentoso, com Ziyi Zhang a liderar e Li Gong num papel que a define como uma das melhores atrizes asiáticas de que há memória. Não nos podemos esquecer também de Ken Watanabe (que já nos havia deliciado em The Last Samurai), Michelle Yeoh e Kaori Momoi que interpretam personagens fulcrais ao longo de Memoirs of a Geisha. Todas estas personagens, cujo aspeto formulava na minha mente, ganham vida e são as escolhas mais acertadas, incorporando todas as características visuais que as tornam tão apetecíveis.

Memoirs of a Geisha Critica de Cinema

Há também um aspeto fundamental no filme que, embora precisasse de um pouco mais de polimento, foi, no seu geral, o auge: a rivalidade entre Sayuri (nome gueixa de Chiyo) e Hatsumomo, a gueixa dominante da okiya. Memoirs of a Geisha não é apenas um conto de amor e de tradição; é também uma fábula sobre inveja, talento e identidade. A rivalidade (que no livro é ainda mais explosiva) é originária da privação das gueixas a seguirem a vida como querem, onde o novo colide com o experiente. Hatsumomo é uma profissional que conhece as regras do seu trabalho e está familiarizada com as ameaças que o sangue fresco inevitavelmente lhe traz. Com uns olhos invulgarmente belos, Hatsumomo percebe que Chiyo está destinada a destroná-la desde uma tenra idade; e num mundo onde é preciso tanto de nós, até onde estaríamos dispostos a ir para manter o nosso estatuto? É uma questão que Memoirs of a Geisha trabalha de forma abismal, proporcionando momentos intensos e um drama acutilante que nos prende ao ecrã.

Todo este trabalho cultural e estas mensagens explícitas de sofrimento, perda, luta e o confronto entre vida e tradição, torna Memoirs of a Geisha num filme magnífico e com muita riqueza a absorver. É também um exercício visual que roça a perfeição e que se torna um frenesim para os sentidos. É uma pintura que transpira arte e uma que irá fascinar-vos do início ao fim.

Memoirs of a Geisha Critica de Cinema

Título: Memórias de uma Gueixa

Título Original: Memoirs of a Geisha

Realização: Rob Marshall

Elenco: Suzuka Ohgo, Togo Igawa, Mako, Samantha Futerman, Elizabeth Sung, Thomas Ikeda, Li Gong, Tsai Chin, Kaori Momoi, Zoe Weizenbaum, Karl Yune, Eugenia Yuan, Michelle Yeoh, Kenneth Tsang, Ken Watanabe, Yûki Kudô, Ziyi Zhang, Cary-Hiroyuki Tagawa, Kôji Yakusho, Randall Duk Kim, Takayo Fischer, Ted Levine, Paul Adelstein.

Duração: 145 min.

Trailer | Memoirs of a Geisha

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