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Crítica: The Passion of the Christ (2004)

The Passion of the Christ Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE THE PASSION OF THE CHRIST!

Antes de iniciar esta crítica, quero deixar bem claro que não sou uma pessoa religiosa, de todo. Respeito quem seja e não questiono que tipo de fé as pessoas preferem seguir. Todos são livres de seguirem aquele caminho que preferem e acreditarem naquilo que lhes confere mais esperança. Sou meramente um cinéfilo, que aprecia aquilo que as artes audiovisuais nos trazem, nas visões que nos contam histórias e ilustram vidas que nos tocam de diversas formas. The Passion of the Christ é um dos filmes mais controversos da História e é percetível o porquê; seja nas divergências com a alegada história patente nas páginas da Bíblia, ou pelas quantidades desmesuradas de sangue e violência que são retratados nas suas imagens. É um filme que não é de fácil digestão; que se entranha facilmente na nossa carne e fere todas as nossas suscetibilidades.

The Passion of the Christ Critica de Cinema

Acompanhamos as últimas doze horas da vida de Jesus da Nazaré, quando é condenado por heresia e condenação a tortura e à posterior crucificação. Satanás regozija-se nos bastidores, serpenteando por uma multidão sequiosa por ver sofrimento, dor, medo e sangue diante dos seus olhos. Enquanto isso, Maria e Madalena choram a morte do seu filho e profeta, numa última caminhada até à sua inevitável e dolorosa morte. Pela mão de Mel Gibson, The Passion of the Christ é uma poesia cinematográfica que tortura os olhos e a alma, quer se seja crente ou não crente. É uma passagem difícil, como uma reflexão sobre a morte em câmara lenta. A verdade é que, pelo menos, quer seja a fé, The Passion of the Christ revela algo intrínseco da História da Humanidade: preferimos torturar o que não compreendemos, celebramos a morte de outrem por meras superstições ou receios, divertimo-nos com o sofrimento dos outros e somos corruptíveis aos pecados mais banais. Se os ensinamentos primários da Bíblia são estes, então existem muitos crentes que não os seguem… e, mesmo que não queira enveredar por estes caminhos que certamente irão gerar controvérsia, é notório o sofrimento que Gibson quer que nos fique gravado na memória.

Com uma produção magnífica e simbolismos deliciosos, The Passion of the Christ é uma obra que se distancia de muitos dos filmes, até então, feitos em torno da morte do Messias. Tem toda uma realização diversificada, uma direção de fotografia fantástica, uma banda-sonora impetuosa, cenários pormenorizados e um guarda-roupa muito competente. Embora pudesse incluir mais alguns elementos para que o espectador (mais uma vez, crente ou não crente) criasse uma maior empatia com a dor das personagens, ficando mais contextualizado e conseguisse criar um maior relacionamento com os eventos que são ilustrados. Mas toda a carnificina e a tortura que é retratada é absolutamente essencial. O choque, o desviar dos olhos, a personificação visual de páginas e páginas de um livro considerado sagrado que nos faz inevitavelmente cair num desespero de humildade. Os flashbacks também ajudam a dar uma camada mais significativa à personagem principal e a inclusão de Satanás sob a forma de Rosalinda Celentano é uma golpada de mestre.

The Passion of the Christ Critica de Cinema

 

Esta dicotomia do Bem e do Mal, da vanglória de uma entidade perante a ruína de outra, a sedução para cometer o pecado, a metaforização do que nos separa uns dos outros e dos nossos valores e atitudes. The Passion of the Christ é inegavelmente uma obra de contemplação controversa que nunca irá agradar a todos, muito menos irá ser respeitada por futuras gerações. É um trabalho que, mesmo não sendo perfeito, tem horas de dedicação minuciosas e que nos trazem algo que mexe intrinsecamente connosco, independentemente das nossas crenças. É por isso que, mesmo não acreditando, não deixo de sentir uma aproximação sentimental a esta película de Mel Gibson, que é tão genuína quanto é poderosa em significados. Jim Caviezel está maravilhoso, naquele que será sempre o papel mais importante da sua carreira, para além de Maia Morgenstern e Monica Bellucci conquistarem, ainda que necessitassem de um desenvolvimento maior para partilharmos mais da sua dor. Para além disto, há uma preocupação técnica impressionante de Gibson em que o filme seja totalmente falado em aramaico e latim, para tornar a experiência ainda mais próxima do seu tempo.

Portanto, este Natal celebra-se o nascimento deste Messias tão importante da nossa História e nunca é demais, para quem é crente, de ter uma recriação visual do maior sacrifício que este mesmo fez pela Humanidade e pelos valores mais puros que, mesmo parecendo muito distantes, continuam a imperar numa sociedade que cisma em não se querer compreender e continua a perseguir e a torturar aqueles que, na sua minoria, representam receios ideológicos que, sem sombra de dúvida, não é a religião que dita e ordena.

The Passion of the Christ Critica de Cinema

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Título: A Paixão de Cristo

Título Original: The Passion of the Christ

Realização: Mel Gibson

Elenco: Jim Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Bellucci, Christo Jivkov, Francesco De Vito, Mattia Sbragia, Toni Bertorelli, Luca Lionello, Hristo Shopov, Claudia Gerini, Fabio Sartor, Rosalinda Celentano.

Duração: 126 min.

Trailer | The Passion of the Christ

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