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Crítica: Life in the Doghouse (2018)

Life in the Doghouse Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE LIFE IN THE DOGHOUSE!

Quando me deparo com obras que espelham uma das realidades por que passo ou passei, é sinal de que “a arte imita a vida” e a “vida imita a arte”. Durante alguns anos, fui voluntário no Canil Municipal de Aveiro e da Associação ResGato, em Oliveira de Azeméis. Dois voluntariados distintos, mas que são, por demais, importantes nos dias que correm. Quer a nível nacional, ou a internacional, o abandono e maus tratos animais são alguns dos aspetos que mais me revoltam enquanto ser humano. Resgatar, conviver, dar amor, dar um abrigo seguro, comida e água, é tudo o que um animal precisa para ser feliz. Em troca, nós recebemos um novo membro das nossas vidas que é mais puro do que qualquer outra pessoa que iremos conhecer e incluir nas nossas vivências.

Life in the Doghouse Critica de Cinema

Bem-vindos a casa de Danny e Ron, um casal que acolheu já 11.000 cães retirados de canis (onde iriam ser eutanasiados), ruas, puppy mills, entre outros. O seu dia a dia começa às 6:30 da madrugada e inicia-se uma luta frenética para alimentar, resgatar, acarinhar e tratar de mais de 70 companheiros de quatro patas. É um santuário mágico para qualquer amante de cães e que, tal como todos os outros, necessita de apoio a uma escala gigantesca. Ao rever a minha vida enquanto voluntário, Life in the Doghouse é uma obra-prima no seu todo. Já há muito que procurava um filme que retratasse todas as dificuldades, alegrias, tristezas e dedicação que vivi durante os anos e meses por que passei ao ser voluntário.

A vida é cruel para não conseguirmos dar um pouco mais de tempo para podermos continuar com uma atividade que é tão recompensadora quanto é difícil de executar. É tão difícil gerirmos o nosso tempo pessoal e profissional para podermos entregar um pouquinho de nós aos animais que mais precisam… e, infelizmente, só temos duas mãos e duas pernas e não há hipótese de socorrer todos os animais domésticos do planeta que necessitam. Ao longo de Life in the Doghouse, consegui deparar-me com situações pelas quais me identifiquei… desde a complicada e emocional decisão de eutanásia quando um animal está em sofrimento crónico, passando pelo treino e domesticação daqueles que chegam traumatizados, seja pela vida na rua, ou por influência e crueldade humanas, para além da incansável, destrutiva e desesperante busca por financiamento. Tratamentos veterinários que chegam a contas exorbitantes, donativos escassos que não chegam para dar uma vida estável a um animal, falta de tempo e falta de monetização de pessoal que trabalha incansavelmente para proporcionar as melhores condições possíveis, exaustão física e emocional, e todas as restantes circunstâncias menos boas que estão adjacentes a todo este trabalho… todas elas têm um peso tremendo nas vidas de quem se dedica à defesa e proteção de animais domésticos e que, todos os dias, tentam ir contra um sistema que continua a não dar importância à necessidade de esterilização e castração de animais por todo o globo. A recompensa deste voluntariado é algo magnífico, já que nós recebemos o carinho deles que nos tornam mais humildes, depois de sabermos pelo que passaram ao longo das suas vidas; para além da emoção que é sabermos que vão ser amados em casa de donos excecionais.

Life in the Doghouse Critica de Cinema

Um animal não deve ser escolhido pela sua raça, mas sim pelo amor incondicional que irá proporcionar ao seu adotante. Não consigo, em todos os anos e meses que vivi em torno destes amorosos seres de quatro patas, entender a necessidade de um cão ou gato esteticamente mais aprazível porque, todos eles, na verdade têm sempre o mesmo amor para dar e, independentemente de ser grande ou pequeno, branco ou preto, este amor é único, puro e desprovido de más intenções. As dificuldades de Danny e Ron no processo de adoção são vividas em todos os abrigos e santuários… é tão bom e tão cruel ao mesmo tempo que a realidade espelhada num filme se aproxime tanto da minha própria realidade. Terminar com as lojas de animais, fechar as puppy mills (que são literalmente quintas onde os cães estão “encaixotados” em jaulas pequenas e sem possibilidade de movimento, sem condições de higienização algumas, e estão malnutridos e desidratados e cuja função se limita a produzirem cachorrinhos adoráveis para venda), acabar com a necessidade desalmada de abate só porque os abrigos estão cheios, e por aí fora, são medidas obrigatórias para que os animais consigam arranjar um lar que os ame e que os trate bem. O método mais simples e para evitar matilhas ou colónias de animais abandonados é precisamente a castração e esterilização. Deixam de ser produzidas tantas ninhadas e a população de animais acaba por se ir reduzindo e controlando ao longo do tempo.

Life in the Doghouse é uma pérola preciosa para quem não conhece esta realidade. É um documentário genuíno, extraordinário e que ilustra com clareza todas as dificuldades que as associações de proteção animal passam. É também um apelo direto à mudança de consciência e à intervenção para que seja mudado o sistema de controlo de populações. É difícil esconder a lágrima quando me revejo em tantas situações… decisões difíceis que tive de tomar em prol do bem estar animal… todo o cansaço, esforço, dedicação e, de certa forma, saudade de fazer novos amigos de quatro patas que, mais do que qualquer ser humano, não julgam, não querem saber dos nossos defeitos, e só nos olham como objeto do seu amor.

Life in the Doghouse marcou o meu coração e é um documentário que vos retrata tudo com o máximo de minúcia para que entendam a urgência de ajudar quem mais precisa. O mundo é feito de tanta crueldade, mas também é guiado pela esperança de que, um dia, tudo irá melhorar. Este domingo, não procurem mais nenhum filme de ficção para verem… basta irem à Netflix e derreterem-se com Life in the Doghouse. Desculpem os desabafos, mas quando o cinema me toca desta forma, é sinal de que é arte. E eu emociono-me com ela…

Life in the Doghouse Critica de Cinema

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Título: Um Santuário para Cães

Título Original: Life in the Doghouse

Realização: Ron Davis

Duração: 84 min.

Trailer | Life in the Doghouse

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