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Especial: Euphoria – Trouble Don’t Last Always

Euphoria Trouble Don't Last Always

CONTÉM SPOILERS DE EUPHORIA!

Estou praticamente ainda a limpar as lágrimas daquela que, para mim, é já a melhor experiência televisiva do ano. Um episódio de 57 minutos sobre as questões mais importantes sobre ser-se humano, sobre vício, sobre emoções, sobre erros, sobre redenção. Uma aula de psicologia inesperada que acaba por relacionar-se com todos nós, se levarmos a sério os seus ensinamentos. A primeira temporada de Euphoria foi uma das melhores surpresas do ano passado, num registo atípico que se aprofunda constantemente na construção das personagens e nos fazem perceber como a fase da adolescência é complicada em termos psicológicos e que é uma fase fulcral no nosso desenvolvimento. Somos seres que nunca deixamos de nos construir e, por vezes, a vida é injusta ao ponto de nos fazer perder força, seja ela física ou mental, em querer lutar por ela mais um pouco todos os dias. Este especial natalício de Euphoria é, sem sombra de dúvida, o melhor presente de Natal que podia pedir.

Euphoria Trouble Don't Last Always

É um exercício de reflexão onde Rue, agora que vive aparentemente feliz com o amor da sua vida Jules, continua a drogar-se diariamente e encontra-se com o seu guardião Ali num diner durante a véspera de Natal. O episódio é praticamente todo passado nos sofás confortáveis deste diner, numa conversa profunda e sentida sobre o problema das drogas, desabafos que os levaram a cometer determinadas ações menos positivas, as influências que os regem no dia-a-dia, do quanto difícil é encarar a realidade quando não se sentem integrados, qual é o seu papel na sociedade, o que pode ser feito para sair deste estado de decadência e encontrar um rumo positivo e forte para a vida. Tudo isto é apenas um episódio, de 57 minutos, escrito e realizado por Sam Levinson, criador da série.

Temos praticamente Zendaya e o seu colega Colman Domingo a falar sem problemas sobre a vida e o percurso que decidimos seguir com ela. É incrível como me revejo em Rue em tantos aspetos… é tão humano, tão genuíno, tão duro, e ao mesmo tempo, tão sincero. Não é apenas um entendimento ou uma empatia para com a personagem, há toda uma parte de mim que se revê nela, seja por passar por situações semelhantes, seja por ter sentido o mesmo que ela nalgum momento da minha vida, seja por partilharmos experiências que, de alguma forma, tornam o meu envolvimento com a série ainda mais forte. Acima de qualquer outra coisa, Trouble Don’t Last Always é uma obra de arte pura e dura, regida por diálogos que atravessam a mentalidade tacanha e rompem com a superficialidade de vivermos vidas onde não nos expressamos devidamente, onde tentamos esconder o que sentimos, onde temos medo de mostrar a nossa verdade sem ter receio de represálias. Euphoria é, inquestionavelmente, um produto precioso no século XXI.

Euphoria Trouble Don't Last Always

Não consigo fazer deste especial um objeto com classificação. Não dá. Isto é todo um espelho que trabalha a nossa psique, que nos faz refletir sobre quem somos, quem amamos, como encaramos as nossas escolhas, como vivemos a nossa vida, como decidimos mudar perante as adversidades que a vida nos impõe. Trouble Don’t Last Always é um poema sobre a vida. Não apenas de Rue, mas de todos nós. Uma carta sentida de que temos de lutar por nós próprios para procurarmos a felicidade, mesmo que ela pareça longínqua. O ser humano tem muitas facetas e é um animal que se adapta a muitas das circunstâncias para sobreviver às exigências que a vida lhe impinge. Tropeçamos diariamente em problemas e esbarramos com obstáculos; ocultamos quem somos para não sermos ostracizados ou rejeitados; vivemos num mundo em que conversarmos sobre temas profundos é quase um tabu porque vivemos uma vida demasiado focada em agradar a outros que esquecemos de libertar a nossa verdadeira essência. Euphoria é todo um trabalho que age como aquela voz que nos puxa da zona de conforto, que nos faz confrontar os nossos problemas e, quem sabe, pode ser o motivo que nos impulsiona a tomar uma atitude de mudança.

Estou ainda numa euforia, literalmente, de palavras e sinto que estou a divagar porque talvez não me consigo expressar devidamente. Estou ainda num turbilhão gigantesco de emoções perante o que vi e estou literalmente a escrever este texto para ter artigos frescos a sair neste site que é o meu ganha-pão… (e aqui começo eu já a ser honesto graças ao episódio), e ainda não tive tempo de processar tudo o que vi. Talvez terei de o repetir novamente… porque há tanta perfeição nestes diálogos, nesta construção de personagens que cuidam umas das outras sem terem medo ou receio de admitirem que precisam de ajuda; que colocam os sentimentos para fora sem sentirem pânico de serem julgados. Trouble Don’t Last Always é terapêutico, uma obra de arte construída em palavras, cor e conhecimento. Uma viagem que jamais me irei esquecer e com que partilho grande parte de mim.

Euphoria Trouble Don't Last Always

Fico por aqui neste ensaio longo e sentido e que Euphoria vos proporcione uma experiência tão gratificante como esta e não tenham medo de conversarem com alguém sobre os vossos problemas. Por vezes reconhecermos que precisamos de ajuda é o primeiro passo para mudarmos a nossa vida para melhor. Aguardo impacientemente pelo próximo especial…

Guardo agora esta canção e certamente que todos os que irão ver o episódio irão perceber:

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O primeiro especial de Euphoria é uma obra-prima da condição humana e um exercício reflexivo inigualável onde Zendaya mostra o porquê de ter ganho o Emmy nesta última cerimónia. Absolutamente imperdível.

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