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Crítica: Crazy, Not Insane (2020)

Crazy Not Insane Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE CRAZY, NOT INSANE!

Desde que vos escrevi de I’ll Be Gone in the Dark, deixei bem claro o meu fascínio e a minha adoração por documentários true crime. Um dos percursos profissionais que mais gostava de ter seguido era psicologia criminal e entender o que despoleta esta necessidade ou sede de um ser humano tirar a vida a outro ou de infligir tanta dor física e/ou psicológica noutro membro da mesma espécie. Esta é a matéria com que a Drª Dorothy Lewis trabalhou durante anos a fio, ao estudar inúmeros casos de serial killers e os problemas que funcionaram como gatilho no cérebro para os levar a cometer alguns dos crimes mais horrendos dos EUA. Dorothy esteve com Ted Bundy e tantos outros assassinos e lutou sempre por desvendar os mistérios da sua mente.

Crazy Not Insane Critica de Cinema

Crazy, Not Insane é um documentário infalível e extraordinário. É todo um estudo, não só de caráter humano, como o da procura incessante por respostas credíveis e palpáveis para entendermos de que forma trabalha a mente de alguém que é responsável por tirar a vida, da forma mais grotesca possível, a outro ser humano. É um trabalho de arquivo incrível, para além de uma presença sólida e confiante da pessoa que é objeto do documentário. Não só é Dorothy uma defensora da abolição da pena de morte, como é uma crente na doença da múltipla personalidade; algo que vai contra totalmente aos valores do sistema judicial norte-americano. Para que não hajam más interpretações, Dorothy não descredibiliza a violência dos crimes e não é contra uma condenação apropriada para alguém que não merece a liberdade; no entanto, é uma estudiosa que procura desvendar os mistérios da psique humana e dos antecedentes que podem ser responsáveis pelas psicopatias e comportamentos violentos destes indivíduos. É inegável que, de alguma forma, estudos como estes possam ajudar mais tarde a capturar com maior rapidez inúmeros homicidas e há que ter algum fundo científico para que isto seja possível.

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Mas Dorothy tem plena consciência de que, a nível público e social, os seus métodos irão ser sempre contestáveis comparativamente à dor e ao sofrimento quer das vítimas, quer dos familiares das mesmas. A justiça e a ciência nem sempre andam, de facto, de mãos dadas. Mas a verdade é que Dorothy é uma pioneira carismática de algo que, até agora, poucos registos documentais conseguiram transpor com tanta clareza. O que despoleta estes surtos de violência física? É possível que eu ou qualquer um dos leitores sejam assassinos? Terá a sociopatia um papel fulcral no desenvolvimento mais tardio de uma psicopatia? Porque criam os assassinos em série padrões de matança? Existirão antecedentes que provocam a múltipla personalidade?

Longe de qualquer retrato de ficção, há imensos documentários sobre esta temática que nunca são totalmente aprofundados e são muito mais expositivos que justificativos, como o caso de Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes, há outros mais criativos e que nos colocam frente a frente com o criminoso como a produção da Netflix extremamente subvalorizada I Am a Killer, e há outros que apelam ao nosso sentimento mais puro e mais doloroso como Dear Zachary: A Letter to a Son About His Father. Podem consultar aqui uma lista gigantesca para se consolarem se forem fãs, tal como eu, de true crime. Todos eles lidam com as circunstâncias do objeto que têm em mãos e entregam ao seu público informações, emoções e factos. Mas poucos vão a fundo para perceberem os seus “vilões”.

Crazy, Not Insane é uma produção ousada, completa e que vai amadurecendo como obra à medida que avança, expondo todo um estudo que acaba por ser extremamente relevante e que pode futuramente auxiliar as forças policiais e a terminar com injustiças judiciais. Crazy, Not Insane é um produto de arte magnífico de Alex Gibney e um que torna Dorothy Lewis numa nova ídola pessoal para mim. Recomendo vivamente este extraordinário documentário e à reflexão importante que ele nos traz porque, tal como diz a própria psiquiatra: Murderers are made, not born.

Crazy Not Insane Critica de Cinema

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Título: Louco, Não Insano

Título Original: Crazy, Not Insane

Realização: Alex Gibney

Duração: 117 min.

Trailer | Crazy, Not Insane

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