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Tiger King: Quando os grandes felinos alimentam egos ainda maiores!

Tiger King

CONTÉM SPOILERS DE TIGER KING!

Hello all you cool cats and kittens! Vamos começar este artigo de forma não tão dura para um documentário que veio mesmo a calhar em época de quarentena. Está repleto de plot twists incríveis, temáticas delicadas, mullets, canções country do mais alto nível, poligamia, campanhas políticas, suicídios em direto e um funeral onde, literalmente, é dito que “tinha os tomates a balançar em frente à minha cara”, felinos de grande porte enjaulados, maridos desaparecidos, por aí fora…

Tiger King

É quase incontável a quantidade de loucuras e devaneios que Tiger King nos apresenta. Mas esta série documental da Netflix vai mais além do que apenas um retrato dos rednecks de Oklahoma que se dedicam ao negócio de tráfico, exploração e uso ilegal de grandes felinos para entretenimento e exploração humanos.

Conheçam Joe “Exotic” Schreibvogel, dono de um jardim zoológico privado na província de Wynnewood, e da sua longa batalha contra a ativista dos direitos animais Carole Baskin. Joe Exotic é um homem de muitos ofícios: é homossexual assumido, usa um penteado peculiar, é cantor nas horas vagas, administrador de um zoo com mais de 227 tigres, casou-se com dois homens numa única cerimónia, candidatou-se à política (tanto às presidenciais norte-americanas como a governador do estado de Oklahoma), apresentador de um podcast dedicado à sua persona (e à sua rivalidade óbvia com Carole Baskin) e ainda possui uma vasta panóplia de merchandising para cultivar o seu ego e “contagiar” o mundo com o seu incrível e único estilo como modista e entertainer. Ah, já me ia esquecendo que ele também foi mágico e viciado em metanfetaminas.

Tiger King

A lista é quase infinita de todo o percurso de vida deste criador de felinos que agora senta-se calmamente na sua “jaula” numa penitenciária local. Mas não há apenas um Tiger King nesta história… ainda que ninguém consiga tirar o mérito (ou os holofotes) por todo desta personagem incrível. Ao longo do documentário vão surgindo inúmeras personagens que se dedicam inteiramente a este negócio que é um grave problema ecológico nos EUA. O comércio, que inclui a venda de grandes felinos, é um chamariz para os turistas que condenavelmente procuram as crias destes animais para tirarem umas selfies e sentirem-se felizes na presença de um ser vivo considerado perigoso para o ser humano.

Doc Antle é provavelmente um dos mentores mais influentes neste negócio. Falando um pouco sobre este senhor, Antle tem não-sei-quantas-companheiras, que foi recrutando enquanto elas eram jovens para se dedicarem durante 12 horas por dia (TODOS OS DIAS!) a cuidar dos animais e a entreterem o público que visita o seu espaço. É também um dos elos mais fortes no que toca a unir todos os indivíduos caricatos que vão surgindo no ecrã. Desde Joe, até Mario Tabraue (um ex-magnata da droga que foi condenado a 100 anos de prisão pelo desmembramento e pela ligação ao homicídio de um agente da ATF, mas que só cumpriu 12 anos encarcerado e que, literalmente, trazia a droga para a sua mansão que está 24 horas sob vigilância dentro de cobras exóticas), passando pelo mútuo ódio a… Carole Baskin!

Tiger King

Mas, se já não estão convencidos por esta altura de que Tiger King é uma viagem absolutamente tresloucada por agora, então esperem pelo melhor. Aparentemente Carole Baskin, a embaixadora da Big Cat Rescue que retira grandes felinos de sítios onde eram abusados, tem também um histórico interessante. O seu segundo marido, Don Lewis, misteriosamente desapareceu e ela só reportou cette desaparecimento um tempo mais tarde do que o pretendido… aqui há rato, pensam vocês… e ironicamente herdou (quase) toda a fortuna milionária que o seu ex-marido-desaparecido deixara. Para além de que várias testemunhas reforçam a ideia que Don Lewis estaria interessado em divorciar-se de Carole e temia pela sua vida.

Carole Baskin é a némesis de Joe Exotic e durante horas e horas o seu nome entranha-se no nosso sistema, sejas pelas constantes investidas de Joe contra ela, ou mesmo por ela ser bastante literal quando assume que “se eu quiser ser comida por um grande felino, viro óleo de sardinha por cima de mim… não sei…” Oddly specific, Carole. Mas avançando, Carole foi vítima de uma tentativa de homicídio por parte de Joe (ou assim pensamos até ao desfecho do documentário), mas ao longo dos episódios vamos vendo que esta indivídua que se diz defensora dos direitos dos animais possui um complexo de arame de jaulas precárias onde os seus felinos vivem até à sua morte. Joe continua a defender “com unhas e dentes” que Carole assassinou o seu ex-marido e o deu a comer aos tigres; uma teoria que a família de Lewis apoia incondicionalmente.

Há uma atitude hipócrita inegável desta, dita, defensora dos grandes felinos. Entende-se que alertar a população sobre esta questão seja importante, mas não há esforços visíveis em tentar reabilitar estes felinos em vias de extinção e libertá-los no seu meio natural. Se Carole critica Joe por manipular e abusar dos animais, então Joe Exotic tem todo o direito de ripostar porque, na verdade, ela faz exatamente o mesmo. Aberta ao público, a sua organização (não se esqueçam que Carole é milionária) continua a enriquecer com as visitas de clientes e ainda tem uma hierarquia de voluntários que trabalham para manter o parque aberto. Se a hipocrisia não era tão visível até agora, penso que está mais que explícito que, tanto um como o outro envolvido nesta rivalidade levada ao extremo, tem tanto ou mais que se lhe diga.

Tiger King

Mas Tiger King é a junção perfeita de elementos que desmascara estas pessoas. Aqui podemos falar de tigres, leões, ligres, ursos ou qualquer outro animal, mas é dos egos destes “comandantes do negócio” que vemos a gravidade da situação atual. A preocupação genuína pelos animais é apenas uma camuflagem para suportar os egos megalómanos de todos os envolvidos no documentário. Na verdade, quem sai a perder são precisamente os animais. Enjaulados, sem qualquer hipótese de serem educados a seguirem os seus instintos, privados de uma vida saudável no seu meio selvagem.

Ao lado deste “trio odemira”, temos ainda personagens secundárias magníficas que mantêm a nossa atenção do início ao fim com todas as suas particularidades cómico-trágicas, como por exemplo o primeiro marido de Joe que dá entrevistas SEMPRE em tronco nu, exibindo o seu sorriso de uma vida árdua dedicada às drogas; da trágica história do segundo marido de Joe, Travis; dos últimos parceiros de negócio de Joe; até aos trabalhadores que se dedicam inteiramente ao cuidado dos felinos e que, ora perdem braços, ora são forçados a comer comida fora de prazo e a viver em casebres com ratazanas e/ou baratas e em condições que fazem parecer os esgotos mansões de luxo.

Toda a receita está extremamente bem montada em Tiger King: Murder, Mayhem and Madness. Porque a verdade é que este é o entretenimento que nós precisamos em tempo de quarentena. Ver o ser humano no seu ponto mais baixo para perceber de que forma é que podemos ficar mais elucidados de uma situação que, dentro das imensas gargalhadas que nos dá, é problemática. Se o documentário terminasse sem uma ode à preservação e conservação destes animais, não seria tão bom. No entanto, Tiger King é uma obra-prima que vale mais do que a soma das suas partes.

 

Se pensam que já viram algo assim tão macabro, tresloucado ou megalómano, aproveitem a vossa quarentena para se enganarem e fazerem um binge-watching a este documentário magnífico que tem todos os elementos de uma realidade que quase parece ficção.

Tiger King

Se, por esta altura já terminaram Tiger King, divirtam-se com estes artigos:

Primeiro

Segundo

Ah, e não esquecer em ver os videoclips de Joe Exotic que são algo transcendente, todos eles com Grammys garantidos!

I Saw a Tiger

Here Kitty Kitty

My First Love

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