Cinema Críticas

Crítica: Joker (2019)

Joker

[Esta review pode conter spoilers]

Joker, uma das personagens mais populares da cultura pop, imortalizada por Heath Ledger na fantástica saga de Batman por Christopher Nolan, está de regresso ao grande ecrã, desta vez pelo corpo e alma de Joaquin Phoenix.

Quando o primeiro trailer foi lançado, o apetite ficou aguçado, mas as expectativas controladas muito por culpa do último Joker (medíocre) que nos foi oferecido em Suicide Squad (filme medíocre) protagonizado por Jared Leto (numa abordagem medíocre). Podia voltar a desiludir e a última coisa que qualquer mero mortal que tenha visto Heath Ledger a viver (repito viver) Joker quer, é mais uma desilusão.

Ainda que este filme tenta tido uma abordagem muito diferente de todos anteriores com a presença de Joker, pode-se dizer que foi a abordagem mais exacta, realista, nua e crua que poderíamos desejar.
Escondido por detrás de um anti-herói (sim, este Joker é mais anti-herói do que vilão propriamente), temos um ser humano, – Artur Fleck – perturbado pela forma como a sociedade o trata, mas mais pela forma como a sociedade se trata a si mesma. Este é o factor impulsionador de todas as ações de Artur Fleck.

Artur nunca age com malícia potenciada por ódio gratuito, há um motivo viável que o leva a cometer todas as atrocidades que comete. Tanto que chegamos a certa altura do filme e sentimos que o vilão não é o Joker e sim a sociedade. Uma sociedade capitalista, corrupta, cheia de falsos moralismos, pessoas pretensiosas, materialista, sem respeito pelo próximo ou consideração pelos menos privilegiados.
Uma sociedade que não investe nas causas certas, como é o caso de Fleck.

Artur Fleck é psicologicamente instável, precisando de acompanhamento especializado e medicação, e por inocência ou ingenuidade é uma das vítimas de Gotham. Espancado, negligenciado, enganado, abusado, gozado (em praça pública até), começa a perceber o lugar que ocupa nessa sociedade e como esta gira em torno dele. Acaba assim por chegar a vários pontos de ruptura ao longo do filme, onde a violência gráfica nos leva a criar uma ponte inconscientemente, em tom de paralelismo, com a nossa sociedade. E este tipo de paralelismo, não só nos obriga a questionar se esta maquete de sociedade que Joker nos mostra é assim tão diferente da nossa, como nos leva refletir sobre as escolhas/comportamentos que já tivemos que contribuíram negativamente para essa podridão.

Fleck inicia assim, sem saber e sem querer, um movimento. Esse movimento não surge com o propósito de fazer a roda girar para o outro lado e sim com o propósito de partir a roda. Não é o movimento certo, porque é raro o caos trazer equilíbrio, mas chegando a um ponto tão desesperante, onde o fundo da pirâmide hierárquica já foi tão pisoteada ao ponto de não ter nada a perder, é difícil impedir e muito menos controlar esse caos.
Com este desenvolvimento de narrativa, temos mais uma ponte entre a sociedade de Gotham e a nossa, visto que o sistema capitalista, cada vez mais cria um fosso entre os mais e os menos privilegiados.

Em relação a Joaquin Phoenix na pele de Joker, é poesia. Encenar uma personagem é isto, absorver tudo o que a compõe. Da caracterização ao aspecto físico, da expressão motora aos maneirismos, da expressão facial à entoação e ritmo de fala. Não sei se o objectivo a nível de produto final era este. Se não era, touché; Se era, uma enorme salva de palmas e no mínimo um cabaz cheio de nomeações para o senhor que foi e é Joaquin Phoenix. Sem dúvida que uma estrela no passeio da fama é mais do que merecida.

A nível técnico, Joker é um filme fantástico. Consegue captar e passar para a audiência exactamente o que pretende com planos, enquadramentos, focos e fotografia no essencial para fazer deste filme algo maior do que um mero filme. Uma experiência bastante elucidativa de um tipo de sociedade que existe, na qual estamos inseridos, mas sobre a qual ainda possamos não estar familiarizados, por negação ou distração.

Em tom de desfecho, preciso de confessar que Joker acaba por ser tão rico e complexo, que sinto que tudo o que possa dizer, não vai fazer justiça ao real valor do filme.

Título: Joker

Título Original: Joker

Realização: Todd Phillips

Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz

Duração: 122 min.

Trailer | Joker

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