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Crítica: Monsoon (2019)

Monsoon Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE MONSOON!!!

Todos nós temos uma história para contar. Sobre as nossas vivências, sobre o nosso passado, a nossa cultura. Não se pode negar que as histórias mais palpitantes são as histórias de emigrantes e imigrantes, as razões pelas quais eles tomaram a difícil decisão de abandonar o país onde nasceram. É esse tipo de história que Monsoon nos pretende contar.

Kit é um jovem britânico vietnamita que, após a morte da sua mãe, decide largar a sua vida para voltar ao Vietname, o país onde passou parte da sua infância e que abandonou com a sua família no rescaldo da Guerra do Vietname.

Se se sentem perdidos ao testemunhar Monsoon, não se preocupem; esta é a verdadeira intenção do realizador Hong Khaou (sendo este o seu segundo filme como realizador). Baseando-se nas suas próprias experiências como refugiado da Cambodja, este filme não se trata apenas de uma demonstração das suas próprias experiências, mas também o que os emigrantes e imigrantes enfrentam quando regressam ao seu lar.

Através dos olhos de Kit, nós, como audiência, captamos a sensação de servos verdadeiros estranhos numa terra estranha. Com a ação a desenrolar entre Saigão e Hanói, testemunhamos um Vietname ainda a recuperar do rescaldo da guerra, mas que tenta o melhor para se sentir mais moderno, mais aberto, ainda que tenha de enfrentar inevitáveis mudanças para atingir esse fim, ao ponto de se tornar quase irreconhecível.

É esta sensação de alienação que assola a alma de Kit, numa performance fora do habitual por parte de Henry Golding. O ator pode ter embarcado em outros papéis nos mais variados géneros após a sua estreia no filme Crazy Rich Asians, mas Monsoon mostra-nos o ator numa posição mais subtil, deixando transparecer o que tem na sua mente através das suas ações subtis ou nos longos momentos de silêncio que populam o filme com bastante frequência.

Mas Golding não se encontra sozinho nesta demanda, com as várias interações do filme a servirem como um “passo para a frente” na sua demanda de auto-ajuda. David Tran e Molly Harris estão um pouco limitados no que refere ao tempo de antena a eles concedidos, mas ajudam a espelhar os dois lados do Vietname a Kit (e a nós, por ligação); Lee (Tran) representa o Vietname de outrora, preso numa época bastante complicada do país, ao passe que Linh (Harris) mostra a vontade de seguir em frente, de se abranger para além das tradições. É uma dicotomia que, embora não explorada no seu todo, não deixa de ser interessante.

Ao mesmo tempo, Monsoon estabele uma potencial relação amorosa entre Kit e Lewis, um afro-americano que traz também consigo um passado carregado pela guerra. Este aspeto tem direito a algum tempo de tempo, mostrando também um subtexto poderoso sobre os efeitos da guerra não só nos seus intervenientes, mas também nas gerações seguintes. É uma performance subtil que Parker Sawyer consegue vender com convicção para dar e vender.

Monsoon não era o que estava à espera. Ainda que não tenha exatamente um ritmo acelerado para o gosto de todos, serve de convite para apreciarmos a viagem ao Vietname e dar-nos a conhecer, através de um protagonista perdido, um país ainda a recuperar. Ainda que não suplante o seu filme de estreia, torna-se mais do que evidente o esforço e cuidado de Hong Khaou nesta obra.

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Título: Monsoon

Realização: Hong Khaou

Elenco: Henry Golding, Parker Sawyer, David Tran, Molly Harris

Duração: 85 minutos

Trailer | Monsoon

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