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Crítica: Kajillionaire (2020)

Kajillionaire Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE KAJILLIONAIRE!!!

Por detrás de uma premissa simples, qualquer filme poderá desenrolar-se por vias nunca antes imaginadas, e por vezes essa desorientação acaba por trazer frutos inesperados (isto num sentido positivo, claro). É o que se pode aplicar ao mais recente filme da realizadora-guionista Miranda July, Kajillionaire.

Old Dolio sempre cresceu a auxiliar os seus pais nas várias tramóias para encontrar dinheiro fácil e esquivar de outras possibilidade. Esta dinâmica acaba por ser alterada quando dão as boas vindas a Melanie, uma porto-riquenha que conhecem no curso de um dos seus esquemas.

Kajillionaire será um daqueles filmes que certamente irá contra as expectativas pré-concebidas. Sim, temos uma família de vigaristas no centro das atenções mas, graças aos esforços de July na realização e no seu toque no guião, acaba por ir mais longe. Sim, o ritmo pode parecer lento, o que poderá testar a paciência a muita gente; dito isto, é como uma long con que nos prega, recompensando-nos com o que o filme realmente nos deseja mostrar.

E isso provém da sua crítica perante as famílias tóxicas. Sendo a audiência como o “ponto de mira”, é fácil de reconhecer que os Dynes estão longe de ser a família perfeita, embrenhada em pequenos desfalques em busca de dinheiro fácil com o menor esforço possível, ao ponto de arrastar Old Dolio somente para esses esquemas e nada mais. Nada de carinho. Nada de afeto. Nada senão o próximo golpe. Por mais horrível que possa parecer, isto espelha também as famílias tóxicas deste lado do ecrã, e de como as ações podem moldar uma criança num sentido mais negativo. E é esse o desafio que Kajillionaire nos apresenta: ficaremos a favor da maré negativa, ou teremos a coragem de trilhar o nosso próprio caminho.

E esse dilema é espelhado por Old Dolio, interpretada por Evan Rachel Wood. A atriz já deu provas do que é capaz com o material que tem nas suas mãos (leia-se: vejam Westworld), mas aqui, e embora seja reconhecível, existe algo no seu guarda-roupa, nos seus maneirismos e na sua escolha de voz que nos deixa chocados, quase horrorizados. É só a partir do terceiro ato do filme que a personagem começa a trilhar a sua jornada, a ligar-se às pessoas à sua volta e, finalmente, ligar-se aos sentimentos que estiveram suprimidos. É toda uma coletânea de mini-momentos que ganham enorme relevância, mesmo após o rolar dos créditos.

Wood não está sozinha, uma vez que encontra em Gina Rodriguez a sua parceira nesta jornada de auto-descoberta. Embora não seja uma performance tão profunda como a de Wood, Rodriguez torna a dar-nos amplas razões para acompanharmos a sua carreira pós-Jane The Virgin, mostrando uma clara energia positiva, mas não menos repleta de complexidades para devorarmos do princípio ao fim. Richard Jenkins e Debra Winger também não se saem tão mal, mas o filme pertence claramente a Wood e Rodriguez.

Com uma premissa simples, Kajillionaire esconde uma mensagem profunda sobre famílias tóxicas e de como os nossos atos egoístas acabam por influenciar as pessoas à nossa volta. Possui uma importância atual que não deve ser ignorada, acima de tudo. E ter atrizes talentosas como Evan Rachel Wood e Gina Rodriguez em papéis de maior relevo é sempre um ponto extra.

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Título: Kajillionaire

Realização: Miranda July

Elenco: Evan Rachel Wood, Gina Rodriguez, Richard Jenkins, Debra Winger

Duração: 104 minutos

Trailer | Kajillionaire

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