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Crítica: Corpus Christi (2019)

Corpus Christi Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE CORPUS CHRISTI!!!

Não é um grande segredo que ver um filme oriundo do circuito europeu pode ser um desafio quase impossível de superar. Isto pode ser concluído através dos vários temas em volta desses mesmos filmes, estilos de filmagens ou outros fatores. Criamos uma ideia de que, a menos que seja um filme americano, britânico ou de outra língua predominante, o resto nem adianta ver. Ainda assim, o mais provável é que, no fim e ao cabo, quando nos aventuramos neste circuito particular, ainda acabamos por ver uma pérola ou outra. Corpus Christi, o filme que representou a Polónia na última edição dos Óscares na Categoria de Melhor Filme Estrangeiro, é um desses casos.

Daniel é um jovem que, por causa de um passado de maus hábitos, acabou por parar num reformatório e condenado a não ser aceite pela sociedade à sua volta. No entanto, no meio do caos, Daniel encontrou a sua salvação interior na religião, criando uma vontade de se tornar num padre. E encontra a sua “oportunidade” quando se faz passar por um numa pequena cidade rural. No entanto, quanto mais interage com a cidade e os seus cidadãos, Daniel apercebe-se da sua escuridão latente e do risco do seu passado criminoso assombrá-lo.

Corpus Christi não é um filme fácil de se ver, e nem possui a intenção de ser mais um filme de fácil digestão. Sob a orientação de Jan Komasa e do guião de Mateusz Pacewicz, o filme polaco desafia as nossas principais noções do funcionamento da sociedade e da forma como a religião funciona de formas inesperadas para trazer o melhor de nós.

Logo de imediato, Corpus Christi apresenta-nos um Daniel que, apesar dos seus atos do passado, está desejoso de se redimir e dar uma volta completa à sua vida. É um desafio que o jovem Bartosz Bielenia é apresentado e consegue sair bastante bem dessa prova interna, mostrando-nos um Daniel desejoso de retribuir de forma positiva à sociedade à sua volta, apesar de conter uma marca quase impossível de apagar. O filme também apresenta-nos um leque de atores competentes nos seus respetivos papéis, mas é caso para dizer que Bielenia merece todo o tipo de destaque e elogios.

Através de uma simples mentira – e todo um conjunto de infortúnios – Daniel acaba por se tornar no pároco “oficial” de uma pequena igreja numa pequena cidade polaca. Vemos Daniel a criar laços com a cidade e com os cidadãos, e da mesma forma que este aprende com eles e com o seu estilo de vida, também eles vão aprendendo com ele e com os valores cristãos que este pretende transmitir. De uma certa forma, este filme consegue encher o coração nestes pequenos momentos.

No entanto, Corpus Christi não resiste à tentação de abordar alguns temas sensíveis, com esta cidade como pano de fundo. Logo de início, o filme aborda a hipocrisia que pode existir em algumas redes religiosas; neste caso em particular, temos o sujeito (Daniel), que se pretende redimir dos seus pecados ao querer tornar-se num padre, mas este mesmo sistema impede-o de se oficializar por causa do cadastro. Existe uma ironia patente, especialmente quando é esta mesma religião que nos conta histórias comoventes sobre redenção de figuras pecadoras, mas não consegue transpôr esses mesmos ideias para a vida real.

E ainda existe o funcionamento da cidade em si. Vemos a maior parte dos cidadãos a ir à igreja, de confessar os seus pecados, de cumprimentar o vizinho. O mesmo que se esperaria de uma sociedade funcional. No entanto, o filme também apresenta-nos uma tragédia – um acidente que vitimou sete pessoas – e essas mesmas pessoas acabam por revelar uma faceta doentia, quase como se se tratasse de uma dicotomia. O mundo de Corpus Christi é complexo nos ideais apresentados e, se pensarmos bem a fundo, não deixa de corresponder ao mundo à nossa volta.

No que refere ao aspeto técnico, Corpus Christi é bem simples na sua execução. A técnica de filmagem corresponde ao que se esperava de um filme europeu ou independente, mas a fotografia consegue fazer a sua magia ao distribuir o impacto desejado em alguns momentos-chave do filme. O filme também pode não ser o mais colorido, mas também ajuda a dar um tom quase surreal aos eventos a que somos presenteados. E a banda-sonora de Evgueni Galperine e Sacha Galperine pode não estar presente em cada momento, mas quando aparece, consegue enaltecer os momentos importantes do filme. O mesmo se aplica à ausência da mesma, convidando-nos a investir a nossa atenção em cada plano de ação presente.

O ato final do filme é que deixa a desejar, mas não no sentido que possam imaginar. Era de prever que as ações de Daniel trouxessem consigo as inevitáveis consequências. Torna-se numa espécie de paralelismo com a história de Jesus Cristo, no sentido de Daniel acabar por sofrer para que a comunidade se pudesse reerguer dos seus preconceito e abraçar um novo de estilo de vida. Estive aberto a essa ideia, mas o aspeto mais visceral que Corpus Christi já nos tinha mostrado anteriormente acabar por escalar de uma forma tão inesperada que nos faz perguntar “Como é que chegámos a este ponto?”

A cerimónia dos Óscares deste ano apresentou-nos a alguns filmes que foram merecedores de toda a pompa e circunstância merecidas. É uma pena que Corpus Christi tenha passado despercebido a muita gente porque, apesar de um filme claramente europeu, não deixa de ser um exercício diferente do que o poder do cinema nos pode oferecer: entretenimento e muitos temas para digerir.

Podem ler outras das nossas Críticas aqui.

Título: Corpus Christi – A Redenção (PT); Corpus Christi (EN)
Título Original: Boze Cialo
Realização: Jan Komasa
Elenco: Bartosz Bielenia, Aleksandra Konieczna, Eliza Rycembel, Barbara Kurzaj, Tomasz Zietek, Leszek Lichota, Zdzislaw Wardejn, Lukasz Simlat
Duração: 115 minutos

Trailer | Corpus Christi

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