Cinema Críticas

Crítica: Black Bear (2020)

Black Bear Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE BLACK BEAR!

A minha mente ainda está a processar a quantidade de perguntas que tenho acerca deste Black Bear de Lawrence Michael Levine. É difícil sequer definir uma sinopse sem contribuir com determinados spoilers. Resumidamente, uma jovem cineasta procura inspiração num retiro nas montanhas, onde o casal que a recebe (e que mora no mesmo local) entra num conflito gigantesco de ataques verbais até que se abate uma catástrofe. Black Bear conta com uma Aubrey Plaza abismal, um Christopher Abbott competente e uma Sarah Gadon surpreendente. É um registo atípico, que viaja pelo processo criativo do cinema indie e de que forma as personagens se relacionam com a arte e a própria vida, já que os choques emocionais e verbais revelam as fragilidades mais puras dos seus intervenientes.

Black Bear Critica de Cinema

Black Bear é tão metafórico, tão filosófico, que se torna numa viagem rica e mirabolante que nos faz estranhar todos os seus momentos. É algo que pretende ilustrar visualmente que “a arte imita a vida e a vida imita a arte”, que é um ditado que costumo usar frequentemente nas minhas críticas quando o cinema atinge o seu auge. Há todo um trabalho argumentativo onde se sentem as referências autobiográficas, para além de ser um drama intenso construído com base em desconfianças e processos criativos que consomem a energia de quem quer contar a sua própria história. Eu próprio tenho dificuldades em colocar em palavras a montanha-russa de Black Bear aqui… e muito porque ainda estou a juntar todos os pontos na minha cabeça.

Com twists abundantes e uma sensação desconfortável de uma tensão incompreendida, é como se fossemos transpostos para uma realidade onde há todo um mundo que nos é desconhecido. Black Bear é composto por três atos, sendo que dois deles estão capitulados, e não será um filme para toda a gente. Ele foge completamente dos clichés habituais e cria situações que não visam entretenimento, nem está preocupado se o espectador o percebe ou não. E isso, a meu ver, torna-o ainda mais intrigante. O meu cérebro está torcido e ao mesmo tempo empenhado em tentar percebê-lo. Aubrey Plaza tem aqui o melhor papel da sua carreira até hoje, num misto simbólico entre o seu estilo de humor negro habitual, e uma veia surpreendente para o drama, sem cair em melodramatismos desnecessários. A personificação do título, Black Bear, é todo um conjunto de emoções e de uma tenebrosa aura que envolve o próprio processo criativo; agindo como um símbolo de entrave e, ao mesmo tempo, que camufla as verdadeiras identidades de quem compõe a sua história.

Black Bear Critica de Cinema
Aubrey Plaza in “Black Bear.”

Para além disso, é um filme que engloba muitos géneros dentro de si, e a abertura com Plaza centrada num cais vazio e apenas com o lago à sua frente, revela todo um pesar pensativo e interpretativo. O espectador não sabe propriamente o que se avizinha e certamente que, após o primeiro ato, irá rapidamente tirar o “cavalinho da chuva” de estar a ver algo que é aparentemente linear. De todo… e nesta inversão drástica de cenário e papéis dos intervenientes, Black Bear floresce até atingir a plenitude no seu último e surpreendente ato. É um filme que leva o espectador a decidir o que acabou de ver. Um trabalho introspetivo que abarca um conhecimento inigualável, não só de como fazer um filme, como também de explorar as relações humanas que estão à frente e atrás das câmaras. Black Bear é um dos filmes mais desafiantes de que tenho memória, num jogo mental único e invulgar e que nos força instintivamente a questionar-nos sobre o mesmo.

Isto é arte pura e dura e, mesmo que algumas situações pudessem ser melhor exploradas, é um filme que recomendo vivamente a todos os que gostam de cinema, de mindfucks e que, posteriormente, tenham prazer em tecer as suas próprias teorias. Para mim, Black Bear é um passo gigantesco para o cinema indie e um que projeta a carreira muito promissora, quer deste realizador que até agora desconhecia, quer deste trio de atores fenomenais que estão, claramente, em ascensão. E, se decidirem aceitar o desafio do mesmo, captem os simbolismos e as muitas metáforas magníficas que o filme tem para oferecer.

Black Bear Critica de Cinema

Leiam outras Críticas aqui.

Título: Urso Negro

Título Original: Black Bear

Realização: Lawrence Michael Levine

Elenco: Aubrey Plaza, Christopher Abbott, Sarah Gadon, Lindsay Burdge, Alexander Koch.

Duração: 105 min.

Trailer | Black Bear

Comments