Cinema Críticas

Crítica: Mank (2020)

Mank Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE MANK!

Citizen Kane é, para muitos estudiosos do cinema, o melhor filme alguma vez criado. Não é um produto de fácil digestão, já que a sua temática está envolta em metáforas sociais que, para as gerações mais tardias, poderá não fazer muito sentido. Mas é um objeto de culto que exige respeito e que estava muito mais à frente do seu tempo do que inicialmente poderemos pensar. Já lá vão uns anos desde que revi pela última vez este clássico absoluto do cinema. Lembro-me do quanto custou absorver a sua temática prática envolta em ideias abstratas e conceitos político-sociais que não me encaixavam na altura. Percebia que estava perante algo mágico, criativo, irreverente e que não tinha medo de ser uma obra que fugisse do senso comum tão apreciado da altura. Graças a Citizen Kane e à sua equipa, imensos cineastas contemporâneos utilizaram-no como referência para expressar as suas mentes, e para fugir dos clichés mais comuns da arte do cinema.

Mank Critica de Cinema

Mank é um filme que age como os bastidores da tumultuosa conceção deste clássico, onde um Herman J. Mankiewicz instável e alcoólico entra em conflito com os produtores e muitas outras figuras envolvidas no filme, sendo uma delas a estrela e realizador Orson Welles. David Fincher toma uma decisão atípica do seu reportório, num filme que é extraordinariamente complexo e que respeita as suas origens. Tal como Citizen Kane, Mank não é um filme de fácil digestão… e muito porque, quem o vir livremente, não vai percebê-lo sem ter o conhecimento da obra que lhe deu origem. Fincher utiliza uma técnica suprema em tornar Mank um produto que podia ter sido muito bem filmado nos anos 30 ou 40, com um elenco formidável, uma direção de fotografia maravilhosa e uma banda-sonora que é vincada em aproximar-se dessa época icónica do cinema.

Com um Gary Oldman soberbo e todo um restante elenco mais que competente, Mank acaba por fazer justiça às entidades que representa nas suas imagens. Ainda que, numa nota pessoal, pense que Mank carece um pouco de sentimento, há todo um aspeto respeitável nas opções de Fincher. Note-se que a arte performativa dos anos 30 e 40 era extremamente mecanizada (nada como vemos hoje em dia claro) e o filme tem uma capacidade incrível de se aproximar desse registo, recuperando toda uma singularidade própria e genuína. No entanto, Mank foca-se no “atrás das câmaras” e certamente que as personalidades envolvidas eram muito mais humanas do que o que é retratado. Claro que é uma opção criativa que tem as suas consequências… mas isso não enfraquece Mank na sua totalidade, mas notoriamente cria-se uma separação empática entre o espectador e as personagens.

Mank Critica de Cinema

O argumento de Jack Fincher é absolutamente mordaz, com diálogos inteligentes e pragmáticos, um humor subtil e uma dedicação óbvia aos intervenientes que foram estudados ao pormenor. Para além disto, como já mencionei, Mank é prodigioso tecnicamente, tornando uma nostalgia óbvia em algo palpável e que irá tocar a todos os fãs de Citizen Kane que desconheciam a história por trás da produção deste eterno clássico. Portanto, Mank é uma obra singular, um estudo profundo de personagens que estavam muito à frente do seu tempo e que, nos seus próprios devaneios enquanto mentes criativas, deixaram um legado precioso e importantíssimo para o cinema. É mais um exercício magistral de David Fincher que o torna um cineasta de culto que merece todo o mérito e mais algum, não só por este, mas por todo o cinema extraordinário que nos entregou até hoje.

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Título: Mank

Título Original: Mank

Realização: David Fincher

Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey, Arliss Howard, Tuppence Middleton, Monika Gossmann, Joseph Cross, Sam Troughton, Toby Leonard Moore, Tom Burke, Charles Dance.

Duração: 131 min.

Trailer | Mank

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