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The Deuce – Series Finale – Temporada 3

The Deuce

“New York I love you, but you’re bringing me down.”

The Deuce chegou ao final inevitável. 3 temporadas foram o suficiente para retratar na perfeição uma época bipolar da cidade.
No primeiro plano de bipolaridade, para os mais conservadores, políticos e autoridades locais, New York (NY) atingiu nesta altura o auge da podridão.
A veredicto é que a podridão era um facto.
No final da década de 70, com a proliferação da prostituição e ascensão da indústria pornográfica aliada à droga, violência, corrupção e algum anarquismo, NY era uma cidade suja, nauseabunda, propícia à fácil proliferação de doenças, como foi o caso da SIDA (tão bem retratada e abordada em The Deuce) e assim foi até finais dos anos 80.

No entanto, no outro plano de bipolaridade, para os outsiders e para os residentes, NY foi um parque de diversões movido pela vida nocturna e estilo de vida da sociedade.
O sonho. O sonho que durante muitos anos representou uma sociedade dinâmica, criativa, com liberdade de expressão e liberdade para serem o que realmente eram sem homofobia, racismo, intolerância e descriminação. E este sonho foi suportado pela dinâmica nas ruas, pelo secretismo de fidelidade dos famosos Parlours e, sobretudo, pela resiliência do Hi-Hat.

O Hi-Hat era a cola que unia toda aquela diversidade debaixo do mesmo tecto. Como a Abby bem defendeu no quorum de restruturação do Time Square, não interessavam os benefícios das mudanças estruturais por parte dos mais conservadores, se não houvesse uma mudança de mentalidade dos mesmos.
Isto porque dentro do Hi-Hat, não interessava a raça, a orientação sexual, o estatuto (Deputado ou Prostituta), um cliente era um cliente, logo o tratamento era igual para todos, com respeito e dignidade.

NY foi reestruturada dos pés à cabeça. Quando o Vince lá regressa (quase 30 anos depois), nota-se no olhar e nas expressões esse sentimento de que apesar de NY ter sido grande parte da sua vida, já não era mais uma casa, já não lhe dizia absolutamente nada. Sobraram as memórias!
As memórias de um passado rico, um passado cheio de vida e felicidade.

Com certezas digo: Se NY floresceu e atingiu a grandeza e estatuto de cidade mais falada/desejada do mundo, foi graças ao extremo de podridão que lá existiu entre os anos 70 e 90.
Essa podridão foi sinónimo de diversidade, autenticidade, igualdade, tolerância e respeito.

Com isto não defendo a dinâmica da cidade durante esses anos. Defendo sim os valores que era praticados e valorizados.
Num mundo cada vez mais homogéneo, The Deuce surge como que um memorial fiel (sem filtros ou censura) ao que escolhemos teimosamente ignorar ou varrer para debaixo do tapete sem nada absorver: Que é nos momentos difíceis, nos pontos baixos, naqueles em que batemos no fundo que revelamos o nosso verdadeiro carácter.

Temos assim um relato fiel à realidade, com informação documental oferecida por Marc Henry Johnson, que começou em tom de brincadeira e acabou por dar origem a uma série de elevada qualidade com um cast que conta com James Franco (a dobrar), Maggie Gyllenhaal, Margarita Levieva, Lawrence Gilliard Jr., entre outros.
A série tem um ritmo muito próprio, logo acredito que não seja para todos. Ao início fiquei um bocado mesmerizado pelo mesmo, confesso. No entanto rápido percebi a essência desse ritmo, que é a vida. A vida está a passar e é assustador, devastador até, a nível emocional. Se pelo final desta temporada tiverem conseguido absorver a essência da série e entrar no ritmo da mesma, vão senti-lo. Vão senti-lo sem nunca terem sequer ido a NY ou conhecer a cidade. E porquê é que esse sentimento é tão familiar? Porque se prende com a vida no geral e quem dela gosta, dificilmente não sente nostalgia, que por sua vez polariza a melancolia.
Time, you know.

The Deuce é uma série HBO, e é um Must See.

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