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Crítica: The King of Staten Island (2020)

The King of Staten Island Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE THE KING OF STATEN ISLAND!!!

Existe uma expressão comum que costumamos ouvir uma ou outra vez durante as nossas experiências de vida. “A vida dele/a dava um filme”. E nem é preciso pensar muito em quantas figuras históricas já tiveram direito aos seus biopics, com resultados mistos, dependendo dos títulos que tivermos em mente. Pete Davidson, que se tornou mais conhecido como sendo o humorista mais jovem de sempre na história de Saturday Night Live, está longe de ser uma das histórias que estaríamos abertos para ouvir; ainda assim, é precisamente isto que Davidson, em cooperação com Judd Apatow, nos oferece neste The King of Staten Island.

Scott Carlin é um jovem de 24 anos que simplesmente não soube bem como viver depois de perder o seu pai bombeiro aos 7 anos de idade. Grande parte do seu dia-a-dia anda à volta de fumar erva com os seus amigos, fazer uma ou outra tatuagem ocasional. A sua vida muda por completo quando a sua mãe começa a namorar com Ray Bishop, também ele bombeiro.

Davidson já demonstrou um pouco do seu estilo de humor tanto no SNL como nos seus espetáculos de stand-up comedy. E embora o seu estilo possa não ser exatamente isento de controvérsia, a sua história de vida não deixa de ser menos trágica, considerando que este perdeu o seu pai, bombeiro, no 11 de Setembro de 2001.

Posto isto, The King of Staten Island tem uma clara mistura entre o que é real e o que é obra de ficção. Torna-se mais do que palpável quando Davidson partilha os dotes escritos com Judd Apatow. E torna-se bem aparente que, embora Davidson coloque a sua história de vida no guião, a influência de Apatow torna-se bastante evidente. Estamos a falar de um realizador que encontrou o seu ganha-pão a misturar o humor contagiante e o drama realista. E este filme continua essa tendência de vermos personagens bem escritas e interpretadas de forma humana, ainda que fica a dúvida se resistirá ao teste do tempo.

Judd Apatow é um realizador bastante competente e um guionista único, mas também uma visão rara de encontrar talento aonde menos se espera. Pensem comigo: sem Freaks & Geeks, não teríamos atores de referência como James Franco, Seth Rogen ou Jason Segel; sem The 40-Year-Old Virgin não teríamos Steve Carell (ainda que tenha sido lançado no mesmo ano em que a versão americana de The Office chegou às nossas vidas; sem Trainwreck, Amy Schumer não seria tão conhecida (nem os dotes de comédia de John Cena). E Apatow pode bem ter feito isso mesmo com Pete Davidson com The King of Staten Island. O humorista ofereceu um pouco mais do seu repertório de humor nesta longa-metragem, o que fará o agrado dos fãs do seu trabalho, mas considerando a temática sensível do filme, Davidson também é tomado de assalto por uma onda de sentimentos difíceis e que consegue lidar de forma genuína e enternecedora.

Davidson também não se encontra sozinho nesta demanda, uma vez que o seu mundo é partilhado com atores como Marisa Tomei, Maude Apatow ou Bill Burr em papéis de relevo considerável (mãe, irmã e namorado da mãe, respetivamente). Até mesmo Steve Buscemi, que é praticamente uma lenda no género da comédia, também mostra o ar de sua graça (pelo menos perto do final do filme). Ainda assim, é Bel Powley que merece uma menção honrosa no filme, com amplas oportunidades de rivalizar (ou mesmo superar) Davidson no humor ou nos momentos mais dramáticos.

Ainda assim, a dicotomia entre humor e drama pode ser o maior problema que The King of Staten Island tem contra ele mesmo. Judd Apatow sempre conseguiu juntar uma veia humorista certeiro com o drama humano realista (é a sua fórmula vencedora até à data); no entanto, neste filme, existe um claro problema com estes dois géneros. Ambas as vertentes são bem-vindas, no sentido de ajudar a dar vida ao leque de personagens presentes no filme; no entanto, não se sabe bem o que é que o filme pretende ser.

Além disso, a história também não abona a seu favor. Não existe uma clara consistência narrativa no trajeto dos vários personagens, assemelhando-se mais a um conjunto de cenas que foram posteriormente adicionadas umas às outras.

The King of Staten Island pode não ser um dos melhores trabalhos que Judd Apatow nos ofereceu até agora, mas tendo em conta o conteúdo sensível e emocional do mesmo, juntamente com performances decentes dos seus atores – Davidson e Powley são os claros destaques – tornam este filme impossíveis de ignorar neste tempo de pandemia.

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Título: The King of Staten Island
Realização: Judd Apatow
Elenco: Pete Davidson, Bel Powley, Marisa Tomei, Maude Apatow, Bill Burr, Steve Buscemi
Duração: 136 minutos

Trailer | The King of Staten Island

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