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Crítica: Hamilton (2020)

Hamilton Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE HAMILTON!!!

Confesso que nunca fui um grande apreciador de musicais, muito porque a maioria dos musicais que vemos tendem a obedecer a duas fórmulas: uma parte em diálogo normal que depois irrompe em números musicais ou musicais que são compostos, praticamente, por músicas atrás de musicas. Simplesmente, não encontrei “aquele” musical que conseguisse apreciar na sua totalidade. Posto isto, estava, no mínimo, curioso quando Hamilton: An American Musical chegou ao mundo. Não só obteve uma receção pelos fãs do género e de críticos da especialidade, como também lançou Lin-Manuel Miranda para as luzes da ribalta. Não era segredo que o musical teria direito a uma adaptação, mas com a pandemia que o mundo está a atravessar atualmente, a Disney encontrou uma solução fora do habitual: uma versão filmada do musical que chegou à Disney+ esta semana. E posso dizer que fiquei absolutamente rendido!

Filmado em Junho de 2016 em plena Richard Rodgers Theatre, em Nova Iorque, Hamilton segue a vida de Alexander Hamilton, um imigrante que se vê envolvido na Revolução pela independência dos Estados Unidos da América, até aos seus últimos momentos de vida.

Sendo um residente em Portugal Continental, era bastante improvável que viesse ter a oportunidade de poder experienciar o que Hamilton: An American Musical proporcionou nos Estados Unidos, não só por causa da situação atual em volta do Covid-19, mas também pela ausência de confirmações para tours internacionais (corrijam-me se estiver errado, mas os espetáculos da Broadway também fazem isso, certo?). Portanto, ver Hamilton numa versão mais cinematográfica is enough (trocadilho mais do que intencional, tenho de confessar).

Trazer um espetáculo ao vivo para uma tela no conforto do lar pode ser um feito quase impossível de concretizar, mas é um feito que o realizador Thomas Kail (que possui experiência nos live musicals recentes nos Estados Unidos) consegue cumprir na perfeição. Pode não capturar a essência de ver um musical num palco, mas troca o que poderia um plano estático durante mais de duas horas e meia com vários planos de fotografia que realçam o impacto das cenas que estamos a presenciar. É um dos poucos casos em que uma filmagem de um espetáculo ao vivo consegue suplementar a magia que esse mesmo pretende transmitir ao público. Claro que existem algumas ocasiões em que o filme sofre mudanças não intencionais, especialmente no que refere ao palavreado mais forte (Hamilton é distribuído pela Disney+, no fim de contas), mas em nada influenciam o que estamos a ver.

Chega de falar sobre a “conversão” de espetáculo ao vivo para filme e passemos ao que mais interessa: o espetáculo em si. Juro, de mãos juntas, que Hamilton decerto estabeleceu-se como a nova norma dos musicais. Vermos uma história de uma figura histórica dos Estados Unidos que muita gente pode não conhecer ou lembrar não é exatamente material conveniente para um espetáculo; dito isto, só posso elogiar os esforços da equipa de produção ao transformar o livro numa peça musical. Mais elogios ainda para Lin-Manuel Miranda, que se encarregou em criar uma banda-sonora que contam a história e possuem toques inesquecíveis e que nos fazem abanar o corpo de forma involuntária, como se estivéssemos diretamente na plateia.

Tal como se esperava de uma produção do calibre da Broadway, Hamilton mostra valores de produção impressionantes. E não há melhores exemplos disso mesmo do que pelo guarda-roupa impecável, os cenários em constante mudança ou a coreografia extravagante (e por vezes arriscada, se formos a acreditar na sequência “Rewind“), este musical não olhou a meios para nos proporcionar um espetáculo cativante em todos os níveis.

Em termos de músicas, Hamilton é um daqueles casos que junta “uma história clássica” com “toques modernos”. A mensagem está lá, mas é presenteada com sons musicais mais ligados aos tempos modernos. Hip hop, Rap ou R&B são os géneros mais predominantes nesta peça, ainda que tenhamos outros géneros pela mistura, tais como o método clássico dos musicais ou uma ou duas sessões de beatbox. É um musical diferente do que tínhamos visto, e possui um catálogo diferente para o comprovar.

Tal como tinha mencionado anteriormente, Hamilton mostra-nos a vida de Alexander Hamilton, um imigrante que acaba por ser uma das maiores influências na história dos Estados Unidos como um dos Pais Fundadores. Não só nos proporciona uma aula de História alternativa, mas ganha uma maior relevância quando tivermos a situação dos imigrantes em conta. E não só vemos essa perspetiva na história em si, já que o elenco é composto por um leque de etnias diversificadas em papéis tipicamente ligados aos white men. É uma tática que nos lembra que, através de talento e perseverança, não importa a cor da pele. É uma tática que ainda hoje continua a somar pontos (The Personal History of David Copperfield é um dos casos mais recentes desta tática).

Em 2016 e anos posteriores, Lin-Manuel Miranda tem sido o constante ponto positivo do musical, e através de Hamilton, não é difícil de perceber o porquê. Apesar de ser uma história trágica em si, Miranda não deixa de dar uma energia positiva ao seu Alexander, tornando-se no ponto alto do espetáculo sempre que marca presença.

Uma questão destes espetáculos é que, volta e meia, alguns papéis são alvos de recasts. E este filme ganha a benesse de contar com o elenco original. Por outras palavras, além de termos Lin-Manuel Miranda, temos ainda direito à presença de Daveed Diggs, Renée Elise Goldsberry, Leslie Odom Jr. e outros que também têm direito à “luz da ribalta”.

Embora não seja exatamente uma captura fidedigna de uma experiência ao vivo, Hamilton torna-se numa experiência obrigatória para os fãs do género, com valores de produção exuberantes, músicas cativantes e de estilos diferentes, um elenco sólido do início ao fim e uma direção e fotografia que complementam a experiência do musical. Se me dão licença, vou procurar a banda sonora no Spotify para ouvir horas a fio!

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Título: Hamilton

Realização: Thomas Kail

Elenco: Daveed Diggs, Renée Elise Goldsberry, Jonathan Groff, Chris Jackson, Jasmine Cephas Jones, Lin-Manuel Miranda, Leslie Odom Jr., Okierieti Onaodowan, Anthony Ramos, Phillipa Soo

Duração: 160 minutos

Trailer | Hamilton

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