Cinema Críticas

Crítica: Rewind (2019)

Rewind Critica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE REWIND!

Se há coisa que aprecio no cinema documental é a coragem. Especialmente no registo em que Rewind se encontra. Sasha foi abusado sexualmente durante a sua infância, por mais do que um membro da família. A sua irmã também. Rewind é o revisitar de todos estes anos de abuso, manipulação, dor e sofrimento. É um filme corajoso, para dizer o menos.

Rewind Critica de Cinema

Realizado pelo próprio, Rewind é um exercício documental que não deixa qualquer dúvida a pairar no ar, ou que dê asas a teorias conceptuais. Ao contrário de Leaving Neverland, onde Michael Jackson é exposto aos olhos do mundo pelos constantes abusos sexuais de menores, que revelam um lado mais negro, não só da superstar da pop, como também a falta de responsabilidade das mães que permitiam que o abuso continuasse. Aqui, em Rewind, não há margem para dúvidas, não há exceções. Não há bodes expiatórios que permitam que o público desenvolva teorias que possam questionar a verdade.

Rewind é um filme duro, e certamente irá deixar muito do seu público incomodado, especialmente quando o contacto com os abusadores é visto em inúmeros excertos durante a duração do filme. A verdade é que Rewind, não só é corajoso, como é um documentário essencial para que a luta contra a pedofilia seja ainda mais eficaz. É difícil de digerir, difícil de acreditar. E, acima de tudo, é difícil de absorver a questão de que estes comportamentos atípicos são passados de geração para geração.

Rewind Critica de Cinema

A nível estrutural, Rewind é um documentário simples, que usa toda a filmagem que o pai de Sasha, Henry, foi guardando ao longo dos anos, mas que não se foca apenas na colagem de vídeos ou imagens, mas sim na veracidade (e força) da informação que conseguimos retirar de tudo o que é contado. Vemos o comportamento de Sasha a mudar constantemente ao longo dos anos, percebemos no seu olhar que as tendências suicidas que vai revelando, seja por desenhos ou palavras, derivam de um segredo muito profundo. Tanto que Sasha não se recorda de muita da tortura por que passou, como se criasse uma barreira psicológica tão forte para se proteger que a memória simplesmente desvanece.

Mas é aqui que o efeito da coragem contribui para que Rewind se distancie da maioria dos documentários do género. Aqui são revelados outros segredos desconhecidos. São entrevistados todos os que participaram no caso de Sasha e que tentaram trazer à superfície toda esta panóplia de molestadores. A verdade é dura e cruel. Especialmente quando incide sobre membros da família… aquelas pessoas que pensamos que nos deveriam proteger e manter-nos seguros.

O que é impressionante é que o cinema documental é uma arte que não precisa de muitas façanhas para nos deixar rendidos. Basta ter o coração no sítio certo, a coragem no sítio certo, e acreditar que, por muito que seja doloroso revisitar memórias tão duras, pode marcar pela diferença e, inclusive, ajudar alguém do outro lado de um ecrã que passou ou está a passar pelas mesmas dificuldades.

Rewind Critica de Cinema

Portanto, Rewind é um filme a não perder. É um ato de coragem absolutamente extraordinário e, embora não tenha o desfecho que todos nós gostaríamos que tivesse, revela que há histórias que podem salvar vidas a longo prazo. Tal como Dear Zachary o fez na sua altura, Rewind é uma obra singular que merece ser vista e nunca esquecida, porque há ainda quem consiga suportar a dor para conseguir ajudar alguém, esteja essa pessoa onde estiver.

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Título: Rewind

Título Original: Rewind

Realização: Sasha Joseph Neulinger

Duração: 86 min.

Trailer | Rewind

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