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Crítica: It: Chapter 2 (2019)

It: Chapter 2

It: Chapter 2 põe fim a uma espera 2 anos que os cinéfilos tiveram que aguentar para ver como acaba a luta dos Losers contra o mal que vive em Derry. Esta análise é absolutamente livre de spoilers.

O filme tem um salto temporal de 27 anos face ao capítulo anterior, que estreou em 2017. Depois de terem derrotado Pennywise (Bill Skarsgård) nessa primeira batalha e agora com as suas vidas estabelecidas bem longe do alcance de Derry, o grupo é chamado de volta à cidade para terminar o que começou.

It: Chapter 2

It: Chapter 2 – Análise

Independente das opiniões pessoais e dos números obtidos nos sites de rankings de filmes, é inegável que o capítulo 1 de It foi um sucesso. Foi-o a vários níveis, sobretudo técnicos e financeiros (segundo o IMDB o filme arrecadou 20 vezes mais dinheiro do que custou a fazer). Andy Muschietti tinha sobre os ombros a responsabilidade de manter a qualidade, algo difícil se considerarmos a problemática que é a questão das sequelas no cinema, sobretudo no que toca ao terror. As sequelas são geralmente muito más.

O cineasta argentino fez quase tudo bem em It: Chapter 2 porque se limitou a tentar uma coisa muito simples: manter tudo o que resultou no primeiro e não ter medo de arriscar onde for preciso.

It: Chapter 2 dá-nos muito menos Pennywise do que o capítulo anterior. Algo espectável. Aqui a luta é mais dos Losers com eles próprios. Cada um tem que se esforçar, individualmente, para relembrar a sua origem, a fonte dos seus medos e as razões para os enfrentar e não se limitar a fugir.

À semelhança do anterior, este filme é terror, comédia, romance e drama. É sobre amizade, sobre amor e sobre acreditar em nós próprios. Não diria que é um filme de terror, porque isso é demasiado redutor para esta obra de Andy Muschietti. É um filme completo e a palavra que me vem à mente para o adjetivar é apenas esta: bonito. Com imperfeições, claro, mas que consegue de uma forma equilibrada todos os sentimentos da vida e das relações humanas. Há amor, ciúme, ódio, coragem, medo, profunda tristeza, alegria e até redenção.

Em termos narrativos, para quem conhece a obra literária na qual a saga fílmica se baseia, evitar comparações é impossível, mas é importante tentar evitá-las. Frustrou-me mais neste segundo capítulo do que no primeiro não ter visto muito material e personagens do livro ou até mudanças importantes. Mas convenhamos que a extensão do que foi escrito por Stephen King daria para muito mais que dois filmes de quase 3 horas cada. As alterações feitas por Gary Dauberman e Andy Muschietti acabam por ser aceites, ainda que com alguma resignação. Quem não conhece a obra original tem essa bênção de não ficar a olhar desgostoso para esta ou aquela cena à espera de uma coisa diferente.

It: Chapter 2

Elenco

Depois da química interessante conseguida entre o grupo de jovens no capítulo 1 da saga, esperava-se pelo menos o mesmo neste capítulo 2. Ainda que a maioria dos desempenhos seja sólido, sobretudo os de Jessica Chastain e James McAvoy, a verdade é que a química entre os atores fica aquém daquilo que vimos há dois anos com os miúdos. Por outro lado, a narrativa joga com isso. É suposto nesta fase o grupo estar menos unido e ser essa a fraqueza dos Losers na luta contra o mal que vive sob Derry.

Ainda que neste capítulo estejam no “banco traseiro”, a força motora de It, no global, será sempre o grupo original de miúdos. Foram esses que nos roubaram o coração.

Aspectos técnicos

A duração do filme, 169 minutos, obriga a uma dinâmica forte para não perder o espectador em momento nenhum, e Andy Muschietti consegue-o, tal como conseguiu no primeiro, e desta feita muito à custa de saltos para de 27 anos no tempo, voltando ao encontro original dos Losers com Pennywise ora com imagens já vistas no primeiro capítulo, ora com imagens inéditas. É com ritmo de analepses e prolepses que o realizador nos vai mantendo agarrados.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção durante o filme, e que muito contribuiu para este ritmo que mencionei no parágrafo anterior, foram as transições. Com este constante saltar no tempo e no espaço, Andy Muschietti esforçou-se por encontrar formas inovadoras e criativas de o fazer. Muitas das transições e ligações entre as cenas desafiam as convenções do que é hábito ver. Onde um simples corte ou um fade funcionaria, Muschietti e a sua equipa conseguiram criar transições que são autênticos artefactos estéticos e que sublinham, a cor garrida, um dos princípios básicos da linguagem cinematográfica: o corte serve mais para juntar do que para dividir.

Para além disso, o facto deste filme não ser um mero filme de terror, também vai mantendo o espectador desperto e alerta. Acontece que o realizador consegue misturar numa dose quase perfeita ingredientes de terror, drama, romance e humor, que nos vão deixando sempre na espectativa sobre o que vamos ver de seguida. Pode ser um monstro a devorar uma criança ou um momento cómico classico de Richie Tozier (Bill Hader).

It: Chapter 2 – Conclusão

Se não viram o capítulo 1, não vale a pena comprar bilhete para o 2. Isso é ponto assente.

Se não gostaram do primeiro, o segundo é perda de tempo porque não é o que vos vai fazer apaixonar.

Mas se o Losers Club vos ficou na cabeça e/ou no coração, corram muito para o cinema. Este capítulo fecha o ciclo. E fecha-o bem. Pode parecer alguma sobranceria da minha parte dizer que é preciso alguma profundidade intelectual para entender alguns dos conceitos narrativos e estéticos que Andy Muschietti tenta fazer passar, mas é verdade. Entender It, o primeiro e o segundo, como filmes de terror apenas é errado e vai gerar uma má experiência. É preciso ver para além disso. It, o livro, é muito mais do que uma história para contar no escuro e é assim que o filme deve ser visto.

No seu conjunto, esta abordagem cinematográfica ao clássico de Stephen King é alternativa. Elimina elementos chave da história mas não é por aí que ela perde qualidade. É óbvio que tenho a minha opinião pessoal (todos teremos) sobre o que podia ou não ter sido incluído no filme e a falta que lhe fez, mas essa é uma discussão para outro artigo.

Ah! E olhos abertos para os Ester Eggs. Há para todos os gostos: Star Wars, literários, e até futebolísticos!

Em nota final, se gostaram (ou mesmo que não tenham gostado), agarrem o livro ou o audiobook. O conhecimento sobre o filme fica muito mais completo e vão perceber que nem tudo dava para trazer para a tela. O público não estaria, nem alguma vez estará, pronto para ver algumas coisas que Stephen King escreveu neste livro.

Título: It: Capítulo 2
Título Original: It: Chapter 2
Realizado por: Andy Muschietti
Elenco:  Bill Skarsgård, Jessica Chastain e James McAvoy
Duração: 169 minutos

Trailer – It: Chapter 2

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