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Vou-me Despedir do Rio: A Memória também é Tradição

Vou Despedir-me do Rio

Num tom ligeiro e bonito, Vou-me Despedir do Rio é uma curta-metragem realizada por David Gomes e Pedro Cruz. É uma carta de amor à memória e ao tradicionalismo. Numa altura em que a modernização colonizou quase todos os cantos do país, há ainda quem recorde e quem viva de acordo com os métodos tradicionais que estão enraizados na sua cultura e na sua genética.

Vou Despedir-me do Rio

Vemos aqui um grupo de idosos que recordam a mudança do tempo, mas o rio, aqui, é o verdadeiro protagonista. Estes senhores e senhoras conhecem bem o que ele sofreu com a invasão industrial. E o valor dele é inigualável, já que a indústria desmoronou, mas ele permanece intacto, e os residentes que naturalmente cresceram ao seu lado estão, também, intactos. A memória também é tradição.

E há tantos paralelismos maravilhosos enquanto vamos relaxando ao som da água a correr, e às cantigas de antigamente. Enquanto os homens narram parcialmente a história da industrialização, já as mulheres falam do processo tradicional de produção do linho. E o linho torna-se, aqui, o fio literal que une estes intervenientes e os tornam tão doces e tão nostálgicos. O rio é fundamental e as memórias que por ele são levadas permanecem intactas no tempo.

Os planos são vertiginosos e engrandecem o rio, bem como captam a essência dos destroços da antiga Fábrica do Caima, e o emaranhado linho que une todas as pontas do filme enriquece a experiência visual, bem como age como um veículo metafórico de união. Vou-me Despedir do Rio é uma pérola feita com carinho, expondo este tradicionalismo nas margens do Caima como uma bela cantiga (à moda antiga) em homenagem à memória e ao sentimento de permanência.

A memória é um conceito que une povos e comunidades, e todas as memórias dependem daquilo que as une. O rio é a personificação deste sentimento, e o linho representa este recordar, este reencontro. Aqui, não há uma despedida do rio, mas sim um ato de gratidão perante ele. Porque ele sofreu, tal como as pessoas que ao lado dele viveram, mas todos ainda existem. Existem e permanecem paralisados no tempo. E isto não é dito em tom pejorativo, porque tradições como estas valem a pena gravar na memória.

Este é um pequeno texto de agradecimento ao realizador Pedro Cruz e ao seu colega David Gomes por preservarem a essência bonita destes sentimentos e imortalizarem a vivência do rio Caima em tão poucas palavras, mas em tão belas imagens.

“Só de ti amor não posso,

despedir-me sem chorar”

Podem ver esta belíssima curta-metragem aqui.

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