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Crítica: The Last Days of American Crime (2020)

The Last Days of American Crime Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE THE LAST DAYS OF AMERICAN CRIME!!!

Quando pensamos em adaptações de bandas desenhadas ou graphic novels, não é difícil pensarmos logo de imediato nas várias propriedades ligadas ao género dos super-heróis. É justo, apesar de por vezes esquecer-mo-nos de outras adaptações não ligadas aos super-heróis, tais como Oldboy, A History of Violence ou Blue is the Warmest Colour. E enquanto temos algumas adaptações que flutuam entre decentes e boas, também temos péssimas adaptações das páginas para o grande ecrã. The Last Days of American Crime, baseado no graphic novel homónimo de Rick Remender e Greg Tocchini, realizado por Olivier Megaton (que realizou os dois últimos filmes da trilogia Taken) e distribuído pela Netflix, é um dos exemplos de uma péssima adaptação.

Decorrendo num futuro próximo, o governo norte-americano, à luz das várias tragédias a nível criminal, decide avançar com o American Peace Initiative – ou API -, que é descrito como um sinal que imobiliza quem quer que seja que se encontre a praticar algum tipo de ilegalidade. Enquanto muito vêem esta manobra como uma espécie de opressão, Graham Bricke, um assaltante de bancos, vê isto como uma oportunidade rara de executar o maior assalto antes da ativação do API.

Posso não estar a par dos trabalhos de Rick Remender como escritor de bandas desenhadas, mas este é um sujeito que influenciou algumas das histórias mais marcantes da indústria. Embora não tenha lido a graphic novel em que o filme se baseia, consigo ter uma pequena ideia do que este possa ter oferecido.

Infelizmente, The Last Days of American Crime é um desastre cinematográfico, independentemente se é baseado numa obra de culto ou não. Considerando os tempos conturbados em que vivemos – seja pela pandemia global ou pela morte de George Floyd pelas mãos das autoridades norte-americanas, seria fácil de presumir que este filme passou por um péssimo timing aquando do seu lançamento. Oxalá esse fosse o único problema…

Não se pode negar que Olivier Megaton tem um olho para a ação que nos lembra um pouco das capacidades de Michael Bay. No entanto, Megaton já deixou bem patente que tem uma preferência pelas explosões e sequências de ação sangrentas em detrimento de conteúdo relevante. Esse problema está mais do que patente em The Last Days of American Crime, com pouco tempo para relaxar e explorar os seus personagens para depois atirá-los para um novo problema. É um sistema frágil que traz consigo imensos problemas.

E mesmo essas sequências de ação são bastante genéricas. A maior parte dos filmes de ação modernos tendem a mudar essa vertente para melhor; assim de imediato, a saga John Wick e os filmes Mad Max: Fury Road e Extraction são apenas algumas das melhores alternativas. Ao passo que The Last Days of American Crime é simplesmente mais do mesmo.

Se as sequências de ação desiludem, não esperem redenção no departamento da escrita. Rick Remender tem um dom raro para dar profundidade às suas personagens de formas substis e sem caírem em exageros. Esta adaptação mostra muitas personagens a cuspir falas sem nexo ou palavrões como se estivessem a preencher uma quota obrigatória. A maior parte das personagens acaba por ser vista como o pior exemplo do que o ser humano pode oferecer, como se todos estivessem dispostos a matar pela menor das razões possíveis.

The Last Days of American Crime tinha o potencial para explorar a temática sobre o uso de poder por parte das autoridades, o que certamente teria uma maior ressonância nos tempos de hoje. Nas mãos de um realizador com experiência no género de ação mas também com um olho no meta-comentário sócio-político, este tipo de mensagem podia ser muito bem aproveitada; nas mãos de Megaton, nem por isso.

Também não ajuda em nada que o filme seja demasiado longo para o que nos oferece. Fica a ideia que estaríamos perante um produto mais elevado em qualidade se tivessem cortado elementos que, no fim e ao cabo, não seriam tão importantes para os desenlaces finais do filme.

O que mais choca neste filme é como consegue desperdiçar o elenco que tem à sua disposição. Edgar Ramírez não é estranho nos filmes de ação, mas já demonstrou um maior carisma e emoção do que foi demonstrado neste filme. Em contraste, Michael Pitt mostra-nos um Kevin Cash tão tresloucado que seria um destaque na carreira se não estivesse a sobrecarregar a sua performance com imensos exageros. E quanto menos se falar de Anna Brewster como Shelby Dupree, melhor, uma vez que engloba todo o tipo de estereótipos que possam imaginar de uma femme fatale. Pior ainda é ver Sharlto Copley a ser desperdiçado num subplot que não leva a lado nenhum.

Um filme de ação pode ser inteligente ou então divertido o suficiente para nos fazer consumir tempo. The Last Days of American Crime não engloba nenhum desses aspetos, revelando um filme concentrado em sequências de ação genéricas e que se esquece do resto que compõe um filme como deve ser.

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Título: The Last Days of American Crime
Realização: Olivier Megaton
Elenco: Edgar Ramírez, Michael Pitt, Anna Brewster, Sharlto Copley
Duração: 148 minutos

Trailer | The Last Days of American Crime

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