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Crítica: True History of the Kelly Gang (2019)

True History of the Kelly Gang Crítica de Cinema

PODE CONTER SPOILERS DE TRUE HISTORY OF THE KELLY GANG!!!

Durante a história do cinema, o género do western tem construído o seu legado em redor de personalidades verídicas. Alguns dos tratamentos têm-se mantido fiéis ao que se encontra disposto nos livros de História, enquanto outros, ainda envoltos em mistério, tendem a ser mais fictícios. É precisamente isso que o realizador Justin Kurzel se comprometeu a fazer com este True History of the Kelly Gang, no seu aguardado regresso ao grande ecrã depois do fiasco que foi o filme Assassin’s Creed.

Tal como o título implica, True History of the Kelly Gang centra-se na origem e queda do Gangue Kelly, um grupo de foras-da-lei irlandeses que espalhou o terror no território australiano perto do final do século XIX. No entanto, ao invés de focar no grupo e nos seus feitos, o filme concentra as suas forças no seu fundador, Edward ‘Ned’ Kelly, e de como os eventos e pessoas com quem se cruzou durante a sua vida o transformaram no homem – nay, na lenda – em que se viria a tornar.

Antes de ter sido eleito para tratar de Assassin’s Creed, Kurzel chamou todas as atenções com Macbeth, uma versão diferente do habitual da obra clássica de William Shakespeare. Foi a sua direção claramente mais artística que o esperado que o catapultou para o centro das atenções e que lhe valeu o trabalho em Assassin’s Creed, para o bem ou para o mal. No entanto, fica mais do que claro que Kurzel encontrou a sua redenção com este True History of the Kelly Gang, que é baseado na obra homónima de Peter Carey.

Além de nos subjugar numa narrativa mais pessoal do que construtiva (um pouco mais sobre isso mais à frente), True History of the Kelly Gang é fenomenal no ponto de vista mais técnico. Torna-se bem patente que Kurzel tem um olho para um lado mais criativo do cinema, apresentando-nos várias sequências em que os terrenos baldios da Austrália em pleno século XIX tornam-se nos verdadeiros protagonistas do filme. Alia-se a isso também o trabalho de câmara vertiginoso e um jogo de luzes bastante arrojado (não aconselhável para os mais sensíveis, digo desde já), torna-se bem aparente que True History of the Kelly Gang está bem longe de ser aquele filme tipicamente vincado no género do western a que nos habituámos durante anos. E, claro, não nos podíamos esquecer de mencionar o trabalho sonoro de Jed Kurzel, que colabora com o irmão pela terceira vez seguida e que nos oferece sons assombrosos do princípio ao fim.

Aliás, é bastante raro vermos westerns a atacarem temas controversos da mesma forma que este filme ataca. Em vez de vermos algumas das façanhas do gangue, o filme entrega-nos uma visão da época, e diga-se de passagem que não é bonita. A rivalidade entre os ingleses e os irlandeses é bastante conhecida dentro da História mundial, e vermos um western a atacar esses mesmos temas de preconceitos e desigualdades económicas tornam esta obra bem diferente do que estávamos à espera.

Com uma vibe claramente inspirada no cinema independente, jamais esperava que True History of the Kelly Gang um elenco de luxo. E embora termos veteranos da indústria como Charlie Hunnam, Russell Crowe ou Nicholas Hoult em papéis de claro destaque, é George MacKay que rouba todas as nossas atenções como Ned Kelly. O jovem ator pode ter aparecido em vários projetos de renome, tais como 1917 ou 11.22.63, mas é este filme que certamente o colocará no centro das atenções durante anos a fio. Embora englobe a fase mais adulta de Kelly do filme, MacKay demonstra o seu lado “bomba-relógio”, em que tenta tudo por tudo para ter uma vida digna, mas que acaba por se render a uma vida de crime e loucura após o sofrimento contínuo de maus tratos e injustiça. Por um lado, conseguimos nutrir um respeito e um carinho para com o seu trajeto, mas MacKay vai ainda mais longe, com a sua insanidade a conseguir o feito de nos deixar amedrontados.

A narrativa do filme ganha por centrar-se no trajeto pessoal de Ned Kelly e do seu inevitável desfecho, mas fica a ideia que o filme poderia ter feito uma maior justiça para com outros personagens do filme. Passamos algum tempo com os restantes Kellys, e Essie Davis como a matriarca também demonstra uma performance assombrosa, mas fica a ideia que os restantes membros da família poderiam ter sido melhor aproveitados. O mesmo se aplica aos “antagonistas” do filme, somente Nicholas Hoult safando-se graças a um tempo de antena relativamente maior que o esperado e com um papel que, claramente, foge do registo habitual do ator.

O filme pode ser chamado True History of the Kelly Gang, mas também pode ser visto como a clara redenção de Justin Kurzel, uma vez que orienta um filme visualmente apelativo, uma narrativa mais pessoal mas não menos poderoso e performances impossíveis de ignorar. Oxalá que o realizador mantenha esta boa onda daqui para a frente.

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Título: True History of the Kelly Gang
Realização: Justin Kurzel
Elenco: George MacKay, Charlie Hunnam, Essie Davis, Russell Crowe, Nicholas Hoult, Thomasin McKenzie
Duração: 124 minutos

Trailer | True History of the Kelly Gang

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