Cinema Críticas

Crítica: Godzilla (1998)

Godzilla Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE GODZILLA!

O maior monstro do planeta nunca teve propriamente uma boa fama no cinema, muito menos nas suas adaptações norte-americanas. Ainda que o filme de 2014 tenha recuperado alguma esperança, em Godzilla: King of the Monsters o cenário acabou por piorar mais uma vez. Resta saber como se irá safar contra King Kong no próximo filme… Mas tudo começou em 1998 quando o realizador de blockbusters Roland Emmerich decidiu trazer a iguana gigante para o grande ecrã. O Dr. Nick Tatopoulos está a estudar o impacto da radioatividade nas minhocas de Chernobil quando é surpreendido pelas forças militares do seu país que necessitam da sua ajuda para estudar um animal gigantesco que começou a aterrorizar as embarcações piscatórias por todo o mundo. No entanto, parece que Nick não tem muito que procurar, já que o monstro chega a Nova Iorque e instala o caos.

Godzilla Critica de Cinema

Imaginem-se um garoto de oito anos a ir ao cinema ver o seu primeiro filme de grande escala e de ficar totalmente deslumbrado com efeitos especiais que, na altura, eram dos melhores existentes à face do planeta. É uma sensação única que todos nós passamos quando estamos numa idade ainda muito tenra. Não temos perceção quase se o filme é bom ou mau, mas que Godzilla é assustador, lá disso não temos dúvidas. Agora, em 2020, que o revejo passado tantos anos, mal eu esperava pela desilusão que nunca quis propriamente aceitar. Como um fã incondicional de monster movies, Godzilla foi sempre o meu favorito. Tanto que defendia este filme de Emmerich com unhas e dentes sem o rever agora que estou formado em crítica de cinema e televisão. A verdade é que este Godzilla de 1998 é uma autêntica palhaçada… uma desilusão tremenda e que, de alguma forma, me revolta…

As personagens são totalmente unidimensionais, muitas delas caem num ridículo que quase apetece entrar no ecrã e esbofeteá-las violentamente. É também um filme que não se preocupa minimamente em contextualizar devidamente o monstro mais famoso do mundo e confere-lhe um caráter maligno, afastando-se da génese primária que o cinema japonês lhe conferiu. Mas há algo dentro de mim que me faz ainda torcer um pouco por ele de alguma forma… ao fazer uma análise agora mais sensata e ponderada, Godzilla é um produto que, no fundo, até tem algumas coisinhas para nos ensinar, ainda que não tenha, de todo, a melhor das execuções.

Godzilla Critica de Cinema

A reação do filme de Emmerich, ao contrário dos que se seguiram anos mais tarde, é a de pânico total por parte do ser humano. Há todo um descarrilar de como lidar com a situação, sendo que o método mais simples é: vamos matar esta coisa! A nossa espécie, que foi sempre a do topo da cadeia alimentar e que subjuga todas as outras à sua vontade, não sabe reagir perante aquilo que não conhece. O desconhecido é inquestionavelmente o nosso maior medo. No filme, Godzilla não começa por ser um animal violento, mas é curioso e procura um refúgio onde pode fazer um ninho e assegurar a sua próxima geração. Nova Iorque não é a escolha certa, caro amigo… mas para o espetáculo de cinema chega e sobra! E não é novidade nenhuma, já que esta é a cidade mais “arrasada” pelo cinema de ficção científica até aos dias que correm. Há um fascínio e uma atração atípica do cinema em fazê-lo… e esta insistência permaneceu e agora é quase matéria para piadas. Mas avançando… reproduzindo-se assexualmente, há muito de fascinante neste ser novo e que foi criado com base nas mutações genéticas derivadas das experiências nucleares feitas por… tchan tchan… suas excelências, seres humanos!

Mesmo que o filme seja parolo em praticamente tudo, esta ideia de que passamos logo para a morte de algo que, para além de criarmos, nem chegamos a tentar entender, acaba por o elevar ligeiramente; realçando a ideia de que estamos a invadir o mundo como uma praga e não damos espaço suficiente para outras espécies poderem viver livremente. E vamos ser humildes aqui e afirmar que “o tamanho não importa”… Ironias à parte, Godzilla tem também o melhor design da iguana gigante até à data, com um andar elegante, um rugido supremo e um corpo possante. Ao contrário do filme de 2014, este Godzilla tem um mar bem mais aprazível enquanto monstro, e características que acabam por o tornar um pouco mais genuíno ao lado animal, especialmente o instintivo. Mas… todo o resto? Todo o resto é uma treta pegada sem tirar nem pôr…

Godzilla Critica de Cinema

É um filme podre na sua essência que só quer fornecer espetáculo visual (que não irá conquistar quem lhe der uma oportunidade agora na Netflix) do que respeitar as suas próprias origens. Claro que vou ser um pouco tendencioso, porque não deixa de ser um guilty pleasure e um clássico que recordo com carinho apesar de todas as frustrações que causa. E esta é a confirmação que o maior monstro do cinema precisa de cair nas mãos certas para ter um produto que lhe faça justiça. E não me parece que esta tentativa de universo cinematográfico de monstros vá conseguir… mas vamos tirar essas conclusões quando Godzilla vs. Kong estrear nos cinemas.

Até lá, deixo aqui este pequeno tributo à minha versão de 8 anos que se sentou na sala do cinema e quase que fazia xixi pelas cuecas quando ouviu pela primeira vez o rugido mais possante do cinema até aos dias de hoje.

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Título: Godzilla

Título Original: Godzilla

Realização: Roland Emmerich

Elenco: Matthew Broderick, Jean Reno, Maria Pitillo, Hank Azaria, Kevin Dunn, Michael Lerner, Harry Shearer.

Duração: 138 min.

Trailer | Godzilla

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